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- Como patrocínios ambientais da Petrobras compram o silêncio
Cláusulas de confidencialidade em contratos de patrocínio restringem críticas, moldam a divulgação de pesquisas e conferem à gigante petrolífera brasileira uma influência discreta sobre a ciência ambiental e a diplomacia climática. Investigação por Mirna Wabi-Sabi, fundadora da Plataforma9, jornalista e escritora brasileira cujo trabalho se concentra em governança ambiental, poder corporativo e políticas climáticas. Publicado em colaboração com Esquerda Diário. Entre 2023 e 26, a Petrobras está investindo quase 15 milhões de reais em um instituto ambiental que pesquisa emissões sonoras de fontes sísmicas. A tecnologia sísmica marinha é utilizada para mapear recursos no fundo do oceano, e é literalmente ensurdecedora. Via canhões de ar comprimido rebocados por navios, a Petrobras mapeia as camadas subterrâneas da Terra para identificar onde podem existir reservatórios de petróleo e gás natural. Essa atividade tem um impacto severo na fauna marinha, e preocupações ambientais aumentam com a expansão da exploração offshore. “A poluição acústica é um dos problemas ambientais emergentes no mundo, sendo o ambiente aquático um dos mais afetados. Diversas atividades humanas podem produzir ruídos, como o tráfego de embarcações, sonares, construções e pesquisas sísmicas. Estes ruídos podem causar diferentes efeitos e impactos na vida marinha, mas em especial aos cetáceos. Estes efeitos incluem lesões permanentes ou temporárias no sistema auditivo, além de mudanças comportamentais.” (Trecho da justificativa do projeto pelo Instituto Baleia Jubarte – Respostas Individuais Dos Mamíferos Marinhos À Sísmica (MARESIS), Contrato 0050.0125991.23.9, vigente entre 2023 e 2026.) Ao abordar a essa preocupação, o Instituto Baleia Jubarte desenvolveu o Projeto “Respostas Individuais dos Mamíferos Marinhos à Sísmica” (MARESIS). Essa iniciativa utiliza sensores e drones para mensurar os efeitos da poluição acústica na saúde dos golfinhos, baleias, e cetáceos em geral, seja em seu comportamento, ritmo cardíaco, sensibilidade auditiva, ou resposta hormonal. Esse esforço envolve expedições em áreas como a Bacia de Santos, usando zonas livres de atividades industriais como controle de comparação, e deve gerar em 2026 dados robustos para orientar políticas mais eficazes de mitigação da perturbação sonora. Mais que uma pesquisa acadêmica, é um ensaio de responsabilidade socioambiental corporativa, com a Petrobras financiando diretamente estudos que avaliam os impactos de suas próprias operações. O contrato de patrocínio entre o instituto e a petroleira possui uma cláusula de sigilo e confidencialidade, que faz com que as informações coletadas, as estratégias de comunicação e os materiais de divulgação sejam controlados. Essa provisão assegura à Petrobras o direito de revisar previamente todos os artefatos produzidos pelo projeto, garantindo que a imagem da empresa seja protegida, e que a narrativa pública se alinhe ao interesse institucional e à reputação desejada. “7.2 - Cada PARTÍCIPE se compromete em manter sigilo sobre as informações trocadas e geradas durante a execução das atividades do presente TERMO DE COOPERAÇÃO por um período de 10 (dez) anos e ainda, não revelar nem transmitir direta ou indiretamente as informações trocadas a terceiros que não estejam envolvidos no desenvolvimento do objeto deste TERMO DE COOPERAÇÃO. / “7.2.1 - O prazo previsto no item 7.2 não se aplica às informações e aos dados relativos ao segredo de negócio (know how, trade secret), à estratégia comercial e a tudo que represente diferencial competitivo para o PARTÍCIPE DIVULGADOR, que deverão ser mantidos sob sigilo, pelo PARTÍCIPE RECEPTOR, por prazo indeterminado, salvo autorização expressa do PARTÍCIPE DIVULGADOR. / “7.3.1 - Para fins de sanção administrativa interna, o descumprimento da obrigação de sigilo tem caráter de irregularidade grave.” No contexto de uma autópsia de um animal marinho, a causa da morte pode ser considerada confidencial por envolver dados relativos ao segredo de negócio da patrocinadora. Contratualmente, o público não é dado o direito de acessar os resultados dessa pesquisa na íntegra, ou de utilizá-las para fazer demandas de práticas sustentáveis à Petrobras.[1] Gás Lighting foi uma expedição à Baía de Guanabara, coordenada por Malu Hatoum e Filipe Britto, com 13 artistas sonoros e visuais do Brasil, Argentina e Alemanha, no dia 28 de setembro de 2025, com o propósito de observar e capturar áudio e imagem das plataformas de gás e petróleo. Foi parte da programação do IV SomaRumor – Encontro Latino Americano de Arte Sonora, e do Rio Ocean Week 2025 no Museu do Amanhã. Durante décadas, a Petrobras tem sido uma das maiores patrocinadoras de iniciativas culturais e ambientais brasileiras. A imagem negativa da empresa construída ao longo dos anos, com base em desastres ecológicos, vazamentos de óleo, extração nociva e corrupção, aos poucos vem sendo reformulada. Uma parte dessa estratégia se dá por meio de investimentos em projetos de proteção da natureza e biodiversidade. Na tentativa de se apresentar como parceira da sustentabilidade, uma questão incômoda surge em suas práticas contratuais: Projetos ambientais financiados pela Petrobras nem sempre têm a liberdade de questionar os impactos da indústria petrolífera, do extrativismo ou da expansão da fronteira energética no meio ambiente. Autocensura preventiva e “menção prejudicial à imagem” Anualmente, a petroleira investe centenas de milhões de reais em projetos ambientais por meio de seu programa socioambiental. No entanto, contratos de patrocínio muitas vezes incluem cláusulas que demandam que patrocinados mantenham a marca a salvo de qualquer responsabilização, queixa ou crítica pública – independentemente dos resultados das pesquisas que o patrocinado foi financiado para desenvolver. Mesmo que uma ação da própria Petrobras afetasse negativamente o território do projeto, como em caso de poluição ou destruição, a instituição financiada não poderia expor ou acionar publicamente a empresa sem ferir o contrato e lidar com repercussões financeiras avassaladoras. Já que é obrigação do patrocinado: "Arcar com todos os custos e despesas relativos aos processos administrativos, judiciais e arbitrais, que venham a ser ajuizadas em face da PETROBRAS, resguardando os interesses da PETROBRAS, inclusive por meio das garantias necessárias a sua desoneração." (Cláusula 5.1.6 do contrato 5900.0131002.25.2) Isso significa que qualquer processo movido contra a Petrobras, ainda que por terceiros e indiretamente ligado ao projeto patrocinado, deverá ser custeado e assumido integralmente pelo patrocinado. Tal cláusula torna a Petrobras intocável. Nesse caso em particular (contrato 5900.0131002.25.2), o saldo de R$ 85.000,00 é um valor barato para garantir que um ‘Encontro Nacional Sobre Conservação e Pesquisa de Mamíferos Aquáticos’ não possa denunciar impactos negativos ou ação ilegal da Petrobras nos oceanos e na vida desses animais.[2] Esse tipo de ‘blindagem’ pode aparecer de forma explícita em cláusulas de rescisão contratual. Em uma cláusula de um contrato assinado em 2017 com um instituto de restauração florestal, que se repete em pelo menos oito contratos ainda vigentes em 2025, a Petrobras se reserva o direito de encerrar o patrocínio sem indenização caso o patrocinado ou qualquer um de seus membros cometa “qualquer ato que cause danos à Petrobras, inclusive no que diz respeito à imagem institucional.” Em entrevista, representantes do Instituto que opera o projeto de objeto desse contrato negaram a existência da cláusula, e depois negaram que ela tenha tido qualquer impacto no trabalho deles, quando existia. Afirmaram também que participam de organizações ativistas ambientais e nunca foram questionados sobre isso pela Petrobras, mas não souberam dizer em quais campanhas eles colaboraram, ou se elas tinham qualquer relação com a petroleira ou a indústria offshore, em geral. Já o representante do Encontro Nacional Sobre Conservação de 2025 também afirmou que essa cláusula não gera restrição alguma para a seleção ou divulgação de trabalhos acadêmicos no evento. Ou seja, a cláusula é vigente, mas é vazia de significado. Não está claro se o reconhecimento da existência dessa cláusula ou que ela possa ter qualquer impacto na estratégia de comunicação do projeto seja em si uma infração dela, que pode levar a quebra de contrato. Ao não definir o que constitui “dano à imagem,” a interpretação fica a cargo da própria patrocinadora. O efeito prático disso é a criação de um ambiente de autocensura preventiva, onde patrocinados evitam fazer críticas públicas, divulgar dados sensíveis ou assumir posicionamentos políticos que possam, mesmo que indiretamente, desagradar a financiadora. “A cláusula que veda ao contratado qualquer menção prejudicial à imagem da Petrobras pode funcionar como instrumento de silenciamento indevido, inclusive sobre impactos ambientais reais. A depender do caso concreto, pode violar os princípios constitucionais da liberdade de expressão (art. 5º, IV e IX), do direito à informação (art. 5º, XIV) e da publicidade ambiental (art. 225, §1º, V). (Diz advogada ambiental anônima em entrevista). A mensagem passada pelo conteúdo desses contratos é que a Petrobras financia a preservação ambiental desde que essa preservação não entre em qualquer tipo de conflito com a continuidade de seus empreendimentos extrativistas e exploratórios. Em alguns casos, infringindo direitos pessoais e sociais, e deveres políticos de transparência. A cumplicidade involuntária mantêm o apoio financeiro dependente da sonegação dos impactos que seus projetos deveriam combater. Essa lógica domestica o campo ambientalista de forma sutil e eficaz, convertendo projetos legítimos de conservação em ações de apaziguamento institucional. Pode ser que não haja censura direta, mas há limites impostos pelo dinheiro, e cujos parâmetros contratuais são vagos e virtualmente inegociáveis. Ou, como diz a advogada, “se não concordar, não tem contrato.” Um representante de uma organização ambiental patrocinada pela Petrobras até 2027 descreve como o contrato impõe limites indiretos à liberdade de expressão, orientando a equipe a não falar sobre temas ligados à operação da empresa: “A gente não pode falar coisas relacionadas a operações da Petrobras, da parte de produção de petróleo, essas coisas da Petrobras que não estejam envolvidas dentro do programa socioambiental. A gente não está autorizado a falar sobre isso porque eles têm uma pessoa responsável pelo nosso projeto pra prestação de contas. Então, todas as vezes que se tratar de assuntos da operação de produção de petróleo, etc., ela sugere que peça pra passar pra ela, e que nós possamos falar somente do nosso projeto. Segundo eles, assim, como a gente não participa do dia a dia da Petrobras, a gente não teria condições de responder de forma correta. Como parceiro, não podemos também ficar estimulando notícias que acontecem sobre a Petrobras, ou sobre qualquer assunto que venha afetar a imagem da empresa. Normalmente, esses contratos, você lê as cláusulas ali, mas você fala, ‘nunca vou usar isso,’ então deixa passar. Eu acho que as organizações que atuam [com medo e autocensura] é porque elas são muito reféns do recurso que vem da Petrobras, né?”[3] No caso do projeto do entrevistado, a Petrobras não opera em sua área ou causa danos diretos a sua comunidade. Se ela começar dentro do período de vigência do contrato, o que é possível, ele diz que “a conservação da floresta, a integridade da biodiversidade e a manutenção da cultura dessas comunidades não têm preço, são coisas inegociáveis.” Eles podem “chutar o balde” porque suas operações podem continuar sem patrocínio. Como ocorre com frequência em contextos de dependência financeira, a autocensura se instala antes mesmo que a crítica se forme, pois organizações aceitam qualquer imposição contratual por medo e necessidade de verba. Uma organização de monitoramento de tartarugas marinhas com cientistas experientes e competentes pode, por exemplo, utilizar uma verba massiva viabilizada pela Petrobras Socioambiental para monitorar por satélite as movimentações desses animais e identificar áreas das quais elas dependem para sobreviver; como para alimentação ou reprodução. Dessa forma, os dados coletados por esses cientistas podem ser usados para proteger as tartarugas ao definir áreas de proteção ambiental. Porém, se esses dados apontarem em direção a áreas de vazamento de óleo como resultando em um certo número de mortes ou danos à população desses animais, a divulgação desses dados pode arruinar financeiramente a iniciativa patrocinada com a exigência de “devolução do valor repassado […] não excluindo multas e quaisquer valores oriundos de descumprimento contratual.” (Cláusula 19.1 do contrato 5900.0128816.24.2) Já que o descumprimento contratual é iminente na linguagem vaga de “dano à imagem,” antes mesmo da coleta desses dados, membros da iniciativa já podem querer evitar fazer qualquer menção ao conceito de vazamento de óleo como uma ameaça às tartarugas, em geral, para não gerar qualquer atrito com a patrocinadora.[4] Similarmente, uma organização como o Instituto Baleia Jubarte, que pesquisa o impacto que a poluição sonora nos oceanos tem em mamíferos aquáticos, oriunda do processo de procura e manutenção de áreas de exploração offshore, precisa ter a liberdade de revelar seus resultados para garantir sua integridade científica e acadêmica. Isso não pode ser alcançado se o conflito de interesse entre pesquisadores e financiadores não for abordado contratualmente. Pesquisas sobre o impacto da exploração, feitas com o apoio financeiro de empresas que lucram imensamente com dita exploração, só podem gerar resultados confiáveis se proteções forem estipuladas nos acordos. Conflitos de interesse e dependência financeira A dependência financeira gera conflito de interesse quando quem financia tem poder de influenciar decisões, conteúdos ou resultados em benefício próprio. Exemplos desses conflitos de interesse exacerbados em convênios da Petrobras são numerosos, desde conferências de pesquisadores da área de conservação, a cuidados médicos de animais marinhos, proteção de recursos hídricos, até prêmios jornalísticos. No jornalismo, a dependência financeira pode limitar observações críticas. Conforme uma leitura literal da cláusula 7.1.1 do contrato de patrocínio do Instituto Vladimir Herzog com a Petrobras, uma matéria crítica ao impacto ambiental da Petrobras pode ser desclassificada ou barrada de receber um Prêmio, mesmo que seja relevante, verdadeira e de interesse público, por fazer “menção prejudicial à imagem da Petrobras.” Embora nem sempre vista como censura explícita, e até agora não ter sido aplicada, essa cláusula pode ser um obstáculo à premiação de matérias críticas à Petrobras, pois cria um ambiente de restrição e descomprometimento ético especialmente preocupante quando lida literal e juridicamente, e aplicada a iniciativas jornalísticas na área de direitos humanos atrelados a demandas ambientais.[5] Na ciência, a dependência financeira compromete a autonomia. Desde os anos 80, o Programa Antártico Brasileiro coordena as atividades científicas e logísticas do Brasil na Antártica. A presença do Brasil na Antártica é relevante geopoliticamente, mas acima de tudo, nos coloca na vanguarda da pesquisa sobre o aquecimento global – é uma região sensível às mudanças e tem tremendo impacto na regulação climática do planeta. Neste ambiente isolado, conduzir pesquisas científicas é caro e requer recursos de difícil acesso para universidades. Por isso, a Marinha e a Petrobras forjaram uma parceria. “Além dos aspectos geofísicos e geológicos de interesse, é importante considerar o papel estratégico da Antártica, como principal regulador térmico do Planeta, que controla as circulações atmosféricas e oceânicas, influenciando o clima e as condições de vida na Terra, principalmente nas operações offshore.” (Trecho da justificativa do projeto pelo CIRM em contrato com a Petrobras) Entre 2019 e 2027 há um total de mais de 800 milhões de reais investidos pela Petrobras na Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), que é parte da estrutura organizacional da Marinha. E a cláusula de sigilo entre eles é extremamente abrangente. Ela não apenas protege dados estratégicos e técnicos, mas também define como informação reservada qualquer conteúdo relacionado ao acordo, às negociações, e até a sua existência é estritamente permitida para divulgação. “3.1.6 – não divulgar qualquer dado ou informação sobre este TERMO, sem a prévia autorização do outro PARTÍCIPE, ressalvada a mera notícia de sua existência, atuando em conformidade com o disposto na CLÁUSULA DE SIGILO deste TERMO.” (Trecho do contrato 0050.0128707.24.9 entre Petrobras, a Marinha do Brasil-via SECIRM/CIRM e a FEMAR.) Um representante da Fundação que fornece apoio técnico à CIRM e faz gestão de projetos científicos na infraestrutura da Marinha nos respondeu: “Com relação ao Projeto citado, participo que cláusula de sigilo nos impede de fornecer qualquer informação.” Logo em seguida, o representante da Marinha designado a fornecer esclarecimentos, abordou a cláusula de sigilo em entrevista da seguinte forma: “Recebemos a solicitação para que o relatório seja emitido de maneira conjunta pela Petrobras, com a Marinha, com a Fundação e com as universidades. Mas, sigilo é simplesmente um pedido que eles fazem para que a gente divulgue as informações mediante o conhecimento deles. Só isso. Porque eles são partícipes desse contrato. Basicamente, eles não são contratualmente obrigados a manter sigilo, mas meio que concordam em fazer as divulgações de forma conjunta.” (Secretário da CIRM) Para pesquisadores de diversas universidades brasileiras, que utilizam a infraestrutura fornecida pela Marinha na Antártica, com apoio da Petrobras, o sigilo é invisível. Contratos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com pesquisadores, que visam participar do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), possuem cláusulas que impõem o cumprimento de todas as disposições específicas contidas no instrumento jurídico de parceria. Nesse caso, da parceria sigilosa entre a CIRM e a Petrobras, cujas demandas jurídicas se aplicam a contratos entre o CNPq e pesquisadores de universidades pelo Brasil inteiro. “As propostas financiadas com recursos de outras fontes obrigam, ainda, à observância de eventuais disposições específicas constantes na Ação ou no instrumento jurídico de parceria que a ampare.” (Trecho de contrato vigente entre o CNPq e um pesquisador da UERJ) Apesar de alguns pesquisadores relatarem nunca terem ouvido falar de cláusula de sigilo nesse contexto, relatam que suas pesquisas são submetidas para aprovação como parte da prestação de contas. “Quando eu vou fazer minha prestação de contas [com o CNPq], eu tenho que colocar o meu relatório. Tenha publicações ou não. [O retorno é:] ‘O seu relatório está adequado às propostas encaminhadas.’” (Diz pesquisador que possui contrato vigente com o CNPq em entrevista) Para esse pesquisador, também não está claro quais contratos de parcerias são observados no contrato dele com o CNPq. Enquanto ele acredita que essa parceria seja caso ele assine contratos com outros patrocinadores, ele não se vê contratualmente submetido ao acordo de parceria entre a Marinha e a Petrobras. Embora haja regras a serem seguidas quando a pesquisa dele é operada na sede, e utiliza os recursos da Marinha na Antártica, ele não sabe dizer onde elas estão registradas e acordadas. Esse tipo de acordo que envolve diversas instituições, de diversos tipos, e com diversos contratos, cria uma zona de sombra institucional onde as ‘propostas encaminhadas’ são submetidas a demandas jurídicas e interesses empresariais implícitos. Dados de interesse coletivo, como sobre uso de recursos públicos, impactos ambientais ou decisões de política científica, ficam blindados de acesso e debate, mesmo quando a Lei de Acesso à Informação prevê o contrário. Isso causa uma tensão entre sigilo e interesse público, envolvendo quase um bilhão de reais de investimento. Ao exigir autorização prévia por escrito para qualquer divulgação que vá além da mera existência do acordo, uma cláusula de sigilo ou de prevenção de dano à imagem podem impedir que pesquisadores, jornalistas ou servidores compartilhem informações relevantes ao público, mesmo quando não há risco à segurança nacional (ou explanar das atividades da Marinha). Pode inibir denúncias ou críticas legítimas, criando um efeito de autocensura institucional, e pode tornar dependente da vontade dos patrocinadores qualquer tentativa de divulgação científica ou técnica, mesmo quando feita com interesse público. Como garantir o direito à crítica Garantir o direito à crítica, à transparência e ao debate, mesmo quando envolvem a própria patrocinadora, pode ser alcançado de forma simples, porém improvável. Basta a inserção de cláusulas de prevenção de conflito de interesse, estipulando a liberdade de divulgação de dados comprovados independentemente de suas relações com a patrocinadora – da mesma forma que cláusulas anticorrupção são inseridas para a prevenção de conflito de interesses por nepotismo ou vínculo pessoal. No âmbito midiático, essas estipulações contatuais se chamam “Editorial Independence Clauses,” e garantem, por exemplo, que o National Public Radio nos EUA possa divulgar notícias legítimas e relevantes sobre financiadores como Facebook ou Google, sem ameaças de perda de verba. Dessa forma, patrocinadores recebem crédito, mas não retêm controle editorial.[6] Contratos da Petrobras com organizações de proteção ambiental oferecem benefícios estratégicos, políticos e econômicos para a empresa. Ao mesmo tempo que eles moldam a imagem da Petrobras como proponentes da sustentabilidade ecossistêmica, qualquer mecanismo que possa produzir evidências do contrário é neutralizado pela cooptação de iniciativas e a absorção de alguns dos profissionais mais qualificados da nação. De acordo com Cassiano Mazon e Rafael Hamze Issa no artigo “Adoção e Implementação das Práticas ESG pelas Empresas Estatais: o Programa Socioambiental da PETROBRAS e a Preservação das Comunidades Tradicionais” para o Caderno da Escola Paulista de Contas Públicas (2022), há uma linha tênue entre discurso e prática da atuação da Petrobras Socioambiental onde a empresa pode transitar para o território do “ESGwashing.” “Ocorre que, quando estamos diante de uma agenda ‘ESG’, os interesses dos sócios e acionistas não deverão estar em primeiro plano, porquanto em posição de destaque estarão, obrigatoriamente, os interesses da sociedade.” (página 47) A linguagem de cláusulas de confidencialidade, comum em contratos empresariais, busca proteger informações comerciais, conhecimentos técnicos, etc. que podem beneficiar concorrentes ou prejudicar a posição da empresa no setor. Enquanto isso, empresas públicas, por definição, operam com recursos públicos e têm compromissos legais e éticos com a transparência e os interesses do meio ambiente e comunidades locais. Assim se forma uma tensão e desequilíbrio entre interesses comerciais e interesses públicos. Em outras palavras, a interação entre a Petrobras e entidades do Terceiro Setor pode: “criar uma imagem positiva perante a opinião pública, em matéria de responsabilidade ambiental, ocultando os impactos negativos gerados por suas atividades. É um instrumento que maquia os produtos e prestação de serviços, tentando passar a falsa ideia de que são ambientalmente corretos, ecoeficientes e que advêm de processos sustentáveis, induzindo, inclusive, o consumidor a erro.” (página 48) O fato de que tem sido através da automonitoramento ambiental que os impactos das operações da Petrobras são relatadas a instituições federais como o IBAMA só facilita a potencial ocultação. Não só é permitido, mas exigido que uma auditoria de atividades da Petrobras seja executada pela própria Petrobras, em alinhamento com o projeto de lei sobre o licenciamento ambiental 2.159/2021.[7] Em entrevista, uma doutora e professora universitária de Geoquímica[8] descreve esse paradigma como “uma aberração.” Conduzir ou terceirizar – consultorias com contratos sob cláusulas de sigilo – o monitoramento dos impactos ambientais de suas próprias atividades cria um claro conflito de interesse, cujos resultados distorcidos ela já viu em primeira mão.[9] Em sua experiência, um Termo de Ajustamento de Conduta firmado entre o IBAMA e a Petrobras há mais de uma década omitiu resultados de análise de amostras que confirmaram a contaminação por óleo na área de coleta. O IBAMA nem sequer solicitou a análise dessas amostras, por isso não perceberia se os resultados não estivessem no relatório final. Um contrato vigente até 2025[10] entre a Petrobras e uma consultora terceirizada para executar estudos ambientais requeridos pelo IBAMA, a Bioconsult Ambiental Ltda, contêm uma cláusula de sigilo detalhada. Os resultados da análise da consultora não podem ser compartilhados ao público, muito menos ao órgão público que os solicitou para utilizar os dados para conceder licenciamentos. Ou seja, se a consultora identificar vazamento de óleo ou presença de rejeitos radioativos nas Bacias de Campos, Santos e Espírito Santo, essa informação deverá ser mantida “sob sigilo, pela CONTRATADA, por prazo indeterminado, salvo autorização expressa da PETROBRAS.”[11] E os órgãos públicos concedem licenciamentos sem a garantia de que tiveram acesso aos dados completos da operação. Hoje, o IBAMA segue com suas Avaliações Pré-Operacionais (APOs) baseadas nos relatórios produzidos internamente pela petroleira, e aprova cada passo da exploração na Foz do Amazonas e em outras regiões. Protesto em frente ao prédio da Petrobras no Rio de Janeiro, 30 de maio de 2025, por Fabio Teixeira. No dia 30 de maio de 2025, a tensão silenciosa entre transparência de interesse público e interesses financeiros de acionistas nos contratos de patrocínio firmados pela Petrobras com organizações ambientais foi exposta via uma intervenção urbana retumbante no centro do Rio de Janeiro. A sede da Petrobras amanheceu rodeada de cartazes contra a exploração de petróleo na Amazônia, com as mensagens “Amazônia ou Petróleo: de que lado você está?,” “Ondas de calor, Rio 60°,” “Amazônia livre de Petróleo,” e animais marinhos e crianças encharcadas de óleo com “Patrocínio” ou “Realização” da marca da Petrobras. Tais questionamentos não poderiam aparecer em projetos patrocinados pela estatal, sob pena de violação contratual (mesmo com a marca nos cartazes seguindo algumas das diretrizes estipuladas no manual de uso anexado nos contratos). Esse contraste revela duas faces de uma mesma disputa – de um lado, a sociedade civil que se organiza para denunciar a expansão da fronteira petrolífera em áreas sensíveis como a Foz do Amazonas; de outro, a máquina institucional da Petrobras que, ao mesmo tempo que investe em proteção ambiental, promove juridicamente o silêncio de quem recebe seu patrocínio. O protesto nas ruas é uma crítica legítima à contradição entre o discurso ambiental da empresa e sua prática de exploração, uma ponderação que os contratos emudecem nos bastidores. Não adianta investir dinheiro para contratar biólogos para tirar plástico da garganta de tartarugas marinhas se não houver esforço para evitar que o plástico chegue ao oceano em primeiro lugar. Enquanto a Petrobras lucra com a produção de plástico pelo simples fato de fornecer a matéria-prima desse material, esse conflito de interesse vai garantir a nossa permanência em tratar superficialmente sintomas (e nunca a causa) de uma prática industrial fundamentalmente insustentável. Quando esses contratos silenciam organizações de proteção ambiental, o que está em jogo não é apenas a reputação da empresa, mas a integridade da causa ambiental como um todo. Se os projetos de preservação da natureza precisam se calar para serem financiados, algo está profundamente errado na forma como financiamos o cuidado com o planeta. Se eles não precisam se calar e a cláusula de prevenção de menção prejudicial não tem propósito algum, por que a remoção dela é virtualmente inegociável? Mesmo quando demarcamos áreas de proteção ambiental, estamos inadvertidamente demarcando todo o restante do mundo como área disponível para destruição. Deveria ser ao contrário – áreas de destruição é que deveriam ser exceção, identificadas, contidas e cercadas. Área de proteção deveria ser o modo padrão da Terra. Falta apenas que algumas das empresas e indústrias mais lucrativas do mundo se aliem, de forma transparente, aos cientistas e jornalistas mais comprometidos, com esse propósito em mente. [1] Representantes do Instituto Baleia Jubarte não responderam aos nossos pedidos de entrevista ou comentário. [2] Representantes da organização desse encontro não se disponibilizaram para uma entrevista, mas afirmaram por email que, apesar da existência da cláusula, “não houve qq sugestão ou restrição na abordagem dos impactos da indústria petrolífera em mamíferos aquáticos nas palestras.” [3] Nesta entrevista, o representante não compartilhou informação alguma que possa prejudicar a imagem da Petrobras para além do fato público e neutro da existência de uma cláusula contratual. Por sinal, afirmou que a Petrobras é um dos melhores patrocinadores que já tiveram, as pessoas envolvidas genuinamente se importam com a causa, e que há abertura para conversa com eles. [4] Quando vazamento de óleo foi mencionado em um artigo como uma ameaça a tartarugas marinhas, representantes da organização ambiental me pediram para retirar para não “gerar algum ruído” com o patrocinador. E quando falei em um podcast sobre essa experiência, o conselheiro jurídico pediu para “bipar” a palavra ‘Petrobras.’ [5] Representantes do Instituto Vladimir Herzog ainda não nos deram entrevista, mas responderam ao meu pedido com o link de transparência da organização e a afirmação de que a existência da cláusula nunca gerou “interferência ou influência.” [6] Mesmo com essa cláusula em seus contratos, uma década atrás, a NPR recebeu críticas quando deu crédito a uma patrocinadora, por ser uma empresa de gás natural. Por um lado, a NPR não confunde “a linha entre conteúdo promocional e editorial. Cada banner ou mensagem promocional de podcast de áudio deve ser facilmente identificável como a mensagem promocional de um patrocinador e distinguida de forma transparente do conteúdo editorial adjacente” (News & Information Digital Sponsor Recognition Guidelines). Por outro, “a ética e os valores das duas organizações simplesmente não combinam” (NPR's Underwriting Guidelines, Part Two). [7] O Art. 24 explicita que a autoridade licenciadora é responsável por elaborar o Termo de Referência, que define o escopo dos estudos ambientais a serem apresentados pelo empreendedor – sendo, portanto, o empreendedor quem prepara e apresenta os estudos. Isso está alinhado com o que já ocorre na prática desde a Resolução CONAMA 01/86: o empreendedor contrata consultorias especializadas para produzir os estudos, que depois são submetidos ao órgão ambiental. A questão é a integridade dos resultados dos estudos apresentados para o órgão ambiental (se são os mesmos entregues pelas consultorias especializadas), já que o acordo entre a Petrobras e as consultorias é sigiloso. Há precedentes em que cláusulas de sigilo ou justificativas de confidencialidade foram limitadas, negadas ou sua aplicação contestada quando atrapalham fiscalização, controle público ou direitos de órgãos de controle. Por exemplo, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) criticou a Petrobras e decidiu que “o sigilo deve ser exceção”, não regra. [8] Ela pediu para ficar anônima porque acredita que participar de uma matéria crítica à Petrobras pode causar “constrangimento” e levar, no futuro, à perda de financiamento para o departamento dela. Mesmo sem contrato vigente com a Petrobras, ela admitiu praticar a autocensura preventiva. [9] A entrevistada adiciona que cláusulas de sigilo são necessárias, pois protegem os resultados de pesquisas da Petrobras de serem utilizadas por empresas internacionais em seus próprios benefícios, sem elas mesmas terem que investir em pesquisa no Brasil. “O sigilo não viabiliza [o garimpo ilegal] porque os garimpeiros não ficam sabendo do potencial das áreas.” Esse argumento vem atrelado com a ideia de que o foco deste artigo deveria ter sido “na atuação no Brasil das outras petroleiras,” como uma forma de alcançar a soberania nacional através do sucesso financeiro da empresa local. [10] O Anexo 1 deste contrato, que recebi através do site do Governo da Lei de Acesso à Informação, contém o seguinte informe: “Este documento é titularizado com exclusividade pela PETRÓLEO BRASILEIRO S.A. - PETROBRAS, qualquer reprodução, utilização ou divulgação do mesmo, sem a prévia e expressa autorização da titular, importa em ato ilícito nos termos da legislação pertinente, através da qual serão imputadas as responsabilidades cabíveis.” Não vejo como posso ser ameaçada com uma ação judicial se adquiri o documento por meios legais, em exercício de meus direitos. [11] Neste contrato em particular, não está explícita a análise de rejetos radioativos, mas no Anexo 1, diversos documentos de referência citam normas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para o Licenciamento de Instalações Radiativas. O objeto do contrato envolve, por exemplo, a avaliação de plâncton, que pode ser usada como bioindicador para radioatividade, numa região onde a Petrobras utiliza radioatividade, na tecnologia de radiotraçadores. Nesse caso, a utilidade expressa dos experimentos de produtividade primária do fitoplâncton, que utilizam elementos químicos radioativos, é avaliar impactos de atividades humanas, em geral, entre outras coisas.
- A guerra no Irã expõe a maior fragilidade da aviação sustentável
"O conflito estrutural de incentivos é que o mesmo setor responsável por desenvolver soluções para reduzir seu impacto ambiental também depende financeiramente da expansão contínua da atividade que gera esse impacto. Por essa razão, a avaliação da sustentabilidade da aviação não pode depender exclusivamente das promessas da própria indústria." Escrito por Mirna Wabi-Sabi Fotografado por Fabio Teixeira Quando a escalada do conflito entre EUA/Israel e Irã acendeu o temor de interrupções no Estreito de Hormuz, os mercados reagiram imediatamente. O preço do petróleo voltou a subir e as discussões sobre os combustíveis, inflação e distribuição de recursos essenciais vieram à tona. Para a aviação, a preocupação é que cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo passa pelo estreito, e o querosene de aviação continua sendo um dos principais custos operacionais das companhias aéreas. Por isso, sempre que a estabilidade do Golfo Pérsico é ameaçada, a indústria aérea se torna uma das primeiras a sentir os efeitos. Essa vulnerabilidade levanta uma questão séria sobre a possibilidade de um futuro sustentável para o setor. Companhias aéreas, fabricantes de aeronaves e produtores de combustível têm afirmado que o setor está em plena transição para um futuro de baixo carbono. No entanto, se uma crise do petróleo continua sendo capaz de desestabilizar toda a indústria, até que ponto essa transição realmente reduziu sua dependência dos combustíveis fósseis? A resposta passa pelas soluções tecnológicas que vêm sendo apresentadas como o futuro da aviação. A principal delas é o Sustainable Aviation Fuel (SAF), ou combustível sustentável de aviação. Diferentemente do querosene convencional, derivado do petróleo, o SAF pode ser produzido a partir de matérias-primas, “como óleo de cozinha usado, restos de biomassa e outros resíduos, além de energia renovável e carbono.” Como pode ser utilizado na infraestrutura existente e em aeronaves atuais, ele é considerado pela Associação Internacional de Transportes Aéreos a solução mais impactante para reduzir as emissões da aviação. Além do SAF, a indústria investe em aeronaves mais eficientes, otimização de rotas, pequenos aviões elétricos, e no ‘CORSIA’ (Sistema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional). Nenhuma dessas tecnologias é fictícia; todas deverão desempenhar um papel importante nas próximas décadas. Porém, a velocidade de implementação diante do crescimento do setor é um problema. O SAF representou cerca de 0,3% do fornecimento global de combustível de aviação em 2024, e em 2026 a projeção é que representará ~0,8%. Chegar ao necessário 10% em 2030 é bastante improvável, já que mesmo com a produção dobrando ou triplicando de ano a ano, a porcentagem não consegue alcançar 1%. A demanda por transporte aéreo continuará crescendo. Isso significa que aeronaves mais eficientes e combustíveis menos intensivos em carbono podem reduzir as emissões de cada voo, sem necessariamente reduzir as emissões totais do setor. Em outras palavras, descarbonizar um voo não é o mesmo que descarbonizar a aviação — uma narrativa que raramente fica clara nas mídias que promovem essas inovações. O relatório Greenwashing the Skies questiona a forma como essas inovações são apresentadas ao público. Seu argumento central é que boa parte da comunicação do setor transmite a impressão de que a sustentabilidade permitirá manter praticamente inalterado o atual modelo de crescimento da aviação, quando a literatura científica indica que as tecnologias disponíveis ainda não conseguem acompanhar a expansão da demanda. Em particular, evidências limitadas ou contestadas relacionadas às “emissões decorrentes da mudança indireta do uso da terra associadas a políticas de biocombustíveis desempenham um papel importante na determinação do desempenho climático dessas políticas.” Entre as principais preocupações está a possibilidade de que o aumento da demanda por biocombustíveis impulsione a expansão de áreas agrícolas, provocando emissões adicionais de CO₂ à medida que florestas e solos perdem parte de seus estoques naturais de carbono. É necessário conciliar essas observações científicas com a realidade econômica da indústria. No entanto, esse debate costuma ser evitado, pois uma discussão séria sobre os limites ambientais da aviação inevitavelmente levanta a possibilidade de restringir o crescimento do setor. Afinal, uma estratégia climática realista necessariamente passa por voar menos. Essa discussão torna-se ainda mais evidente quando se observa o mercado de jatos privados. Embora representem uma parcela pequena do número total de voos, pesquisas do International Council on Clean Transportation (ICCT) e da organização Transport & Environment mostram que jatos privados apresentam emissões por passageiro muito superiores às da aviação comercial. O impacto climático, portanto, não decorre apenas do tipo de combustível utilizado, mas também da baixa ocupação das aeronaves e do elevado consumo energético por passageiro transportado. Mesmo assim, a comunicação ambiental nesse segmento concentra-se em iniciativas como uso parcial de SAF e programas de compensação de emissões. Foi justamente nesse contexto que Taylor Swift passou a ocupar o centro desse debate público. Alguns anos atrás, a cantora foi alvo de críticas após reportagens divulgarem estimativas sobre as emissões associadas ao uso de seu jato particular. Sua equipe contestou parte desses cálculos destacando que a aeronave também era utilizada por terceiros. Paralelamente, foram divulgadas iniciativas de compensação de carbono relacionadas às turnês da artista. Assim, ela se tornou um símbolo de uma discussão mais ampla. O debate deixa de ser apenas sobre uma celebridade e passa a refletir a estratégia recorrente na comunicação climática da aviação, de enfatizar mecanismos de compensação em vez da redução direta das emissões. Estudos mostram que projetos de compensação dependem de condições rigorosas para produzir reduções reais e permanentes. Especificamente, um artigo do Nature Communications (2024) mostra que três quartos dos créditos de compensação baixados não atenderiam aos critérios de elegibilidade do CORSIA, o esquema de compensação da aviação da International Civil Aviation Organization (ICAO). Por isso, é pertinente alertar que compensações não devem ser tratadas como substitutas da diminuição efetiva das emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis, já que introduzem “um viés de otimismo significativo.” Compensar carbono significa financiar tentativas de reduções em outro lugar. Reduzir emissões significa evitar que elas ocorram. Essa distinção ajuda a explicar por que a indústria costuma dedicar mais atenção ao desenvolvimento de combustíveis sustentáveis e mecanismos de compensação do que à possibilidade de incentivar as pessoas a voarem menos. Do ponto de vista econômico, companhias aéreas, fabricantes de aeronaves, aeroportos e empresas de leasing encorajam o crescimento contínuo da demanda. Seu modelo de negócios baseia-se em transportar cada vez mais passageiros, abrir novas rotas e aumentar a utilização da frota. Nesse contexto, tecnologias que prometem compatibilizar crescimento econômico e redução das emissões são naturalmente mais atraentes do que políticas voltadas à contenção da demanda. O conflito estrutural de incentivos é que o mesmo setor responsável por desenvolver soluções para reduzir seu impacto ambiental também depende financeiramente da expansão contínua da atividade que gera esse impacto. Por essa razão, a avaliação da sustentabilidade da aviação não pode depender exclusivamente das promessas da própria indústria. Ela precisa ser confrontada com evidências independentes sobre disponibilidade de combustíveis, evolução tecnológica, crescimento da demanda e emissões efetivamente observadas. Se a transição energética da aviação estivesse suficientemente avançada, crises — guerras — envolvendo petróleo tenderiam a exercer influência cada vez menor sobre o setor. O que ocorreu foi o oposto. Bastou o risco de interrupção do fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz para que companhias aéreas, investidores e governos voltassem imediatamente sua atenção ao preço do barril. Essa reação dos mercados mostrou que, apesar dos avanços tecnológicos e das metas climáticas anunciadas, a aviação permanece profundamente dependente dos combustíveis fósseis e da estabilidade geopolítica das regiões produtoras de petróleo. A principal contribuição do Greenwashing the Skies não é desqualificar tecnologias sustentáveis — pelo contrário. O alerta é que enquanto o crescimento da aviação continuar superando a velocidade de implantação dessas tecnologias, e enquanto crises geopolíticas continuarem determinando o custo do combustível que movimenta os aviões, será difícil sustentar a ideia de que a indústria já encontrou um caminho seguro para uma aviação verdadeiramente sustentável. _______ Escrito por Mirna Wabi-Sabi Fotografado por Fabio Teixeira
- O novo fluxo de conhecimento
Como a IA, a filantropia e a mídia “perene” estão remodelando o trabalho intelectual Leia também na Le Monde. Enquanto as empresas de IA se beneficiam de ecossistemas digitais, quem mais se beneficia com elas? A popularização da inteligência artificial está remodelando não apenas a tecnologia, mas também a economia da produção de conhecimento. Além do entretenimento e da opinião, o conteúdo da internet cada vez mais valorizado é a informação estruturada, explicativa e continuamente atualizada, que pode ser facilmente analisada por sistemas de IA. Nesse cenário emergente, projetos inspirados na Wikipédia ocupam uma posição particularmente estratégica. Eles produzem conhecimento humano organizado em um formato ideal para o aprendizado de máquina. Enquanto as empresas de IA se beneficiam desses ecossistemas digitais, quem mais se beneficia com elas? A Wikipédia é o exemplo mais claro dessa transformação. A Fundação Wikimedia recebeu doações de grandes empresas de tecnologia, incluindo Google, Microsoft, Apple, GitHub, Adobe e outras. Mais recentemente, a Wikimedia formalizou relações comerciais com empresas de IA por meio da Wikimedia Enterprise, licenciando acesso estruturado aos seus dados para empresas como Microsoft, Meta, Amazon, Perplexity e Mistral AI. “O Wikimedia Enterprise não se trata apenas de fazer com que as empresas de tecnologia paguem pelo seu uso; ele também lhes fornece acesso aos projetos da Wikimedia em um volume e velocidade projetados para atender às suas necessidades de dados.” Uma interpretação é que a Wikipédia se tornou infraestrutura para a economia da IA. Grandes modelos de linguagem dependem fortemente de quantidades massivas de informações limpas, escritas por humanos e atualizadas com frequência, e a Wikipédia está entre os repositórios mais confiáveis e legíveis por máquina já criados. Os próprios representantes da Wikimedia reconheceram a pressão que a coleta de dados por IA exerce sobre seus sistemas. “O conhecimento da Wikipédia para treinamento de IA aumentou a demanda por servidores e, consequentemente, os custos…” Assim, a Wikimedia está tentando garantir compensação pelo valor que as empresas de IA já extraíam gratuitamente. E suas parcerias podem representar um esforço para forçar a redistribuição num ecossistema já desigual. A produção colaborativa e aberta de conhecimento tornou-se economicamente indispensável para os sistemas de IA. O projeto Observatório (The Observatory), lançado pelo Instituto de Mídia Independente, se apresenta como uma “wiki” dedicada a conteúdo político e intelectual explicativo e atemporal. Em vez de publicar ensaios estáticos, o projeto visa criar guias continuamente atualizados que sintetizem o trabalho de acadêmicos, jornalistas e intelectuais públicos em textos explicativos acessíveis.O modelo se assemelha à Wikipédia não apenas estilisticamente, mas também estruturalmente. O conteúdo é modular, educativo, pesquisável, perene e otimizado para acessibilidade, em vez de permanência acadêmica. Na prática, isso significa traduzir trabalhos intelectuais densos em linguagem explicativa legível por máquina. A relação do projeto com a IA é abordada apenas em conversas com potenciais colaboradores e escritores. É-lhes dito que os modelos de linguagem de IA favorecem exatamente esse tipo de conteúdo – estilo wiki, continuamente atualizado, explicativo e em prosa facilmente digerível – e que essa visibilidade dentro dos sistemas de IA constitui parte da exposição que os colaboradores receberão em troca de seu trabalho intelectual. Além dos sistemas de IA se beneficiarem desse estilo de publicação, a capacidade de descoberta por IA parece estar conscientemente integrada à lógica e à proposta de valor da produção intelectual.A produção acadêmica tradicional depende de citações estáveis por meio de edições fixas e permanência em arquivos. Documentos perenes e dinâmicos complicam essa estrutura, pois os textos podem mudar com o tempo. Embora os autores possam receber créditos, a obra em si torna-se fluida. As citações tornam-se instáveis e a durabilidade histórica tradicionalmente associada à produção intelectual enfraquece. Sem mencionar que os assistentes de IA raramente citam suas fontes. Isso cria uma assimetria. Os sistemas de IA se beneficiam justamente do conteúdo explicativo dinâmico e continuamente atualizado. Mas, para acadêmicos e escritores, o valor profissional de textos instáveis e constantemente reescritos pode ser consideravelmente menor do que o de publicações fixas com valor de citação duradouro e cujos leitores têm consciência de quem estão lendo. Ou, simplesmente, estão conscientes. É por isso que a questão do trabalho se torna ainda mais evidente quando o pagamento é substituído por promessas de visibilidade. A visibilidade por meio de sistemas de IA é fundamentalmente diferente da leitura tradicional. Grandes modelos de linguagem frequentemente sintetizam informações sem preservar claramente a atribuição ou direcionar os usuários aos autores originais. Mesmo quando os sistemas de IA amplificam ideias indiretamente, o valor econômico resultante é capturado principalmente por plataformas tecnológicas, e não pelos trabalhadores intelectuais cujo trabalho aprimorou os resultados dos modelos. Essa estrutura editorial está alinhada às necessidades da indústria de IA. O ecossistema de financiamento que envolve o Instituto de Mídia Independente (Independent Media Institute, ou IMI) complica ainda mais o cenário. Bancos de dados de organizações sem fins lucrativos mostram que o IMI recebeu financiamento substancial por meio de estruturas filantrópicas com Fundos Aconselhados por Doadores, principalmente a GS Donor Advised Philanthropy Fund. Esse Fundo Filantrópico, anteriormente conhecido como Goldman Sachs Philanthropy, tornou-se um mecanismo influente na filantropia de elite, permitindo que doadores ricos recebam benefícios fiscais imediatos, ao mesmo tempo que protegem o fluxo de doações do escrutínio público. Naquele mesmo ano, um erro de divulgação do IRS (Serviço de Receita Interna Estadunidense) revelou involuntariamente vários dos principais contribuintes do Fundo Filantrópico Goldman Sachs, incluindo Steve Ballmer (ex-CEO da Microsoft), Laurene Powell Jobs (com ações significativas na Apple e na Disney) e Jan Koum (cofundador do WhatsApp). A opacidade não é acidental; o sigilo é uma das características institucionais que os fundos filantrópicos oferecem explicitamente. Consequentemente, a impossibilidade de estabelecer a intenção direta do doador não pode ser automaticamente considerada como evidência de que não existe alinhamento estrutural. Novos incentivos sistêmicos estão surgindo. A economia da IA está recompensando a produção de conteúdo intelectual simplificado, estruturado e perene, otimizado para absorção por máquinas. Projetos de mídia sem fins lucrativos, iniciativas de conhecimento aberto, capital filantrópico e corporações de IA operam dentro desse mesmo ecossistema, mesmo que suas motivações sejam diferentes. O que emerge é uma nova economia política da produção intelectual. Acadêmicos, jornalistas e pensadores públicos podem ser incentivados a reformular seus trabalhos em formatos compatíveis com IA, não porque esses formatos necessariamente atendam melhor aos leitores humanos, mas porque maximizam a descoberta, a circulação e a usabilidade por máquinas – um desdobramento da otimização para mecanismos de busca (SEO) do início dos anos 2000. Enquanto isso, os maiores ganhos econômicos podem não beneficiar os produtores de conhecimento, mas sim as empresas que constroem sistemas comerciais de IA sobre essa infraestrutura de conhecimento. Ainda não se sabe se o trabalho intelectual na era da IA permanecerá um recurso público amplamente não remunerado ou se novos modelos de propriedade, remuneração e atribuição surgirão antes que a infraestrutura do conhecimento humano seja permanentemente absorvida pelas economias de máquinas. Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.
- Fernanda Young: O Feminismo Alimenta o Machismo?
Fernanda Young, em sua análise sobre o feminismo, ignorou variáveis que não a serviam em sua viajem pelo controverso de alto ibope. [Este artigo foi publicado em fevereiro de 2020, no site da Inimiga da Rainha.] Fernanda Young foi uma escritora e roteirista da Globo com seu marido. Ano passado [2019], ela faleceu inesperadamente, deixando três filhas e um filho. Esse ano [2020], me deparei com o livro dela de dois anos atrás, “Pós-F: Para além do masculino e feminino,” na Livraria Cultura em São Paulo, e me surpreendi com sua falta de tato em relação ao feminismo. Sua morte, mesmo sendo trágica, não pode se tornar uma oportunidade para ignorar seu legado problemático na construção de um pensamento coletivo Brasileiro onde o feminismo é difamado. Fernanda Young foi uma Rainha que deturpou conceitos abordados por muitas Inimigas do sistema que vieram antes dela. No sistema patriarcal, o homem também sofre, e isso não quer dizer que vamos descartar o feminismo. Mulheres feministas negras abordam o tema dos homens sofrerem neste sistema há décadas. Porém, eu diria que ‘homens sofrem também’ é usado para descartar o feminismo da mesma forma que ‘brancos são pobres também’ é usado para descartar o racismo. A escrita de Young é gostosa, mas a linha de raciocínio é vergonhosa. Ainda bem que no prefácio ela admite: “Achava que deveria partilhar a minha liberdade, inclusive de falar merda — coisa para qual tenho uma técnica, e afeto.” Mas é muita merda mesmo. Começando com: “O feminismo alimenta o machismo.” O machismo existia antes do feminismo, e se alimentava como? Vamos falar de todas as outras coisas que de fato alimentam o machismo? Como, por exemplo, muitos programas de TV…? Se não, nos afundamos na lógica que leva muitos a serem contra a vacina porque já aconteceu [talvez] que causou autismo em alguém. Já aconteceu que uma mulher mentiu e levou alguém a rejeitar o feminismo? Provável. Mas isso explica o machismo? Não. Isso justifica ignorar e rejeitar todos os exemplos de como o feminismo já salvou muitas vidas? Também não. Outro absurdo no livro dela é a transfobia. Para Young só existiam dois gêneros, e querer “mudar de sexo” era uma “precipitação,” porque a sexualidade não precisa disso — basta explorar melhor o seu corpo. É muita ignorância; está claro que ela se preocupou em escrever sobre pessoas trans sem nunca se preocupar em conversar com uma. Conversar e ouvir. Que editor passou o olho naquele capítulo e não se lembrou de avisar que sexualidade e identidade de gênero são coisas diferentes? Talvez tentaram em vão, recebendo a resposta: ‘Censura, jamais!’ E continua… Fernanda diz que já teve namorada e teve amigos gays, então homofobia não é a questão — se precisa ser falado, amigas, já deu ruim. A nudez da mulher virou um tópico contorcido. Para Young, na arte ela deveria ser vista como empoderadora. Porque evidentemente a mulher é “mais bela e interessante” do que o homem. Não querer ser rotineiramente retratada de forma sexualizada não significa machismo internalizado e rejeição do feminino. Por outro lado, se você usa “biquíni enfiado na bunda” tem que esperar receber cantada, como se não fosse assédio, porque é mais vulgar do que a nudez. Essa conclusão vem da premissa de que a nudez é arte e biquininho é erótico, que nos traz a questão mal resolvida de classe. O corpo sofisticado merecedor de admiração, versus o corpo vulgar merecedor de erotização. Além de classismo, a branquitude do texto emana quando ela fala dos horrores de ter que participar de reuniões de condomínio e de sua revolta contra o trabalho doméstico. Além disso, ela fez questão de dedicar um capítulo inteiro ao dado de que mulheres a assediavam mais do que homens, chamado “tudo agora é assédio.” A experiência pessoal de Young diz muito mais sobre ela do que sobre o comportamento dos outros. Será que ela contestaria os dados indicando que homens cis estupram e matam consideravelmente mais do que mulheres? Será que precisamos dos dados para saber que isso é verdade? Estes questionamentos não cabem na linha reta de raciocínio em direção à deslegitimação do feminismo. Minha discordância não é uma agressão, mas uma defesa de uma luta que não é de uma minoria. Até concordo com as críticas ao #feminismo diluído no fluxo das redes sociais. Mas devemos estar atentos a conclusões baseadas em uma única premissa duvidosa. Fernanda Young, em sua análise sobre o feminismo, ignorou variáveis que não a serviam em sua viajem pelo controverso de alto ibope. ______ texto: Mirna Wabi-Sabi
- Fukuoka: ‘Não há lugar melhor do que este mundo’
Aos meus leitores, Não há lugar melhor do que este mundo. Anos atrás, percebi que nós, seres humanos, somos bons exatamente como somos e decidi aproveitar a vida. Segui um caminho despreocupado de volta à natureza, livre do conhecimento e do esforço humanos. Desde então, cinquenta anos da minha vida se passaram voando. Tive alguns sucessos, mas também fracassos. Muitos dos meus sonhos de juventude permanecem não realizados. Sei que meu tempo aqui na Terra é limitado. Agora estou aposentado e vivo em uma cabana na montanha, em meio ao pomar. Fechei minha fazenda ao público para que eu possa aproveitar melhor o tempo que me resta. A melhor parte de viver uma vida de aposentado na montanha, isolado das notícias do mundo exterior, é que tenho uma percepção diferente do tempo. Espero, com o passar dos dias, poder vivenciar um dia como se fosse um ano. Então, como as pessoas das tribos que conheci na Somália, não saberei quantos anos tenho. Ultimamente, tenho tentado imaginar que tenho cem anos… ou até duzentos. Espero que, quando eu partir, minha mente e meu corpo ainda estejam em boas condições. Quando vou para o campo ou para o pomar, digo a mim mesmo: não faça promessas, esqueça o ontem, não pense no amanhã, dedique-se sinceramente ao trabalho de cada dia e não deixe pegadas aqui na Terra. Sou feliz simplesmente por trabalhar com alegria na minha fazenda, que para mim é o Jardim do Éden. O caminho da agricultura natural é para sempre incompleto. A natureza jamais poderá ser compreendida ou aprimorada pelo esforço humano. No fim, para se tornar um com a natureza, para viver com Deus, não se pode ajudar os outros nem receber ajuda deles. Só podemos trilhar nossos caminhos sozinhos. Grande estrada sem portão, não vejo ninguém Paz no Céu, apenas um murmúrio na terra Quem faz o vento errante? Para a esquerda, para a direita Ataque e defesa Sem saber o bem do mal Um ventilador sopra para os dois lados, causando a mesma confusão Enquanto caminho sozinho pelo jardim, vejo uma cabana improvisada Um dia equivale a cem anos O daikon e a mostarda estão em plena floração A lua brilha fracamente no ano dois mil Tendo me esforçado ao máximo neste mundo, inicio agora minha jornada para outro mundo Uma viagem passageira para sabe-se lá onde Masanobu Fukuoka Início da Primavera, 1986 [Tradução por Mirna Wabi-Sabi, Outono, 2026. Direitos Reservados — Plataforma9.] A Revolução de Uma Palha ganha primeira edição oficial no Brasil e chega com circuito entre Rio e São Paulo Clássico da Agricultura Natural, livro de Masanobu Fukuoka será lançado com eventos, oficinas e debates em maio e junho Após décadas circulando no Brasil em traduções informais, o clássico A Revolução de Uma Palha ganha sua primeira edição oficial brasileira no Outono de 2026. Referência mundial da Agricultura Natural, o livro de Masanobu Fukuoka chega acompanhado do Circuito da Agricultura Natural, série de cinco encontros entre Rio de Janeiro e São Paulo, entre maio e junho. Publicado originalmente nos anos 1970, o livro sintetiza a experiência radical de Fukuoka, que abandonou a carreira científica para desenvolver um método agrícola baseado no não-fazer e na não-intervenção: sem arar, sem adubos químicos, sem agrotóxicos, sem degradar a terra. Seus resultados, mais eficientes do que os da agricultura convencional, transformaram a obra em um marco global da agroecologia e da crítica ao modelo industrial de produção de alimentos. A edição brasileira foi produzida pela Plataforma9 e a Trovão Tropical, e traduzida por Mirna Wabi-Sabi a partir da versão em inglês de Larry Korn, discípulo de Fukuoka. Além dos lançamentos e rodas de conversa, o circuito contará com oficinas de bombas de sementes e trocas de sementes nativas, propondo a Agricultura Natural não apenas como teoria, mas como prática acessível em contextos urbanos e rurais. Programação Rio de Janeiro 22/05 — Janela Livraria (Jardim Botânico), 19h Mesa de conversa com Matheus Pockstaller (Trovão Tropical) e Mirna Wabi-Sabi. 28/05 — Travessa Icaraí (Niterói), 18h30 Apresentação e bate-papo com Mirna Wabi-Sabi, Matheus Pockstaller e convidado. São Paulo 06 e 07/06 — Japan House (Av. Paulista), 11h e 15h Oficina de Bomba de Sementes. 11/06 — Bibla Livraria (Vila Madalena), 19h Lançamento com mesa — Claudia Visoni (Horta das Corujas), Matheus Pockstaller e Mirna Wabi-Sabi. 13/06 — Livradia Expressão Popular/Armazém do Campo (Campos Elíseos), 15h Mesa de Debate com Thiago Luiz (Guardião de Sementes), Mirna Wabi-Sabi e Matheus Pockstaller. Masanobu Fukuoka (1913–2008) Agricultor, microbiologista e filósofo japonês, mundialmente reconhecido como precursor da Agricultura Natural e autor da obra seminal A Revolução de Uma Palha. Rejeitando os métodos agrícolas modernos dependentes de produtos químicos e maquinário pesado, ele desenvolveu o método “do-nothing” (não-fazer), baseado na intervenção humana mínima e na observação profunda dos ecossistemas. Sua filosofia, que integra práticas agrícolas a princípios espirituais e ecológicos, inspirou gerações no movimento da permacultura e continua sendo um pilar fundamental para a agricultura sustentável e a regeneração da terra em todo o mundo. Mirna Wabi-Sabi Editora, pesquisadora e anarco-transcriadora. Dirige a Plataforma9, editora independente focada em publicações que cruzam política, ecologia e linguagem. Assina a tradução de A Revolução de Uma Palha — a primeira edição oficial em português do Brasil. Voz editorial e política. Matheus Pockstaller Agricultor sintrópico, pesquisador e co-fundador da Trovão Tropical. Cresceu em São Conrado, às bordas da Floresta da Tijuca, e há oito anos desenvolve sistemas agroflorestais no Rio de Janeiro. Especialista em regeneração de solo, preservação de sementes crioulas e manejo de abelhas nativas. Voz técnica, filosófica e de campo. Sobre a Trovão Tropical Um laboratório agroecológico e estúdio criativo sediado no Rio de Janeiro, fundado por Carolina Latini e Matheus Pockstaller. Opera o Lote 18 — laboratório vivo de agrofloresta em São Conrado, no Maciço da Tijuca — e apoia o projeto Horta na Favela, na Rocinha. Articula ecologia, cultura e design como alternativa concreta ao Antropoceno. Entre seus projetos está o Seeds Collective, uma iniciativa de pesquisa e catalogação artística de sementes florestais e crioulas guardadas por gerações por pequenos produtores, povos indígenas e comunidades quilombolas em todo o Brasil. Instagram: @trovao_tropical | @seedsandtales_ contato@trovaotropical.com Sobre a Plataforma9 Uma iniciativa editorial que realiza publicações políticas multilíngues, dirigida pela escritora e anarco-transcriadora Mirna Wabi-Sabi. Dedicada à inovação em comunicação multilíngue impressa e digital, publica livros bilíngues, artigos de não ficção e análise política, séries fotojornalísticas e cursos de alfabetização midiática. A missão da Plataforma9 é utilizar a narrativa para desencadear mudanças construtivas na sociedade. Instagram: @plataforma9p9 | plataforma9p9@pm.me
- Por que o clássico 'A Revolução de uma Palha' do Fukuoka nunca foi publicado no Brasil? Até agora...
Durante décadas, A Revolução de uma Palha (1975), um livro do microbiologista e agricultor japonês Masanobu Fukuoka, circulou no Brasil de forma extraoficial. A edição de Portugal, de uma editora que não existe mais chamada Via Óptima, se tornou a principal referência entre agroecologistas, permacultores, agricultores familiares, estudantes e leitores interessados em ecologia. Porém, a agência literária que representa a família de Fukuoka não reconhece essa edição portuguesa como legítima ou oficial. Em 2026, isso finalmente muda. Estamos preparando a primeira edição brasileira do livro que volta às raízes filosóficas e ao sentido que Fukuoka deu à ideia de agricultura natural. Quando “Natural” Virou “Selvagem” A edição portuguesa, que circula no Brasil em PDF até hoje, foi traduzida da edição francesa dos anos 80, publicada por Guy Trédaniel. Essa versão traduziu 自然農法, termo criado por Fukuoka, como agriculture sauvage (agricultura selvagem). E a edição portuguesa seguiu essa escolha. Fukuoka talvez rejeitasse essa perspectiva, às vezes descrevendo seu método como ‘semi-selvagem,’ mas sempre afirmando que o processo depende do entendimento do que é a natureza sem domesticação, para podermos saber quais ações devem ou não ser tomadas. Ele aprendeu isso cedo, dizendo que: “O problema, veja bem, era que eu não estava praticando agricultura natural, mas sim o que se poderia chamar de agricultura preguiçosa! (...) Aquelas árvores jovens tinham sido domesticadas, plantadas, podadas e cuidadas por seres humanos. As árvores tinham sido escravizadas pelos humanos, então não conseguiram sobreviver quando o suporte artificial fornecido pelos agricultores foi repentinamente removido.” (A Revolução de uma Palha) “O verdadeiro caminho para a agricultura natural exige que a pessoa saiba o que é a natureza inalterada, para que ela possa entender instintivamente o que precisa ser feito — e o que não deve ser feito — para trabalhar em harmonia com seus processos.” (Entrevista com o menino do arado: Masanobu Fukuoka) Ou seja, para Fukuoka, ‘natural’ era diferente de ‘sem cuidados.’ A harmonia não é alcançada com negligência. Qual é o problema com “Selvagem”? A palavra 自然 (shizen) em japonês traz um sentido filosófico ligado ao zen e ao taoismo. O fluxo autêntico da vida em equilíbrio decorre de enxergar a negociação entre Natureza e Sociedade não como um paradoxo ou contradição, mas como “um estado de espírito mais elevado. (…) As duas categorias são definidas como opostas, mas são necessárias uma à outra.” Já sauvage/selvagem carrega um legado colonial baseado na oposição entre civilizado e primitivo — um imaginário historicamente usado para julgar povos e culturas fora da Europa. Embora selvagem e primitivo possam ser ressignificados, a filosofia de Fukuoka não propõe uma agricultura que simplesmente nasce, cresce e vive sem cuidados especiais, nem rejeita os aprendizados da ciência moderna. Assim, traduzir shizen como “selvagem” revela a perspectiva cultural e epistemológica de seus tradutores, uma visão de mundo europeia que tem dificuldade em perceber os processos Naturais atravessando e integrando o processo Humano. Essa Nova Edição Nossa edição brasileira tem alguns compromissos fundamentais: Português brasileiro. Tradução baseada no inglês de Larry Korn, discípulo e tradutor oficial de Fukuoka. Reconhecimento da agência japonesa que representa a família do autor. Essa nova edição é uma responsabilidade ética com a obra de um dos pensadores ecológicos mais importantes do século XX. Por que Publicar Isso Agora? Porque Fukuoka é urgente. Enquanto o mundo discute transição ecológica, soberania alimentar, colapso climático e tecnologias rurais dependentes de petróleo, Fukuoka permanece um farol que nos lembra: Não existe agricultura saudável sem humildade diante da natureza. Não existe regeneração sem simplicidade. Não existe futuro sem solo vivo. 💡 Nos próximos meses, vamos compartilhar: Trechos inéditos da nova tradução. Traduções de entrevistas com Fukuoka. Novidades sobre a publicação e seu lançamento. Se você quer acompanhar esse processo e apoiar o projeto: inscreva-se no boletim e compartilhe. Vamos devolver Fukuoka ao Brasil com o respeito que ele merece. ________________ Mirna Wabi-Sabi, Diretora da Plataforma9.
- As bandeiras estrangeiras em Copacabana
Manifestação no Rio revela não apenas alinhamentos ideológicos, mas a atuação de um ecossistema que conecta finanças globais, produção intelectual e mobilização política. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. No dia seguinte ao assassinato do Aiatolá do Irã, a manifestação “Acorda, Brasil” com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, espalhou-se por Copacabana e outras vias pelo Brasil. No domingo, 1º de março de 2026, o grupo de manifestantes se reuniu na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Bolivar para protestar contra o governo federal e certos ministros. Enquanto as bandeiras estrangeiras não têm relação direta com a pauta do protesto, elas são usadas como símbolos ideológicos de alinhamento internacional, e esse alinhamento ocorre também no nível financeiro. Convocada por lideranças da direita e divulgada intensamente nas redes sociais, a manifestação reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e teve como pauta central críticas ao governo de Lula e pedidos de anistia para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. O público no Rio foi relativamente pequeno, especialmente quando comparado com o pedido de autorização de interdição ao trânsito feito pela organização para a prefeitura municipal. O Diário Oficial do Rio relata o fechamento da praia inteira, para a concentração de por volta de 4,7 mil pessoas entre a Rua Bolívar e Barão de Ipanema. O vereador Rafael Satiê formalizou o pedido de fechamento de ruas para viabilizar a manifestação em Copacabana em uma escala que indica expectativa de público elevado, com interdições amplas e por um período prolongado. Sua atuação política dialoga com o campo evangélico, pois ele se apresenta como pastor apesar de não divulgar de qual igreja. Porém, ele já demonstrou proximidade pública com a Igreja Universal do Reino de Deus, defendendo seus eventos e posicionando-se contra críticas à instituição . A Universal, por sua vez, acumula um histórico de denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas investigadas por autoridades no Brasil e no exterior, com acusações de uso de doações de fiéis multibilionárias em esquemas financeiros complexos. Esse enquadramento ganha um contorno político mais explícito quando se observa que, na véspera do ato, ele publicou nas redes sociais que o aiatolá havia sido “ abatido ,” termo carregado de desumanização. Ao mesmo tempo, ele celebrava a ação dos Estados Unidos e de Israel, conectando sua atuação institucional na organização do espaço público a um posicionamento político-ideológico claro no debate internacional. Ou seja, essas bandeiras internacionais revelam a presença de redes transnacionais de ideias e financiamento que há décadas atravessam a política brasileira. Think tanks e máquina global de influência Os Estados Unidos possuem a maior estrutura de inteligência do mundo. Ela reúne quase dezenas de agências diferentes, incluindo a CIA, e opera com um orçamento anual superior a US$ 70 bilhões anuais . Desde a Guerra Fria, documentos desclassificados mostram que essas estruturas foram usadas não apenas para espionagem tradicional, mas também para operações de influência política em países considerados estratégicos. A América Latina ocupa um lugar importante nesse histórico. Intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos em países como Chile, Guatemala, Nicarágua e Brasil, especialmente durante o século XX, já foram amplamente documentadas. O caso do golpe brasileiro é visto hoje como escancarado, mas até ele só foi confirmado por documentos liberados décadas depois. No século XXI, os métodos se modernizaram. Influência política internacional nem sempre aparece na forma de golpes ou operações clandestinas. Ela costuma operar através de redes de instituições, fundações, think tanks e organizações civis. Uma das principais redes internacionais desse tipo é a Atlas Network, organização sediada em Washington que conecta mais de 500 think tanks em cerca de 100 países . Fundada em 1981 pelo empresário britânico Antony Fisher, ela tem como objetivo promover políticas públicas ligadas a economia de mercado, redução do Estado e liberalização econômica. A organização oferece financiamento, treinamento, bolsas e programas educacionais para institutos parceiros ao redor do mundo. No Brasil, uma das organizações associadas a essa rede é o Instituto Millenium, criado em 2005 pelo Paulo Guedes, et. al. O instituto se apresenta como um centro de estudos voltado à promoção de liberdade econômica, responsabilidade fiscal e democracia liberal. Suas atividades incluem publicação de artigos e análises, organização de eventos e debates, produção de vídeos institucionais, e programas de formação política para jovens lideranças. Think tanks raramente sobrevivem apenas de doações individuais. Eles dependem de financiamento institucional, frequentemente vindo de empresas, fundações ou organizações internacionais. Como outros think tanks , o Instituto Millenium não fornece retorno financeiro a quem investe nele, pelo menos não diretamente. Seu objetivo é influenciar políticas públicas no Brasil, e a implementação dessas políticas pode ser lucrativa a longo prazo, oferecendo um bom retorno no investimento de uma entidade estrangeira como o governo dos Estados Unidos. Arquivos do Instituto Millenium indicam apoio financeiro do braço de gestão financeira do Bank of America . (Algumas dessas páginas foram posteriormente removidas.) O Bank of America , por sua vez, mantem uma parceria de longa data com a BlackRock , hoje considerada a maior administradora de ativos do planeta, com trilhões de dólares sob gestão. Tom Montag, ex-presidente do Bank of America , atuou no conselho de administração da BlackRock enquanto trabalhava no BofA . Além disso, por volta de 2 anos depois que Merrill Lynch “ uniu forças ” com a BlackRock , ela foi comprada pelo BofA. A BlackRock também mantém relações próximas com o governo dos Estados Unidos e com a CIA. Durante a crise financeira de 2008 e a da pandemia em 2020, a empresa foi contratada pelo Federal Reserve para administrar programas de compra de ativos destinados a estabilizar os mercados. E diversos executivos da empresa circularam entre cargos no setor privado e posições no governo estadunidense, um fenômeno conhecido em Washington como “ revolving door ,” ou porta giratória. Thomas E. Donilon é um destes executivos. Como vice-presidente da BlackRock , ele foi membro do conselho administrativo da CIA por quase uma década, e é também membro do conselho de uma think thank chamada Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Internacionais). Há um argumento a ser feito de que isso não significa que exista coordenação alguma entre empresas, think tanks e agências de inteligência. Mas um rastro indica que as redes institucionais que conectam finanças globais, política pública e produção intelectual são densas e interligadas. Não é de se surpreender que esse fenômeno de porta giratória gera preocupação, pois mostram que esses incentivos de carreira entre o setor público e privado podem moldar as escolhas políticas mesmo sem corrupção explícita. Favores para futuros empregadores e influência legislativa através de antigos colegas é um ambiente propício a conflitos de interesse. Aí se encontra o cerne da Teoria Econômica da Regulação : Através dessa porta giratória, as agências reguladoras começam a servir aos interesses das indústrias que devem ser regulamentadas, em vez dos interesses do público. O Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, é um exemplo perfeito disso, tendo servido cargo publico como ministro, criado bancos e gestoras de investimento, assim como uma das principais think tanks liberais do Brasil. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. O ecossistema da mobilização Enquanto think tanks produzem ideias e formam quadros políticos, outro tipo de organização atua na mobilização de rua. No Brasil, o movimento NasRuas é um desses grupos. Criado durante as mobilizações políticas da década passada, o movimento ganhou notoriedade organizando protestos contra o governo Dilma Rousseff e posteriormente participando de campanhas pró-impeachment. Grupos como este aplicaram estratégias inspiradas em campanhas políticas estadunidenses , incluindo o uso intensivo de redes sociais, publicidade digital segmentada, produção de conteúdo político viral, e articulação com influenciadores e páginas ideológicas. Uma característica recorrente desses movimentos é o financiamento difuso. A associação Brasil NasRuas, por exemplo, não divulga de forma detalhada a origem de todos os seus doadores ou os valores arrecadados para campanhas específicas. Essa falta de transparência levou o movimento a aparecer em investigações judiciais como o Inquérito 4828 do STF, onde o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma série de diligências para investigar a organização e o financiamento de manifestações consideradas antidemocráticas. O resultado revelou o potencial da “existência de uma rede integralmente estruturada de comunicação virtual voltada tanto à sectarização da política quanto à desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos.” Carla Zambelli, fundadora da Associação Brasil NasRuas, e Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, estiveram ligados principalmente porque faziam parte do mesmo projeto político durante o governo Bolsonaro, no qual Guedes era o responsável pela política econômica e Zambelli atuava como aliada no Congresso apoiando essa agenda. Ela foi investigada por diversos crimes, incluindo lavagem de dinheiro através da Associação que ela criou, o NasRuas, e hoje está presa. Esse ecossistema costuma operar em três níveis. No topo estão instituições financeiras, fundações e redes internacionais que apoiam projetos intelectuais e educacionais. No meio estão think tanks , responsáveis por produzir conteúdo, pesquisas e programas de formação política. Na base aparecem movimentos de mobilização digital e organizações de rua, que transformam essas ideias em campanhas públicas, protestos e pressão política. Nem sempre existe coordenação explícita entre essas camadas. Mas frequentemente elas compartilham redes de financiamento, formação e circulação de ideias. Diante desse cenário, a presença de bandeiras estrangeiras em manifestações políticas brasileiras ganha outro significado. Ela representa admiração cultural, alinhamento ideológico ou identificação geopolítica. Mas também pode indicar a existência de uma rede internacional de narrativas e verbas políticas. No protesto de 1º de março em Copacabana, esse símbolo apareceu de forma literal. Talvez fosse apenas um gesto espontâneo. Talvez fosse um sinal de algo maior. Vivemos à mercê da mais ampla, influente, tecnológica e bem financiada infraestrutura de inteligência e de operações secretas da história do mundo. Neste contexto em que ideias e dinheiro circulam globalmente com a mesma velocidade que memes nas redes sociais, acreditar que a política brasileira existe isolada dessas redes pode ser, no mínimo, um pouco ingênuo. De qualquer forma, é curioso que uma mobilização cercada de bandeiras internacionais e discursos neoliberais termine deixando como rastro online sua vaquinha “oficial,” criada quase 6 meses antes do evento, cujo endereço ainda anuncia que “o cachorro Bob precisa de cirurgia” porque “foi atropelado.” _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9. _____ Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique .
- Operações secretas, consentimento fabricado e a glória do Irã
Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos operou não apenas por meio da diplomacia e da guerra declarada, mas também por meio de uma vasta arquitetura de operações secretas. Da América Latina à África e ao Oriente Médio, a atividade de inteligência frequentemente precedeu e preparou a justificativa pública para ações militares ostensivas. Compreender os eventos contemporâneos em torno do Irã exige situá-los dentro de um padrão histórico mais amplo de desestabilização secreta, manipulação narrativa e guerra ideológica funcionando em conjunto. Operações secretas como ferramenta de longa data da política externa dos EUA A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA. Por exemplo, o Projeto FUBELT envolveu esforços secretos da CIA para impedir que o presidente chileno Salvador Allende governasse e para promover o golpe militar que acabou instalando Augusto Pinochet. Os programas secretos dos EUA no Congo buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos. As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a Operação CHAOS monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico. Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável. Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio a assassinatos cometidos pelo ICE , a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência. O Irã e o papel das operações de inteligência O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o contrabando de drones e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar. Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam surtos internos . Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição. Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência. Ação secreta como relações públicas para a guerra A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável. A Operação Mongoose da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção. Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que se levante contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação. Interesses estratégicos por trás da desestabilização do Irã Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã. O Irã ocupa uma posição estratégica singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos. As sanções dos EUA contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção. Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia. A propaganda como arma de guerra A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em Manufacturing Consent (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites. Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas. Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita. Islamofobia e a fabricação da desumanização O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise baseada em corpus de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos. Estudos sobre mídias sociais após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais. A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva. Diáspora e reações conflitantes Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo. As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas. Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica. A compreensão limitada do ocidente sobre o mundo muçulmano Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível. Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários. Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional. Uma Ode ao Irã Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja literatura é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica. O Irã também possui uma longa e complexa história de movimentos políticos feministas . Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico. Erradicando a supremacia A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados. Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações. O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda. Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique . Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.
- Por que o ICE deve ser compreendido como terrorista?
Leia em Português na Le Monde Diplomatique. On January 7, 2026, Renee Nicole Good — a 37-year-old mother, poet, and Minnesota resident — was fatally shot by an ICE agent in Minneapolis. Good was not a violent criminal; according to multiple eyewitness accounts and videos, she was unarmed in her vehicle during a large federal immigration enforcement operation when an agent fired multiple times, killing her. People denouncing and defending this murder invoke "domestic terrorism" as the explanation for this horrific situation. Domestic terrorism consists of violent, criminal acts committed by individuals or groups to further ideological goals; it's preposterous to have a debate about who in this scenario is the real terrorist. Good was peacefully resisting the actions of agents of an ideological institution that commits violent crimes to in still fear in marginalized contingents of American society, and faced their deadly ire. Good’s death is an extreme example of how federal agencies with broad, vaguely constrained powers can enact lethal force on civilian populations without transparent accountability — and why any sensible citizen argues these agencies operate in ways that terrorize communities. Justifiably, her death has led to widespread protests. The role of ICE in contemporary U.S. society is comparable to various forms of state policing whose violence is structurally tolerated and normalized, such as Brazil’s Military Police in favelas and the IDF in Palestine. These institutions operate with expansive authority, little civilian oversight, and use lethal force disproportionately against marginalized communities, contributing to patterns of fear and repression rather than safety. In Rio de Janeiro, Military Police operations in favelas have resulted in repeated massacres, with indiscriminate shootings and high civilian casualties. These operations often amount to collective punishment that terrorizes residents, and disproportionately affects Black and poor populations. In Palestine, the IDF’s occupation, settler protection, and blockade policies has produced widespread civilian casualties and destruction, often without transparent accountability mechanisms, reinforcing structural power imbalances and terrorizing communities. This pattern indicates not just isolated events, but systemic violence inherent in policing structures. ICE, a federal agency responsible for immigration control, carries out operations well beyond the U.S. border and employs aggressive tactics that instill fear, cause injury, and result in death within immigrant communities and, as is evident, far beyond. Photos of the rally and march "Ice/Border Patrol Out of NOLA!" in New Orleans, January 10th, 2026. By Mirna Wabi-Sabi. State Violence is Terror Defenders of ICE emphasize its legal mandate to enforce immigration laws. Opponents argue that when enforcement agencies use overwhelming force without accountability, the effect is state terrorism — that is, the systematic use of violence by governmental agents to control, intimidate, or repress civilian populations. This understanding calls attention to the terrorizing impact on communities who live under the constant threat of unaccountable force. Renee Good’s killing became a flashpoint because it occurred during an operation that had been terrorizing residents of Minneapolis for weeks. Just as police militarization in Brazil’s favelas is criticized for fostering a climate of fear and extrajudicial violence, the IDF's operations result in civilian deaths that traumatize Palestinian. Meanwhile, ICE’s domestic operations, conducted with limited local oversight, produce fear and trauma among immigrants and the broader public. Community Control as an Antidote The National Alliance Against Racist and Political Repression (NAARPR) advocates for structures that directly address this terror threat by placing civilian oversight and accountability at the center of policing and enforcement. True oversight requires community participation, transparency, and power to shape law enforcement policy and discipline. NAARPR’s Campaign for Community Control of Police exemplifies this approach by demanding that communities, not just internal departmental review boards, have the authority to oversee police operations, budgets, and disciplinary proceedings. By democratizing control over public security, these movements aim to reduce violence and increase accountability, ensuring that agencies cannot operate as unregulated forces of coercion. Groups like Eye on Surveillance are part of the civil society infrastructure that pushes for such oversight to exist, by demanding transparency from police and surveillance operators, and connecting communities to their rights and to policy efforts that can lead to formal structures of accountability. This network researches how surveillance systems, from facial recognition to predictive policing, are deployed without public consent and without adequate transparency, often targeting the vulnerable to enforcement violence. Whether it is ICE’s domestic raids, militarized police operations in Brazil, or surveillance technologies deployed by the IDF and globally, the underlying dynamics are: agencies equipped with state power and technological capacity act without community consent, producing terror . Civilian oversight and transparency mechanisms challenge this by bringing policing and surveillance under public control rather than leaving them in the hands of insulated enforcement bureaucracies. From Minneapolis to Rio de Janeiro, to Gaza and conflict zones around the globe, state violence under the guise of security creates environments where civilians are terrorized by the very forces meant to protect them. Recognizing that agencies like ICE and militarized police forces can act in ways that terrorize communities is not merely rhetorical; it is a call for structural transformation. Advocates for community control of police and civilian oversight offer concrete alternatives to unchecked state power, demanding transparency, accountability, and democratic governance of policing. If we are to live without fear of arbitrary or lethal state force, oversight structures must be rooted in communities themselves, empowered to shape policy, enforce discipline, and ensure that enforcement serves public safety rather than repression and terror. ________ by Mirna Wabi-Sabi
- Liberty-washing da Venezuela: Como Trump transforma crises em uma narrativa de controle
Liberty-washing: a prática de invocar seletivamente a linguagem da liberdade, da restauração democrática ou do Estado de direito para legitimar ações coercitivas no exterior, desconsiderando a soberania, as restrições do direito internacional ou liberdades comparáveis no próprio país. Imagens de Fabio Teixeira que retratam um protesto dia 5 de janeiro, da Cinelândia até o Consulado dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro – Brasil. A operação americana que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi apresentada por Donald Trump como um ato decisivo em defesa da liberdade, da democracia e do Estado de direito. De acordo com declarações oficiais, a ação foi enquadrada como uma medida de aplicação da lei, baseada em acusações de longa data contra Maduro por tráfico de drogas e conspiração criminosa, combinadas com a alegação de que o sistema eleitoral venezuelano carecia de legitimidade. No entanto, a escala e a natureza da operação — envolvendo o uso de força militar contra um chefe de Estado em exercício — imediatamente levantaram questionamentos sobre o direito internacional, a soberania e as reais motivações. Compreender esse episódio exige separar três elementos distintos que frequentemente são condensados em uma única narrativa: as reais dificuldades enfrentadas pelos venezuelanos, as justificativas apresentadas pelo governo Trump e o uso político dessas justificativas para exercer poder além das fronteiras dos Estados Unidos. A Venezuela não é uma exceção — a crise é uma condição global A Venezuela, assim como outros países, tem vivenciado polarização política, volatilidade econômica, eleições contestadas e migração em massa. Nenhum desses fenômenos é único, nem justifica, por si só, a intervenção estrangeira. Eleições contestadas, ciclos inflacionários, violações dos direitos humanos e fluxos migratórios são características da política global contemporânea, inclusive em países que se posicionam regularmente como árbitros da democracia. Organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas , a Human Rights Watch e a Anistia Internacional , documentaram preocupações na Venezuela relacionadas ao devido processo legal, ao tratamento de oponentes políticos e à independência institucional. Relatórios semelhantes existem para aliados dos EUA — e para os próprios Estados Unidos — onde o encarceramento em massa, a violência policial, a supressão do voto e os poderes de emergência também têm sido alvo de críticas constantes. A existência de falhas na governança não cria uma hierarquia de nações, em que algumas têm direito à soberania e outras são consideradas passíveis de perdê-la. A crise migratória da Venezuela deve ser compreendida nesse mesmo contexto global. Milhões de venezuelanos deixaram o país na última década, se estabelecendo principalmente em países vizinhos da América Latina, como o Brasil . Seu deslocamento reflete uma convergência de contração econômica, sanções, desigualdade regional e impasse político. Os refugiados não são prova da falha moral de um Estado; são pessoas que enfrentam escolhas limitadas sob pressão estrutural. Merecem proteção, dignidade e respostas políticas sérias, e não serem usados retoricamente como símbolos de desordem. Apesar das frequentes referências de comentaristas à migração , os refugiados não foram a principal justificativa legal ou operacional oferecida pelo governo Trump para a prisão de Maduro. As declarações oficiais enfatizaram duas alegações acima de todas as outras: tráfico de drogas e conspiração criminosa, com base em acusações dos EUA que alegavam que agentes do Estado venezuelano facilitavam o fluxo de narcóticos; e ilegitimidade eleitoral, com os EUA se recusando a reconhecer as recentes eleições venezuelanas como estando em conformidade com os padrões internacionais. Essas alegações foram apresentadas como ameaças à segurança nacional dos EUA e à estabilidade regional. Se as evidências sustentam tal ação extraordinária, isso permanece em debate. Avaliações de inteligência pública não demonstraram conclusivamente que a Venezuela desempenha um papel central único no tráfico transnacional de drogas em comparação com outros países da região. Tampouco a existência de eleições contestadas — um fenômeno global — constitui base legal para intervenção militar unilateral. O que importa, do ponto de vista analítico, não é se essas preocupações são totalmente fabricadas, mas como são elevadas, isoladas e instrumentalizadas. Liberty-washing como Técnica Política Essa estratégia pode ser melhor descrita como liberty-washing. Ela se refere à invocação seletiva da linguagem da liberdade, da democracia e do Estado de Direito para legitimar ações coercitivas no exterior, ignorando a soberania, as restrições do direito internacional e as liberdades comparáveis no próprio país. Assim como o pinkwashing ou o greenwashing , não se baseia em falsidades absolutas, mas em uma seleção de verdades utilizadas para uma agenda política hegemônica. Nesse caso, as alegações de tráfico de drogas e irregularidades eleitorais são transformadas de desafios políticos em autorização moral. A linguagem da “libertação” substitui a diplomacia; a acusação criminal substitui o processo multilateral. A liberdade torna-se algo que os Estados Unidos reivindicam o direito de administrar, em vez de uma condição exercida pelos próprios povos. Essa lógica explica uma contradição central: Trump se apresenta como um defensor global da liberdade no exterior, enquanto contesta abertamente a legitimidade eleitoral, a independência judicial e a liberdade de imprensa internamente. Liberty-washing resolve essa contradição transformando a liberdade em uma posse do poder, e não em um princípio universal. O Prêmio Nobel da Paz e a Personalização da Política Externa A fixação de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz ilustra ainda mais como a instrumentalização da liberdade opera no nível da ambição pessoal. Relatos indicam que Trump via o prêmio como uma validação de sua estatura global, e que tensões surgiram quando a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, recebeu o prêmio em seu lugar. O reconhecimento de Machado, enraizado na luta política não violenta, não se traduziu em apoio total dos EUA, supostamente porque isso prejudicava a própria pretensão de Trump de ser uma autoridade na promoção da paz. Essa personalização é importante. Quando a política externa se torna um palco para a competição simbólica, os atores democráticos que não se alinham com esse simbolismo são marginalizados. A instrumentalização da liberdade, portanto, não fortalece a sociedade civil venezuelana; ela centraliza a legitimidade em Washington. A retórica de Trump após a operação sugere mais do que apenas a instauração de um processo judicial. Declarações sobre supervisionar a "transição" da Venezuela ou determinar resultados políticos aceitáveis ecoavam uma postura mais ampla, evidente em outros contextos — incluindo em Gaza — onde a soberania é tratada como provisória, revogável por uma força superior. Em ambos os casos, o território é discutido menos como o espaço político de um povo e mais como um problema de segurança a ser administrado. Lei, liberdade e ordem são invocadas não para restringir o poder, mas para racionalizar sua expansão. Isso não é uma anomalia; é uma lógica familiar de intervenção reformulada em linguagem contemporânea. Refugiados merecem proteção, e não serem usados como instrumento narrativo É crucial que os refugiados venezuelanos não sejam incluídos nessa lógica. Seu deslocamento não justifica o uso da força; é uma denúncia do fracasso global — incluindo regimes de sanções, desigualdade regional e apoio internacional inadequado. Respeitar os refugiados significa resistir à sua instrumentalização como moeda de troca moral em disputas geopolíticas. A retórica da liberdade transforma os refugiados em símbolos. Como prova do fracasso estatal, justificativa para intervenção ou pano de fundo para ganhos estratégicos. Uma abordagem séria, em vez disso, priorizaria os direitos de asilo, a cooperação regional e o apoio de longo prazo, sem militarização. A prisão de Nicolás Maduro não revela muito sobre a suposta disfunção excepcional da Venezuela, mas revela muito sobre como o poder opera quando envolto na linguagem da liberdade. As justificativas de Trump baseiam-se em preocupações seletivamente amplificadas sobre drogas, eleições e governança, transformadas em autoridade moral para ações unilaterais. Liberty-washing instrumentaliza o sofrimento. E, ao fazê-lo, arrisca transformar crises em precedentes para um mundo em que a soberania é condicional, a lei é opcional e a liberdade é algo imposto, e não vivido. Os venezuelanos — incluindo aqueles que fugiram — merecem melhor do que isso. _____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi e fotografado por Fabio Teixeira Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique
- O que significa Justiça no caso do linchamento de Moïse Kabagambe
Artigo publicado na Le Monde Diplomatique Brasil . FOTOS: Manifestação por Justiça no caso Moïse Kabagambe na Barra, Rio de Janeiro (Crédito Fabio Teixeira) Sábado, 5 de fevereiro, manifestantes foram às ruas de grandes cidades brasileiras pedindo Justiça. Um jovem africano foi linchado – torturado até a morte – em uma praia no Rio de Janeiro. Os perpetradores , também pessoas trabalhadoras, estão sob custódia e alegam que não houve intenção de matar; que eles estavam reagindo ao comportamento errático e irresponsável do imigrante. A família da vítima, por outro lado, alega que ele só estava pedindo para ser remunerado por dois dias de trabalho. Nenhuma narrativa, no entanto, justifica o que aconteceu, uma barbárie que foi filmada em vídeo. A prisão dos homens que amarraram outro homem e o espancaram é o que consideramos Justiça? Moïse Kabagambe foi um refugiado congolês que morou no Brasil uma década. Na praia onde foi brutalmente assassinado, era conhecido como “ angolano ”. Isso é como apelidar um estadunidense de “mexicano” ou um brasileiro de “venezuelano”, porque são países vizinhos no mesmo continente. A falta de entendimento de sua comunidade sobre as circunstâncias que o trouxeram ao Brasil em primeiro lugar já é uma injustiça – que não será revertida com a prisão de ninguém. Em 2008, a Segunda Guerra do Congo, que começou em 1998, matou mais de 5 milhões de pessoas e é considerada a mais mortal desde a Segunda Guerra Mundial . A primeira aconteceu logo antes, também na década de 1990, e foi resultado direto de forças coloniais e imperialistas se intrometendo com líderes africanos e explorando as diferenças étnicas na região. O Zaire, que hoje é conhecido como República Democrática do Congo, foi feito de corda em cabo de guerra entre forças comunistas e anticomunistas, até a dissolução da URSS e do interesse dos EUA em endossar seu líder. Moïse nasceu no ano em que uma guerra terminou e outra começou, um período em que mais de 5 milhões de crianças não receberam educação devido à turbulência política – os níveis de alfabetização estavam em seu nível mais baixo e o trabalho infantil e a exploração em seus níveis mais altos. Ao longo de sua juventude, seu país esteve sob uma operação das Nações Unidas de “manutenção da paz” ( Monusco ), que fez mais para criar uma indústria clandestina de armas do que evitar conflitos. Entre os países envolvidos nessa operação estava o Brasil, com seus militares e policiais. Hoje, um general brasileiro é Comandante da Força da Monusco, e é o quarto comandante do Brasil a ocupar o cargo, tornando-o o país mais representado no projeto em termos de liderança. Muito antes de tudo isso, a região do Congo já havia passado por atrocidades sob o regime belga e sua indústria da borracha. Na virada do século passado, entre a última década de 1800 e a primeira de 1900, africanos sob o regime colonial do rei belga foram escravizados, mutilados e mortos a taxas bárbaras. Fome, doenças e exploração perpetuada pelo colonialismo e suas indústrias com fins lucrativos foram responsáveis pela morte de mais da metade da população local; incontáveis vidas . Mas a intromissão estrangeira não é tudo o que há a se dizer sobre este país da África Central. (Crédito Fabio Teixeira) Cultura e resistência Apesar do incessante oportunismo geopolítico, o Congo sobreviveu geograficamente e prosperou culturalmente. De acordo com o WWF , “a Bacia do Congo é habitada por humanos há mais de 50.000 anos e fornece comida, água fresca e abrigo para mais de 75 milhões de pessoas”. O rio Congo é o maior em volume depois do rio Amazonas. Sua floresta tropical também é a maior depois da Amazônia. Como pessoas brasileiras, nossa paixão pela preservação do nosso bem mais magnífico e precioso deve ser estendida ao nosso vizinho ecológico, já que, juntos, nossos países são os detentores das mais “importantes áreas selvagens que restam na Terra”. Música e literatura congolesa também encontram na expressão artística uma ferramenta de autoestima e poder. Kolinga , um grupo congolês, hoje faz hinos feministas decoloniais. No século passado, hits de soukous e rumba congolesa tornaram-se clássicos internacionais, bem representados na compilação Congo Revolution “ Revolutionary and Evolutionary Sounds From The Two Congos 1955-62 ”. A literatura, que merece tradução e distribuição ampla, é ainda mais comovente e representativa da maré artística da nação. O poema “Segunda Dimensão” do escritor congolês Rais Neza Boneza, em seu livro “Nômade, sons do exílio”, é particularmente perspicaz, talvez até especificamente para a situação de Moïse e sua comunidade imigrante no Brasil. Que ele fale por si: Perto de sua mesa está um copo de água; Pela janela ele olha para o transeunte: Ele observa e sempre espera, espera, espera. A amargura nutre seu ser; Sujeito a mal-entendidos E falsos ares de ‘gente’ Ele é um prisioneiro. Ele se senta, as mãos em volta do queixo Pensando solenemente Em seus sonhos, seus espíritos escapam O mundo das dificuldades E viajar nas extensões do Céu azul selvagem Ele se inclina sobre a mesa, meio preocupado, meio satisfeito. Neste lugar dele não há compaixão; O mal ronda sua presa; Rancor canta sua melodia da manhã, Um estranho à sua terra, Ele bebe melancolicamente de seu copo… Um gole de liberdade. Marginalizado e carente, Muito longe está soprando para ele o vento da liberdade Ele é um clandestino, sempre sem endereço, Não um nômade, mas um recluso no meio da humanidade. Em sua clausura de cristal imbatido* Ele segue os ecos de seus gritos silenciosos. Uma rocha de loucura, só a solidão lhe responde. Ele se assusta! Seu coração bate rápido! Ele se levanta da cama! Ah! É apenas um pesadelo! Este é um pesadelo do qual Moïse Kabagambe e sua família não vão acordar, nem a diáspora africana será protegida da desumanidade de tais atos. Mas podemos, como sociedade, começar a interpretar a Justiça como um conceito abrangente – não apenas como algo que o sistema judicial pode fornecer. Justiça significa ver, respeitar e apreciar o valor de acolher pessoas diferentes de nós em nossas comunidades. Justiça significa fazer o que pudermos para aprender, entender e lutar contra um paradigma geopolítico alimentado pelo abuso e pela exploração (por exemplo, exigindo reparações). Justiça significa pensar, perguntar e sentir a Humanidade em todos nós. Manifestação por Justiça no caso Moïse em São Paulo, MASP, 5 de fevereiro — Foto e vídeo, (Crédito Mirna Wabi-Sabi) _____ *Nota de tradução: ‘Imbatido’ como o particípio passado de ‘imbatível’, do original ‘unbroken’. _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação .
- Separar o lixo orgânico pode prevenir leptospirose e salvar vidas
Por Mirna Wabi-Sabi e fotos por Fabio Teixeira. Publicado na Le Monde Diplomatique Brasil . Pode-se dizer que produzir menos lixo ajuda a estender a vida humana no planeta, pois, entre outras coisas, preserva recursos naturais dos quais dependemos para sobreviver. O lixo orgânico, em particular, é responsável pela produção de metano, um dos mais importantes gases causadores do efeito estufa. Mas é possível que a separação do lixo orgânico possa salvar vidas de uma forma mais imediata: com a prevenção de casos de leptospirose . Está longe de ser novidade que resíduos de alimentos no lixo atraem animais como ratos, e que a urina desses animais pode causar leptospirose em humanos. De acordo com o fotojornalista Fabio Teixeira, autor da série fotográfica “Sobrevivendo Entre Sombra e Luz”, trabalhadores anônimos que atuam nos arredores das comunidades da cidade do Rio de Janeiro são vítimas de racismo, violência policial, e ainda sofrem com doenças causadas pelo lixo. “Essas pessoas desempregadas fazem a reciclagem do lixo para encontrar cobre, ferro, alumínio, e brinquedos para conserto e doação. Segundo informações dos recicladores, dois óbitos foram causados por contaminação com leptospirose, uma em novembro e outra em dezembro de 2022.” Fotos por Fabio Teixeira na Favela Manguinhos (04/03/2023) Essa observação de Teixeira é sustentada por pesquisas da área de saúde pública, apesar dos números provavelmente serem subnotificados . A comunidade de trabalhadores da indústria da reciclagem e coleta de lixo é descrita como em constante risco no artigo “ Percepção De Qualidade De Vida De Catadores De Materiais Recicláveis” , publicado em 2017, pela revista de enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. As autoras explicam que por “exigir contato permanente com agentes nocivos à saúde, sendo uma das atividades profissionais mais arriscadas”, a “atividade que manipula lixo” é “insalubre em grau máximo”. Tais afirmações podem soar óbvias, mas a questão do lixo tem o potencial de afetar toda a população urbana, e não apenas profissionais que manejam resíduos. A Radioagência Nacional, divulgou um alerta em março deste ano sobre o aumento de “casos e de mortes” por leptospirose. Chuvas fortes e enchentes exacerbam o problema ao expor maior contingente da população, tendo como consequência 24 casos e 3 mortes registrados pela Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro nos primeiros dois meses de 2023. As propostas para mitigar esse perigo até agora têm sido evitar que crianças brinquem em lugares com água acumulada e tirar o lixo no máximo uma hora antes do caminhão passar . Mas essas soluções não protegem a população como um todo, pois o lixo ainda é levado para algum lugar onde pessoas transitam e se expõem aos riscos, e o potencial recorrente de enchentes em áreas urbanas impossibilita evitar água acumulada. Consumo e descarte consciente de resíduos é a ferramenta mais eficaz nas mãos de indivíduos, e requer uma reconfiguração simples da dinâmica do lar. Separar lixo orgânico: “Não jogue sua consciência no lixo” O consumo consciente começa na compra do produto. Melhor do que reciclar é produzir menos lixo. Para isso, basta dar preferência para produtos sem embalagem, como legumes e frutas de feira. Se houver embalagem, opte pela embalagem compostável, como papel, ou a embalagem reutilizável, como jarras de vidro. Ao descartar plástico, tetrapak e tecido, garanta que eles estejam limpos, sem sobras ou cheiros de comida. É importante que esse lixo esteja sem resíduos ou odores de matéria orgânica, pois eles servem como comida e atraem roedores. Separar todos os restos de comida do lixo previne a emissão de metano na atmosfera e evita que ratos sejam atraídos pelo lixo. A questão é o que fazer com essa comida. A compostagem é a melhor maneira de transformar resíduos orgânicos em terra adubada sem produzir metano ou atrair roedores. Mas nem todos têm como compostar em casa. Hortas comunitárias como o AMaravista na região oceânica de Niterói recebe e coleta matéria orgânica de moradores da vizinhança para usar na compostagem, e orienta como fazer a separação desses materiais – evitar colocar carne, por exemplo, e separar cascas de cítricos em seus próprios recipientes. A reconfiguração da cultura de consumo e descarte de resíduos do lar requer pouco tempo e espaço, mas requer interesse e consciência. Fotos por Fabio Teixeira na Favela Manguinhos (09/03/2023) Considerar que alguém manuseará o lixo e pensar no bem-estar dessas pessoas é de imensa importância, além de lembrar que o lixo existirá por décadas depois que nós o jogamos fora. É benéfico para todos que esse lixo possa ser separado, reusado ou reciclado de forma sustentável e saudável, sem poluir a terra ou os oceanos, e sem causar mortes. O trabalho de coleta e separação de lixo é imprescindível para a sustentabilidade de práticas de consumo, para a proteção ambiental e para a preservação de recursos naturais como águas despoluídas e terrenos férteis. Fotos por Fabio Teixeira no Rio de Janeiro (2022) Lidando com o fracasso de políticas públicas Quais ações e programas deveriam ser desenvolvidos pelo Estado para garantir o bem-estar da população? A leptospirose é uma doença causada por um fracasso de serviços de saneamento básico, pelo adensamento de municípios a favor do mercado imobiliário, e pelos níveis desumanos de desigualdade social. “A destinação inadequada dos resíduos sólidos está envolvida na determinação do aparecimento de doenças infecciosas” ( 2017 ), e a adequação significa não só um destino apropriado, mas também equipamentos adequados e condições dignas de vida para trabalhadores. Uma análise interseccional entre direitos trabalhistas, acesso à saúde e educação, saneamento básico, sustentabilidade e ambientalismo permite o desenvolvimento de uma solução holística para esse problema. De acordo com a pesquisa da Revista de enfermagem da UFPE, “a degradação do meio ambiente natural e a geração de resíduos causam comprometimentos da saúde física, transtornos psicológicos e psiquiátricos, e desintegração social.” O bem-estar da população depende de ações que consideram os âmbitos físico, psíquico e social. Portanto, as soluções como esperar para tirar o lixo ou evitar entrar em contato com água acumulada não abordam o problema de saúde pública da leptospirose em sua totalidade. Essa totalidade inclui o consumo familiar até seu método de descarte, diversos fracassos de políticas públicas, práticas comunitárias sustentáveis e uma perspectiva ambientalista. A história da leptospirose A leptospirose foi trazida para as américas com os roedores presentes em navios europeus durante a colonização, e é possível que tenha causado um massacre de populações indígenas. O Artigo “ Nova hipótese para a causa da epidemia entre os nativos americanos, Nova Inglaterra, 1616–1619 ” propõe que se deve considerar “costumes que podem ter sido fundamentais para a quase aniquilação dos nativos americanos, o que facilitou a colonização bem-sucedida” de certas áreas dos Estados Unidos. E que esses “costumes locais continuamente expuseram essa população à infecção hiperendêmica por leptospira”. Fontes dos gráficos 1 e 2: SINAN-03/03/2023 Um jornal acadêmico de Doenças Tropicais Negligenciadas ( PLOS Neglected Tropical Diseases ), dedicado a “doenças infecciosas que promovem a pobreza”, publicou um artigo sobre a “ Carga Global da Leptospirose ” em 2015. Nele, os pesquisadores estimam que a leptospirose é um problema sério para países tropicais com poucos recursos, incluindo países na África, “devido aos problemas de diagnóstico e falta de dados”. Dados da Tanzânia e da Amazônia revelam que febre é um sintoma comum e a malária é superdiagnosticada como causa. Isso leva a números substanciais de “ estimativa da carga de doença” da leptospirose sendo mal alocados para outras doenças infecciosas, como a malária. De acordo com dados publicados pela Sinan dia 3 de março de 2023 , houve um aumento de casos de leptospirose no país em 2022, ou uma subnotificação mais drástica do que o usual durante a pandemia de Covid-19 em 2020 e 2021. Poucos dias antes, dia primeiro de março, a Radioagência Nacional reportou 3 mortes em 2023 que não constam nos números da Sinan. É evidente que a magnitude do impacto da leptospirose no Brasil não está sendo precisamente quantificada. Fontes dos gráficos 3 e 4: SINAN-01/03/2023. Gráfico 5: SINAN- DOI Por conta do adensamento populacional nas regiões do Rio de Janeiro e de São Paulo, seus números se sobressaem, ao lado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Apesar do Rio apresentar uma “ taxa de prevalência inferior à taxa nacional ” a cada 100 mil habitantes, surtos de leptospirose na cidade coincidem com as tempestades de verão desde os anos 60, e “áreas com ocorrência de inundações apresentam mais casos”. Essas áreas tendem a ser, como esperado, de baixas condições sanitárias , com comunidades de baixa renda . Em 2020, Mário Martins e Mary Spink publicaram um artigo chamado “ A leptospirose humana como doença duplamente negligenciada no Brasil ”, onde a seguinte afirmação é feita: “Nossa análise mostra [a] arbitrariedade dos critérios de atribuição de prioridades de saúde e a invisibilidade do perfil populacional da leptospirose humana nos dados oficiais. […] Concluímos que [isso] é relacionado ao fato de que a leptospirose humana afeta uma população que o Estado não tem interesse em manter viva.” A leptospirose matou mais brasileiros do que a dengue todos os anos entre 2000 e 2016 – 3 vezes mais – mas recebeu nove vezes menos investimento médico. Há mais casos de dengue, portanto o questionamento está longe de significar uma crítica ao financiamento de tratamento e prevenção dela, mas acadêmicos estão há anos apontando a severa negligência com a qual a leptospirose é abordada institucionalmente, e o paralelo com a dengue destaca isso. “ Quantificar a magnitude da perda de saúde ” devido à leptospirose é difícil, mas não há dúvida que casos são subnotificados, mal diagnosticados, e recursos não são suficientemente alocados para pesquisa e prevenção. Desde a chegada da doença em “ navios negreiros ”, uma população racializada e empobrecida é forçada a viver em condições insalubres, sem recursos apropriados e acesso a políticas públicas decentes. Isso no mínimo deveria nos incentivar a tomar iniciativas em nossas casas e comunidades para ajudar a prevenir casos e mortes causadas pela doença. Seres humanos e o meio ambiente só tem a ganhar com a conscientização da população e de instituições públicas das causas e soluções do problema do lixo como risco à saúde humana. _____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi e fotos por Fabio Teixeira












