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- Fernanda Young: O Feminismo Alimenta o Machismo?
Fernanda Young, em sua análise sobre o feminismo, ignorou variáveis que não a serviam em sua viajem pelo controverso de alto ibope. [Este artigo foi publicado em fevereiro de 2020, no site da Inimiga da Rainha.] Fernanda Young foi uma escritora e roteirista da Globo com seu marido. Ano passado [2019], ela faleceu inesperadamente, deixando três filhas e um filho. Esse ano [2020], me deparei com o livro dela de dois anos atrás, “Pós-F: Para além do masculino e feminino,” na Livraria Cultura em São Paulo, e me surpreendi com sua falta de tato em relação ao feminismo. Sua morte, mesmo sendo trágica, não pode se tornar uma oportunidade para ignorar seu legado problemático na construção de um pensamento coletivo Brasileiro onde o feminismo é difamado. Fernanda Young foi uma Rainha que deturpou conceitos abordados por muitas Inimigas do sistema que vieram antes dela. No sistema patriarcal, o homem também sofre, e isso não quer dizer que vamos descartar o feminismo. Mulheres feministas negras abordam o tema dos homens sofrerem neste sistema há décadas. Porém, eu diria que ‘homens sofrem também’ é usado para descartar o feminismo da mesma forma que ‘brancos são pobres também’ é usado para descartar o racismo. A escrita de Young é gostosa, mas a linha de raciocínio é vergonhosa. Ainda bem que no prefácio ela admite: “Achava que deveria partilhar a minha liberdade, inclusive de falar merda — coisa para qual tenho uma técnica, e afeto.” Mas é muita merda mesmo. Começando com: “O feminismo alimenta o machismo.” O machismo existia antes do feminismo, e se alimentava como? Vamos falar de todas as outras coisas que de fato alimentam o machismo? Como, por exemplo, muitos programas de TV…? Se não, nos afundamos na lógica que leva muitos a serem contra a vacina porque já aconteceu [talvez] que causou autismo em alguém. Já aconteceu que uma mulher mentiu e levou alguém a rejeitar o feminismo? Provável. Mas isso explica o machismo? Não. Isso justifica ignorar e rejeitar todos os exemplos de como o feminismo já salvou muitas vidas? Também não. Outro absurdo no livro dela é a transfobia. Para Young só existiam dois gêneros, e querer “mudar de sexo” era uma “precipitação,” porque a sexualidade não precisa disso — basta explorar melhor o seu corpo. É muita ignorância; está claro que ela se preocupou em escrever sobre pessoas trans sem nunca se preocupar em conversar com uma. Conversar e ouvir. Que editor passou o olho naquele capítulo e não se lembrou de avisar que sexualidade e identidade de gênero são coisas diferentes? Talvez tentaram em vão, recebendo a resposta: ‘Censura, jamais!’ E continua… Fernanda diz que já teve namorada e teve amigos gays, então homofobia não é a questão — se precisa ser falado, amigas, já deu ruim. A nudez da mulher virou um tópico contorcido. Para Young, na arte ela deveria ser vista como empoderadora. Porque evidentemente a mulher é “mais bela e interessante” do que o homem. Não querer ser rotineiramente retratada de forma sexualizada não significa machismo internalizado e rejeição do feminino. Por outro lado, se você usa “biquíni enfiado na bunda” tem que esperar receber cantada, como se não fosse assédio, porque é mais vulgar do que a nudez. Essa conclusão vem da premissa de que a nudez é arte e biquininho é erótico, que nos traz a questão mal resolvida de classe. O corpo sofisticado merecedor de admiração, versus o corpo vulgar merecedor de erotização. Além de classismo, a branquitude do texto emana quando ela fala dos horrores de ter que participar de reuniões de condomínio e de sua revolta contra o trabalho doméstico. Além disso, ela fez questão de dedicar um capítulo inteiro ao dado de que mulheres a assediavam mais do que homens, chamado “tudo agora é assédio.” A experiência pessoal de Young diz muito mais sobre ela do que sobre o comportamento dos outros. Será que ela contestaria os dados indicando que homens cis estupram e matam consideravelmente mais do que mulheres? Será que precisamos dos dados para saber que isso é verdade? Estes questionamentos não cabem na linha reta de raciocínio em direção à deslegitimação do feminismo. Minha discordância não é uma agressão, mas uma defesa de uma luta que não é de uma minoria. Até concordo com as críticas ao #feminismo diluído no fluxo das redes sociais. Mas devemos estar atentos a conclusões baseadas em uma única premissa duvidosa. Fernanda Young, em sua análise sobre o feminismo, ignorou variáveis que não a serviam em sua viajem pelo controverso de alto ibope. ______ texto: Mirna Wabi-Sabi
- Fukuoka: ‘Não há lugar melhor do que este mundo’
Aos meus leitores, Não há lugar melhor do que este mundo. Anos atrás, percebi que nós, seres humanos, somos bons exatamente como somos e decidi aproveitar a vida. Segui um caminho despreocupado de volta à natureza, livre do conhecimento e do esforço humanos. Desde então, cinquenta anos da minha vida se passaram voando. Tive alguns sucessos, mas também fracassos. Muitos dos meus sonhos de juventude permanecem não realizados. Sei que meu tempo aqui na Terra é limitado. Agora estou aposentado e vivo em uma cabana na montanha, em meio ao pomar. Fechei minha fazenda ao público para que eu possa aproveitar melhor o tempo que me resta. A melhor parte de viver uma vida de aposentado na montanha, isolado das notícias do mundo exterior, é que tenho uma percepção diferente do tempo. Espero, com o passar dos dias, poder vivenciar um dia como se fosse um ano. Então, como as pessoas das tribos que conheci na Somália, não saberei quantos anos tenho. Ultimamente, tenho tentado imaginar que tenho cem anos… ou até duzentos. Espero que, quando eu partir, minha mente e meu corpo ainda estejam em boas condições. Quando vou para o campo ou para o pomar, digo a mim mesmo: não faça promessas, esqueça o ontem, não pense no amanhã, dedique-se sinceramente ao trabalho de cada dia e não deixe pegadas aqui na Terra. Sou feliz simplesmente por trabalhar com alegria na minha fazenda, que para mim é o Jardim do Éden. O caminho da agricultura natural é para sempre incompleto. A natureza jamais poderá ser compreendida ou aprimorada pelo esforço humano. No fim, para se tornar um com a natureza, para viver com Deus, não se pode ajudar os outros nem receber ajuda deles. Só podemos trilhar nossos caminhos sozinhos. Grande estrada sem portão, não vejo ninguém Paz no Céu, apenas um murmúrio na terra Quem faz o vento errante? Para a esquerda, para a direita Ataque e defesa Sem saber o bem do mal Um ventilador sopra para os dois lados, causando a mesma confusão Enquanto caminho sozinho pelo jardim, vejo uma cabana improvisada Um dia equivale a cem anos O daikon e a mostarda estão em plena floração A lua brilha fracamente no ano dois mil Tendo me esforçado ao máximo neste mundo, inicio agora minha jornada para outro mundo Uma viagem passageira para sabe-se lá onde Masanobu Fukuoka Início da Primavera, 1986 [Tradução por Mirna Wabi-Sabi, Outono, 2026. Direitos Reservados — Plataforma9.] A Revolução de Uma Palha ganha primeira edição oficial no Brasil e chega com circuito entre Rio e São Paulo Clássico da Agricultura Natural, livro de Masanobu Fukuoka será lançado com eventos, oficinas e debates em maio e junho Após décadas circulando no Brasil em traduções informais, o clássico A Revolução de Uma Palha ganha sua primeira edição oficial brasileira no Outono de 2026. Referência mundial da Agricultura Natural, o livro de Masanobu Fukuoka chega acompanhado do Circuito da Agricultura Natural, série de cinco encontros entre Rio de Janeiro e São Paulo, entre maio e junho. Publicado originalmente nos anos 1970, o livro sintetiza a experiência radical de Fukuoka, que abandonou a carreira científica para desenvolver um método agrícola baseado no não-fazer e na não-intervenção: sem arar, sem adubos químicos, sem agrotóxicos, sem degradar a terra. Seus resultados, mais eficientes do que os da agricultura convencional, transformaram a obra em um marco global da agroecologia e da crítica ao modelo industrial de produção de alimentos. A edição brasileira foi produzida pela Plataforma9 e a Trovão Tropical, e traduzida por Mirna Wabi-Sabi a partir da versão em inglês de Larry Korn, discípulo de Fukuoka. Além dos lançamentos e rodas de conversa, o circuito contará com oficinas de bombas de sementes e trocas de sementes nativas, propondo a Agricultura Natural não apenas como teoria, mas como prática acessível em contextos urbanos e rurais. Programação Rio de Janeiro 22/05 — Janela Livraria (Jardim Botânico), 19h Mesa de conversa com Matheus Pockstaller (Trovão Tropical) e Mirna Wabi-Sabi. 28/05 — Travessa Icaraí (Niterói), 18h30 Apresentação e bate-papo com Mirna Wabi-Sabi, Matheus Pockstaller e convidado. São Paulo 06 e 07/06 — Japan House (Av. Paulista), 11h e 15h Oficina de Bomba de Sementes. 11/06 — Bibla Livraria (Vila Madalena), 19h Lançamento com mesa — Claudia Visoni (Horta das Corujas), Matheus Pockstaller e Mirna Wabi-Sabi. 13/06 — Livradia Expressão Popular/Armazém do Campo (Campos Elíseos), 15h Mesa de Debate com Thiago Luiz (Guardião de Sementes), Mirna Wabi-Sabi e Matheus Pockstaller. Masanobu Fukuoka (1913–2008) Agricultor, microbiologista e filósofo japonês, mundialmente reconhecido como precursor da Agricultura Natural e autor da obra seminal A Revolução de Uma Palha. Rejeitando os métodos agrícolas modernos dependentes de produtos químicos e maquinário pesado, ele desenvolveu o método “do-nothing” (não-fazer), baseado na intervenção humana mínima e na observação profunda dos ecossistemas. Sua filosofia, que integra práticas agrícolas a princípios espirituais e ecológicos, inspirou gerações no movimento da permacultura e continua sendo um pilar fundamental para a agricultura sustentável e a regeneração da terra em todo o mundo. Mirna Wabi-Sabi Editora, pesquisadora e anarco-transcriadora. Dirige a Plataforma9, editora independente focada em publicações que cruzam política, ecologia e linguagem. Assina a tradução de A Revolução de Uma Palha — a primeira edição oficial em português do Brasil. Voz editorial e política. Matheus Pockstaller Agricultor sintrópico, pesquisador e co-fundador da Trovão Tropical. Cresceu em São Conrado, às bordas da Floresta da Tijuca, e há oito anos desenvolve sistemas agroflorestais no Rio de Janeiro. Especialista em regeneração de solo, preservação de sementes crioulas e manejo de abelhas nativas. Voz técnica, filosófica e de campo. Sobre a Trovão Tropical Um laboratório agroecológico e estúdio criativo sediado no Rio de Janeiro, fundado por Carolina Latini e Matheus Pockstaller. Opera o Lote 18 — laboratório vivo de agrofloresta em São Conrado, no Maciço da Tijuca — e apoia o projeto Horta na Favela, na Rocinha. Articula ecologia, cultura e design como alternativa concreta ao Antropoceno. Entre seus projetos está o Seeds Collective, uma iniciativa de pesquisa e catalogação artística de sementes florestais e crioulas guardadas por gerações por pequenos produtores, povos indígenas e comunidades quilombolas em todo o Brasil. Instagram: @trovao_tropical | @seedsandtales_ contato@trovaotropical.com Sobre a Plataforma9 Uma iniciativa editorial que realiza publicações políticas multilíngues, dirigida pela escritora e anarco-transcriadora Mirna Wabi-Sabi. Dedicada à inovação em comunicação multilíngue impressa e digital, publica livros bilíngues, artigos de não ficção e análise política, séries fotojornalísticas e cursos de alfabetização midiática. A missão da Plataforma9 é utilizar a narrativa para desencadear mudanças construtivas na sociedade. Instagram: @plataforma9p9 | plataforma9p9@pm.me
- Por que o clássico 'A Revolução de uma Palha' do Fukuoka nunca foi publicado no Brasil? Até agora...
Durante décadas, A Revolução de uma Palha (1975), um livro do microbiologista e agricultor japonês Masanobu Fukuoka, circulou no Brasil de forma extraoficial. A edição de Portugal, de uma editora que não existe mais chamada Via Óptima, se tornou a principal referência entre agroecologistas, permacultores, agricultores familiares, estudantes e leitores interessados em ecologia. Porém, a agência literária que representa a família de Fukuoka não reconhece essa edição portuguesa como legítima ou oficial. Em 2026, isso finalmente muda. Estamos preparando a primeira edição brasileira do livro que volta às raízes filosóficas e ao sentido que Fukuoka deu à ideia de agricultura natural. Quando “Natural” Virou “Selvagem” A edição portuguesa, que circula no Brasil em PDF até hoje, foi traduzida da edição francesa dos anos 80, publicada por Guy Trédaniel. Essa versão traduziu 自然農法, termo criado por Fukuoka, como agriculture sauvage (agricultura selvagem). E a edição portuguesa seguiu essa escolha. Fukuoka talvez rejeitasse essa perspectiva, às vezes descrevendo seu método como ‘semi-selvagem,’ mas sempre afirmando que o processo depende do entendimento do que é a natureza sem domesticação, para podermos saber quais ações devem ou não ser tomadas. Ele aprendeu isso cedo, dizendo que: “O problema, veja bem, era que eu não estava praticando agricultura natural, mas sim o que se poderia chamar de agricultura preguiçosa! (...) Aquelas árvores jovens tinham sido domesticadas, plantadas, podadas e cuidadas por seres humanos. As árvores tinham sido escravizadas pelos humanos, então não conseguiram sobreviver quando o suporte artificial fornecido pelos agricultores foi repentinamente removido.” (A Revolução de uma Palha) “O verdadeiro caminho para a agricultura natural exige que a pessoa saiba o que é a natureza inalterada, para que ela possa entender instintivamente o que precisa ser feito — e o que não deve ser feito — para trabalhar em harmonia com seus processos.” (Entrevista com o menino do arado: Masanobu Fukuoka) Ou seja, para Fukuoka, ‘natural’ era diferente de ‘sem cuidados.’ A harmonia não é alcançada com negligência. Qual é o problema com “Selvagem”? A palavra 自然 (shizen) em japonês traz um sentido filosófico ligado ao zen e ao taoismo. O fluxo autêntico da vida em equilíbrio decorre de enxergar a negociação entre Natureza e Sociedade não como um paradoxo ou contradição, mas como “um estado de espírito mais elevado. (…) As duas categorias são definidas como opostas, mas são necessárias uma à outra.” Já sauvage/selvagem carrega um legado colonial baseado na oposição entre civilizado e primitivo — um imaginário historicamente usado para julgar povos e culturas fora da Europa. Embora selvagem e primitivo possam ser ressignificados, a filosofia de Fukuoka não propõe uma agricultura que simplesmente nasce, cresce e vive sem cuidados especiais, nem rejeita os aprendizados da ciência moderna. Assim, traduzir shizen como “selvagem” revela a perspectiva cultural e epistemológica de seus tradutores, uma visão de mundo europeia que tem dificuldade em perceber os processos Naturais atravessando e integrando o processo Humano. Essa Nova Edição Nossa edição brasileira tem alguns compromissos fundamentais: Português brasileiro. Tradução baseada no inglês de Larry Korn, discípulo e tradutor oficial de Fukuoka. Reconhecimento da agência japonesa que representa a família do autor. Essa nova edição é uma responsabilidade ética com a obra de um dos pensadores ecológicos mais importantes do século XX. Por que Publicar Isso Agora? Porque Fukuoka é urgente. Enquanto o mundo discute transição ecológica, soberania alimentar, colapso climático e tecnologias rurais dependentes de petróleo, Fukuoka permanece um farol que nos lembra: Não existe agricultura saudável sem humildade diante da natureza. Não existe regeneração sem simplicidade. Não existe futuro sem solo vivo. 💡 Nos próximos meses, vamos compartilhar: Trechos inéditos da nova tradução. Traduções de entrevistas com Fukuoka. Novidades sobre a publicação e seu lançamento. Se você quer acompanhar esse processo e apoiar o projeto: inscreva-se no boletim e compartilhe. Vamos devolver Fukuoka ao Brasil com o respeito que ele merece. ________________ Mirna Wabi-Sabi, Diretora da Plataforma9.
- As bandeiras estrangeiras em Copacabana
Manifestação no Rio revela não apenas alinhamentos ideológicos, mas a atuação de um ecossistema que conecta finanças globais, produção intelectual e mobilização política. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. No dia seguinte ao assassinato do Aiatolá do Irã, a manifestação “Acorda, Brasil” com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, espalhou-se por Copacabana e outras vias pelo Brasil. No domingo, 1º de março de 2026, o grupo de manifestantes se reuniu na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Bolivar para protestar contra o governo federal e certos ministros. Enquanto as bandeiras estrangeiras não têm relação direta com a pauta do protesto, elas são usadas como símbolos ideológicos de alinhamento internacional, e esse alinhamento ocorre também no nível financeiro. Convocada por lideranças da direita e divulgada intensamente nas redes sociais, a manifestação reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e teve como pauta central críticas ao governo de Lula e pedidos de anistia para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. O público no Rio foi relativamente pequeno, especialmente quando comparado com o pedido de autorização de interdição ao trânsito feito pela organização para a prefeitura municipal. O Diário Oficial do Rio relata o fechamento da praia inteira, para a concentração de por volta de 4,7 mil pessoas entre a Rua Bolívar e Barão de Ipanema. O vereador Rafael Satiê formalizou o pedido de fechamento de ruas para viabilizar a manifestação em Copacabana em uma escala que indica expectativa de público elevado, com interdições amplas e por um período prolongado. Sua atuação política dialoga com o campo evangélico, pois ele se apresenta como pastor apesar de não divulgar de qual igreja. Porém, ele já demonstrou proximidade pública com a Igreja Universal do Reino de Deus, defendendo seus eventos e posicionando-se contra críticas à instituição . A Universal, por sua vez, acumula um histórico de denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas investigadas por autoridades no Brasil e no exterior, com acusações de uso de doações de fiéis multibilionárias em esquemas financeiros complexos. Esse enquadramento ganha um contorno político mais explícito quando se observa que, na véspera do ato, ele publicou nas redes sociais que o aiatolá havia sido “ abatido ,” termo carregado de desumanização. Ao mesmo tempo, ele celebrava a ação dos Estados Unidos e de Israel, conectando sua atuação institucional na organização do espaço público a um posicionamento político-ideológico claro no debate internacional. Ou seja, essas bandeiras internacionais revelam a presença de redes transnacionais de ideias e financiamento que há décadas atravessam a política brasileira. Think tanks e máquina global de influência Os Estados Unidos possuem a maior estrutura de inteligência do mundo. Ela reúne quase dezenas de agências diferentes, incluindo a CIA, e opera com um orçamento anual superior a US$ 70 bilhões anuais . Desde a Guerra Fria, documentos desclassificados mostram que essas estruturas foram usadas não apenas para espionagem tradicional, mas também para operações de influência política em países considerados estratégicos. A América Latina ocupa um lugar importante nesse histórico. Intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos em países como Chile, Guatemala, Nicarágua e Brasil, especialmente durante o século XX, já foram amplamente documentadas. O caso do golpe brasileiro é visto hoje como escancarado, mas até ele só foi confirmado por documentos liberados décadas depois. No século XXI, os métodos se modernizaram. Influência política internacional nem sempre aparece na forma de golpes ou operações clandestinas. Ela costuma operar através de redes de instituições, fundações, think tanks e organizações civis. Uma das principais redes internacionais desse tipo é a Atlas Network, organização sediada em Washington que conecta mais de 500 think tanks em cerca de 100 países . Fundada em 1981 pelo empresário britânico Antony Fisher, ela tem como objetivo promover políticas públicas ligadas a economia de mercado, redução do Estado e liberalização econômica. A organização oferece financiamento, treinamento, bolsas e programas educacionais para institutos parceiros ao redor do mundo. No Brasil, uma das organizações associadas a essa rede é o Instituto Millenium, criado em 2005 pelo Paulo Guedes, et. al. O instituto se apresenta como um centro de estudos voltado à promoção de liberdade econômica, responsabilidade fiscal e democracia liberal. Suas atividades incluem publicação de artigos e análises, organização de eventos e debates, produção de vídeos institucionais, e programas de formação política para jovens lideranças. Think tanks raramente sobrevivem apenas de doações individuais. Eles dependem de financiamento institucional, frequentemente vindo de empresas, fundações ou organizações internacionais. Como outros think tanks , o Instituto Millenium não fornece retorno financeiro a quem investe nele, pelo menos não diretamente. Seu objetivo é influenciar políticas públicas no Brasil, e a implementação dessas políticas pode ser lucrativa a longo prazo, oferecendo um bom retorno no investimento de uma entidade estrangeira como o governo dos Estados Unidos. Arquivos do Instituto Millenium indicam apoio financeiro do braço de gestão financeira do Bank of America . (Algumas dessas páginas foram posteriormente removidas.) O Bank of America , por sua vez, mantem uma parceria de longa data com a BlackRock , hoje considerada a maior administradora de ativos do planeta, com trilhões de dólares sob gestão. Tom Montag, ex-presidente do Bank of America , atuou no conselho de administração da BlackRock enquanto trabalhava no BofA . Além disso, por volta de 2 anos depois que Merrill Lynch “ uniu forças ” com a BlackRock , ela foi comprada pelo BofA. A BlackRock também mantém relações próximas com o governo dos Estados Unidos e com a CIA. Durante a crise financeira de 2008 e a da pandemia em 2020, a empresa foi contratada pelo Federal Reserve para administrar programas de compra de ativos destinados a estabilizar os mercados. E diversos executivos da empresa circularam entre cargos no setor privado e posições no governo estadunidense, um fenômeno conhecido em Washington como “ revolving door ,” ou porta giratória. Thomas E. Donilon é um destes executivos. Como vice-presidente da BlackRock , ele foi membro do conselho administrativo da CIA por quase uma década, e é também membro do conselho de uma think thank chamada Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Internacionais). Há um argumento a ser feito de que isso não significa que exista coordenação alguma entre empresas, think tanks e agências de inteligência. Mas um rastro indica que as redes institucionais que conectam finanças globais, política pública e produção intelectual são densas e interligadas. Não é de se surpreender que esse fenômeno de porta giratória gera preocupação, pois mostram que esses incentivos de carreira entre o setor público e privado podem moldar as escolhas políticas mesmo sem corrupção explícita. Favores para futuros empregadores e influência legislativa através de antigos colegas é um ambiente propício a conflitos de interesse. Aí se encontra o cerne da Teoria Econômica da Regulação : Através dessa porta giratória, as agências reguladoras começam a servir aos interesses das indústrias que devem ser regulamentadas, em vez dos interesses do público. O Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, é um exemplo perfeito disso, tendo servido cargo publico como ministro, criado bancos e gestoras de investimento, assim como uma das principais think tanks liberais do Brasil. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. O ecossistema da mobilização Enquanto think tanks produzem ideias e formam quadros políticos, outro tipo de organização atua na mobilização de rua. No Brasil, o movimento NasRuas é um desses grupos. Criado durante as mobilizações políticas da década passada, o movimento ganhou notoriedade organizando protestos contra o governo Dilma Rousseff e posteriormente participando de campanhas pró-impeachment. Grupos como este aplicaram estratégias inspiradas em campanhas políticas estadunidenses , incluindo o uso intensivo de redes sociais, publicidade digital segmentada, produção de conteúdo político viral, e articulação com influenciadores e páginas ideológicas. Uma característica recorrente desses movimentos é o financiamento difuso. A associação Brasil NasRuas, por exemplo, não divulga de forma detalhada a origem de todos os seus doadores ou os valores arrecadados para campanhas específicas. Essa falta de transparência levou o movimento a aparecer em investigações judiciais como o Inquérito 4828 do STF, onde o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma série de diligências para investigar a organização e o financiamento de manifestações consideradas antidemocráticas. O resultado revelou o potencial da “existência de uma rede integralmente estruturada de comunicação virtual voltada tanto à sectarização da política quanto à desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos.” Carla Zambelli, fundadora da Associação Brasil NasRuas, e Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, estiveram ligados principalmente porque faziam parte do mesmo projeto político durante o governo Bolsonaro, no qual Guedes era o responsável pela política econômica e Zambelli atuava como aliada no Congresso apoiando essa agenda. Ela foi investigada por diversos crimes, incluindo lavagem de dinheiro através da Associação que ela criou, o NasRuas, e hoje está presa. Esse ecossistema costuma operar em três níveis. No topo estão instituições financeiras, fundações e redes internacionais que apoiam projetos intelectuais e educacionais. No meio estão think tanks , responsáveis por produzir conteúdo, pesquisas e programas de formação política. Na base aparecem movimentos de mobilização digital e organizações de rua, que transformam essas ideias em campanhas públicas, protestos e pressão política. Nem sempre existe coordenação explícita entre essas camadas. Mas frequentemente elas compartilham redes de financiamento, formação e circulação de ideias. Diante desse cenário, a presença de bandeiras estrangeiras em manifestações políticas brasileiras ganha outro significado. Ela representa admiração cultural, alinhamento ideológico ou identificação geopolítica. Mas também pode indicar a existência de uma rede internacional de narrativas e verbas políticas. No protesto de 1º de março em Copacabana, esse símbolo apareceu de forma literal. Talvez fosse apenas um gesto espontâneo. Talvez fosse um sinal de algo maior. Vivemos à mercê da mais ampla, influente, tecnológica e bem financiada infraestrutura de inteligência e de operações secretas da história do mundo. Neste contexto em que ideias e dinheiro circulam globalmente com a mesma velocidade que memes nas redes sociais, acreditar que a política brasileira existe isolada dessas redes pode ser, no mínimo, um pouco ingênuo. De qualquer forma, é curioso que uma mobilização cercada de bandeiras internacionais e discursos neoliberais termine deixando como rastro online sua vaquinha “oficial,” criada quase 6 meses antes do evento, cujo endereço ainda anuncia que “o cachorro Bob precisa de cirurgia” porque “foi atropelado.” _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9. _____ Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique .
- Operações secretas, consentimento fabricado e a glória do Irã
Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos operou não apenas por meio da diplomacia e da guerra declarada, mas também por meio de uma vasta arquitetura de operações secretas. Da América Latina à África e ao Oriente Médio, a atividade de inteligência frequentemente precedeu e preparou a justificativa pública para ações militares ostensivas. Compreender os eventos contemporâneos em torno do Irã exige situá-los dentro de um padrão histórico mais amplo de desestabilização secreta, manipulação narrativa e guerra ideológica funcionando em conjunto. Operações secretas como ferramenta de longa data da política externa dos EUA A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA. Por exemplo, o Projeto FUBELT envolveu esforços secretos da CIA para impedir que o presidente chileno Salvador Allende governasse e para promover o golpe militar que acabou instalando Augusto Pinochet. Os programas secretos dos EUA no Congo buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos. As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a Operação CHAOS monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico. Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável. Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio a assassinatos cometidos pelo ICE , a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência. O Irã e o papel das operações de inteligência O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o contrabando de drones e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar. Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam surtos internos . Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição. Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência. Ação secreta como relações públicas para a guerra A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável. A Operação Mongoose da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção. Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que se levante contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação. Interesses estratégicos por trás da desestabilização do Irã Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã. O Irã ocupa uma posição estratégica singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos. As sanções dos EUA contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção. Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia. A propaganda como arma de guerra A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em Manufacturing Consent (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites. Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas. Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita. Islamofobia e a fabricação da desumanização O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise baseada em corpus de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos. Estudos sobre mídias sociais após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais. A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva. Diáspora e reações conflitantes Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo. As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas. Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica. A compreensão limitada do ocidente sobre o mundo muçulmano Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível. Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários. Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional. Uma Ode ao Irã Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja literatura é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica. O Irã também possui uma longa e complexa história de movimentos políticos feministas . Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico. Erradicando a supremacia A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados. Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações. O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda. Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique . Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.
- Por que o ICE deve ser compreendido como terrorista?
Leia em Português na Le Monde Diplomatique. On January 7, 2026, Renee Nicole Good — a 37-year-old mother, poet, and Minnesota resident — was fatally shot by an ICE agent in Minneapolis. Good was not a violent criminal; according to multiple eyewitness accounts and videos, she was unarmed in her vehicle during a large federal immigration enforcement operation when an agent fired multiple times, killing her. People denouncing and defending this murder invoke "domestic terrorism" as the explanation for this horrific situation. Domestic terrorism consists of violent, criminal acts committed by individuals or groups to further ideological goals; it's preposterous to have a debate about who in this scenario is the real terrorist. Good was peacefully resisting the actions of agents of an ideological institution that commits violent crimes to in still fear in marginalized contingents of American society, and faced their deadly ire. Good’s death is an extreme example of how federal agencies with broad, vaguely constrained powers can enact lethal force on civilian populations without transparent accountability — and why any sensible citizen argues these agencies operate in ways that terrorize communities. Justifiably, her death has led to widespread protests. The role of ICE in contemporary U.S. society is comparable to various forms of state policing whose violence is structurally tolerated and normalized, such as Brazil’s Military Police in favelas and the IDF in Palestine. These institutions operate with expansive authority, little civilian oversight, and use lethal force disproportionately against marginalized communities, contributing to patterns of fear and repression rather than safety. In Rio de Janeiro, Military Police operations in favelas have resulted in repeated massacres, with indiscriminate shootings and high civilian casualties. These operations often amount to collective punishment that terrorizes residents, and disproportionately affects Black and poor populations. In Palestine, the IDF’s occupation, settler protection, and blockade policies has produced widespread civilian casualties and destruction, often without transparent accountability mechanisms, reinforcing structural power imbalances and terrorizing communities. This pattern indicates not just isolated events, but systemic violence inherent in policing structures. ICE, a federal agency responsible for immigration control, carries out operations well beyond the U.S. border and employs aggressive tactics that instill fear, cause injury, and result in death within immigrant communities and, as is evident, far beyond. Photos of the rally and march "Ice/Border Patrol Out of NOLA!" in New Orleans, January 10th, 2026. By Mirna Wabi-Sabi. State Violence is Terror Defenders of ICE emphasize its legal mandate to enforce immigration laws. Opponents argue that when enforcement agencies use overwhelming force without accountability, the effect is state terrorism — that is, the systematic use of violence by governmental agents to control, intimidate, or repress civilian populations. This understanding calls attention to the terrorizing impact on communities who live under the constant threat of unaccountable force. Renee Good’s killing became a flashpoint because it occurred during an operation that had been terrorizing residents of Minneapolis for weeks. Just as police militarization in Brazil’s favelas is criticized for fostering a climate of fear and extrajudicial violence, the IDF's operations result in civilian deaths that traumatize Palestinian. Meanwhile, ICE’s domestic operations, conducted with limited local oversight, produce fear and trauma among immigrants and the broader public. Community Control as an Antidote The National Alliance Against Racist and Political Repression (NAARPR) advocates for structures that directly address this terror threat by placing civilian oversight and accountability at the center of policing and enforcement. True oversight requires community participation, transparency, and power to shape law enforcement policy and discipline. NAARPR’s Campaign for Community Control of Police exemplifies this approach by demanding that communities, not just internal departmental review boards, have the authority to oversee police operations, budgets, and disciplinary proceedings. By democratizing control over public security, these movements aim to reduce violence and increase accountability, ensuring that agencies cannot operate as unregulated forces of coercion. Groups like Eye on Surveillance are part of the civil society infrastructure that pushes for such oversight to exist, by demanding transparency from police and surveillance operators, and connecting communities to their rights and to policy efforts that can lead to formal structures of accountability. This network researches how surveillance systems, from facial recognition to predictive policing, are deployed without public consent and without adequate transparency, often targeting the vulnerable to enforcement violence. Whether it is ICE’s domestic raids, militarized police operations in Brazil, or surveillance technologies deployed by the IDF and globally, the underlying dynamics are: agencies equipped with state power and technological capacity act without community consent, producing terror . Civilian oversight and transparency mechanisms challenge this by bringing policing and surveillance under public control rather than leaving them in the hands of insulated enforcement bureaucracies. From Minneapolis to Rio de Janeiro, to Gaza and conflict zones around the globe, state violence under the guise of security creates environments where civilians are terrorized by the very forces meant to protect them. Recognizing that agencies like ICE and militarized police forces can act in ways that terrorize communities is not merely rhetorical; it is a call for structural transformation. Advocates for community control of police and civilian oversight offer concrete alternatives to unchecked state power, demanding transparency, accountability, and democratic governance of policing. If we are to live without fear of arbitrary or lethal state force, oversight structures must be rooted in communities themselves, empowered to shape policy, enforce discipline, and ensure that enforcement serves public safety rather than repression and terror. ________ by Mirna Wabi-Sabi
- Liberty-washing da Venezuela: Como Trump transforma crises em uma narrativa de controle
Liberty-washing: a prática de invocar seletivamente a linguagem da liberdade, da restauração democrática ou do Estado de direito para legitimar ações coercitivas no exterior, desconsiderando a soberania, as restrições do direito internacional ou liberdades comparáveis no próprio país. Imagens de Fabio Teixeira que retratam um protesto dia 5 de janeiro, da Cinelândia até o Consulado dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro – Brasil. A operação americana que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi apresentada por Donald Trump como um ato decisivo em defesa da liberdade, da democracia e do Estado de direito. De acordo com declarações oficiais, a ação foi enquadrada como uma medida de aplicação da lei, baseada em acusações de longa data contra Maduro por tráfico de drogas e conspiração criminosa, combinadas com a alegação de que o sistema eleitoral venezuelano carecia de legitimidade. No entanto, a escala e a natureza da operação — envolvendo o uso de força militar contra um chefe de Estado em exercício — imediatamente levantaram questionamentos sobre o direito internacional, a soberania e as reais motivações. Compreender esse episódio exige separar três elementos distintos que frequentemente são condensados em uma única narrativa: as reais dificuldades enfrentadas pelos venezuelanos, as justificativas apresentadas pelo governo Trump e o uso político dessas justificativas para exercer poder além das fronteiras dos Estados Unidos. A Venezuela não é uma exceção — a crise é uma condição global A Venezuela, assim como outros países, tem vivenciado polarização política, volatilidade econômica, eleições contestadas e migração em massa. Nenhum desses fenômenos é único, nem justifica, por si só, a intervenção estrangeira. Eleições contestadas, ciclos inflacionários, violações dos direitos humanos e fluxos migratórios são características da política global contemporânea, inclusive em países que se posicionam regularmente como árbitros da democracia. Organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas , a Human Rights Watch e a Anistia Internacional , documentaram preocupações na Venezuela relacionadas ao devido processo legal, ao tratamento de oponentes políticos e à independência institucional. Relatórios semelhantes existem para aliados dos EUA — e para os próprios Estados Unidos — onde o encarceramento em massa, a violência policial, a supressão do voto e os poderes de emergência também têm sido alvo de críticas constantes. A existência de falhas na governança não cria uma hierarquia de nações, em que algumas têm direito à soberania e outras são consideradas passíveis de perdê-la. A crise migratória da Venezuela deve ser compreendida nesse mesmo contexto global. Milhões de venezuelanos deixaram o país na última década, se estabelecendo principalmente em países vizinhos da América Latina, como o Brasil . Seu deslocamento reflete uma convergência de contração econômica, sanções, desigualdade regional e impasse político. Os refugiados não são prova da falha moral de um Estado; são pessoas que enfrentam escolhas limitadas sob pressão estrutural. Merecem proteção, dignidade e respostas políticas sérias, e não serem usados retoricamente como símbolos de desordem. Apesar das frequentes referências de comentaristas à migração , os refugiados não foram a principal justificativa legal ou operacional oferecida pelo governo Trump para a prisão de Maduro. As declarações oficiais enfatizaram duas alegações acima de todas as outras: tráfico de drogas e conspiração criminosa, com base em acusações dos EUA que alegavam que agentes do Estado venezuelano facilitavam o fluxo de narcóticos; e ilegitimidade eleitoral, com os EUA se recusando a reconhecer as recentes eleições venezuelanas como estando em conformidade com os padrões internacionais. Essas alegações foram apresentadas como ameaças à segurança nacional dos EUA e à estabilidade regional. Se as evidências sustentam tal ação extraordinária, isso permanece em debate. Avaliações de inteligência pública não demonstraram conclusivamente que a Venezuela desempenha um papel central único no tráfico transnacional de drogas em comparação com outros países da região. Tampouco a existência de eleições contestadas — um fenômeno global — constitui base legal para intervenção militar unilateral. O que importa, do ponto de vista analítico, não é se essas preocupações são totalmente fabricadas, mas como são elevadas, isoladas e instrumentalizadas. Liberty-washing como Técnica Política Essa estratégia pode ser melhor descrita como liberty-washing. Ela se refere à invocação seletiva da linguagem da liberdade, da democracia e do Estado de Direito para legitimar ações coercitivas no exterior, ignorando a soberania, as restrições do direito internacional e as liberdades comparáveis no próprio país. Assim como o pinkwashing ou o greenwashing , não se baseia em falsidades absolutas, mas em uma seleção de verdades utilizadas para uma agenda política hegemônica. Nesse caso, as alegações de tráfico de drogas e irregularidades eleitorais são transformadas de desafios políticos em autorização moral. A linguagem da “libertação” substitui a diplomacia; a acusação criminal substitui o processo multilateral. A liberdade torna-se algo que os Estados Unidos reivindicam o direito de administrar, em vez de uma condição exercida pelos próprios povos. Essa lógica explica uma contradição central: Trump se apresenta como um defensor global da liberdade no exterior, enquanto contesta abertamente a legitimidade eleitoral, a independência judicial e a liberdade de imprensa internamente. Liberty-washing resolve essa contradição transformando a liberdade em uma posse do poder, e não em um princípio universal. O Prêmio Nobel da Paz e a Personalização da Política Externa A fixação de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz ilustra ainda mais como a instrumentalização da liberdade opera no nível da ambição pessoal. Relatos indicam que Trump via o prêmio como uma validação de sua estatura global, e que tensões surgiram quando a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, recebeu o prêmio em seu lugar. O reconhecimento de Machado, enraizado na luta política não violenta, não se traduziu em apoio total dos EUA, supostamente porque isso prejudicava a própria pretensão de Trump de ser uma autoridade na promoção da paz. Essa personalização é importante. Quando a política externa se torna um palco para a competição simbólica, os atores democráticos que não se alinham com esse simbolismo são marginalizados. A instrumentalização da liberdade, portanto, não fortalece a sociedade civil venezuelana; ela centraliza a legitimidade em Washington. A retórica de Trump após a operação sugere mais do que apenas a instauração de um processo judicial. Declarações sobre supervisionar a "transição" da Venezuela ou determinar resultados políticos aceitáveis ecoavam uma postura mais ampla, evidente em outros contextos — incluindo em Gaza — onde a soberania é tratada como provisória, revogável por uma força superior. Em ambos os casos, o território é discutido menos como o espaço político de um povo e mais como um problema de segurança a ser administrado. Lei, liberdade e ordem são invocadas não para restringir o poder, mas para racionalizar sua expansão. Isso não é uma anomalia; é uma lógica familiar de intervenção reformulada em linguagem contemporânea. Refugiados merecem proteção, e não serem usados como instrumento narrativo É crucial que os refugiados venezuelanos não sejam incluídos nessa lógica. Seu deslocamento não justifica o uso da força; é uma denúncia do fracasso global — incluindo regimes de sanções, desigualdade regional e apoio internacional inadequado. Respeitar os refugiados significa resistir à sua instrumentalização como moeda de troca moral em disputas geopolíticas. A retórica da liberdade transforma os refugiados em símbolos. Como prova do fracasso estatal, justificativa para intervenção ou pano de fundo para ganhos estratégicos. Uma abordagem séria, em vez disso, priorizaria os direitos de asilo, a cooperação regional e o apoio de longo prazo, sem militarização. A prisão de Nicolás Maduro não revela muito sobre a suposta disfunção excepcional da Venezuela, mas revela muito sobre como o poder opera quando envolto na linguagem da liberdade. As justificativas de Trump baseiam-se em preocupações seletivamente amplificadas sobre drogas, eleições e governança, transformadas em autoridade moral para ações unilaterais. Liberty-washing instrumentaliza o sofrimento. E, ao fazê-lo, arrisca transformar crises em precedentes para um mundo em que a soberania é condicional, a lei é opcional e a liberdade é algo imposto, e não vivido. Os venezuelanos — incluindo aqueles que fugiram — merecem melhor do que isso. _____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi e fotografado por Fabio Teixeira Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique
- O que significa Justiça no caso do linchamento de Moïse Kabagambe
Artigo publicado na Le Monde Diplomatique Brasil . FOTOS: Manifestação por Justiça no caso Moïse Kabagambe na Barra, Rio de Janeiro (Crédito Fabio Teixeira) Sábado, 5 de fevereiro, manifestantes foram às ruas de grandes cidades brasileiras pedindo Justiça. Um jovem africano foi linchado – torturado até a morte – em uma praia no Rio de Janeiro. Os perpetradores , também pessoas trabalhadoras, estão sob custódia e alegam que não houve intenção de matar; que eles estavam reagindo ao comportamento errático e irresponsável do imigrante. A família da vítima, por outro lado, alega que ele só estava pedindo para ser remunerado por dois dias de trabalho. Nenhuma narrativa, no entanto, justifica o que aconteceu, uma barbárie que foi filmada em vídeo. A prisão dos homens que amarraram outro homem e o espancaram é o que consideramos Justiça? Moïse Kabagambe foi um refugiado congolês que morou no Brasil uma década. Na praia onde foi brutalmente assassinado, era conhecido como “ angolano ”. Isso é como apelidar um estadunidense de “mexicano” ou um brasileiro de “venezuelano”, porque são países vizinhos no mesmo continente. A falta de entendimento de sua comunidade sobre as circunstâncias que o trouxeram ao Brasil em primeiro lugar já é uma injustiça – que não será revertida com a prisão de ninguém. Em 2008, a Segunda Guerra do Congo, que começou em 1998, matou mais de 5 milhões de pessoas e é considerada a mais mortal desde a Segunda Guerra Mundial . A primeira aconteceu logo antes, também na década de 1990, e foi resultado direto de forças coloniais e imperialistas se intrometendo com líderes africanos e explorando as diferenças étnicas na região. O Zaire, que hoje é conhecido como República Democrática do Congo, foi feito de corda em cabo de guerra entre forças comunistas e anticomunistas, até a dissolução da URSS e do interesse dos EUA em endossar seu líder. Moïse nasceu no ano em que uma guerra terminou e outra começou, um período em que mais de 5 milhões de crianças não receberam educação devido à turbulência política – os níveis de alfabetização estavam em seu nível mais baixo e o trabalho infantil e a exploração em seus níveis mais altos. Ao longo de sua juventude, seu país esteve sob uma operação das Nações Unidas de “manutenção da paz” ( Monusco ), que fez mais para criar uma indústria clandestina de armas do que evitar conflitos. Entre os países envolvidos nessa operação estava o Brasil, com seus militares e policiais. Hoje, um general brasileiro é Comandante da Força da Monusco, e é o quarto comandante do Brasil a ocupar o cargo, tornando-o o país mais representado no projeto em termos de liderança. Muito antes de tudo isso, a região do Congo já havia passado por atrocidades sob o regime belga e sua indústria da borracha. Na virada do século passado, entre a última década de 1800 e a primeira de 1900, africanos sob o regime colonial do rei belga foram escravizados, mutilados e mortos a taxas bárbaras. Fome, doenças e exploração perpetuada pelo colonialismo e suas indústrias com fins lucrativos foram responsáveis pela morte de mais da metade da população local; incontáveis vidas . Mas a intromissão estrangeira não é tudo o que há a se dizer sobre este país da África Central. (Crédito Fabio Teixeira) Cultura e resistência Apesar do incessante oportunismo geopolítico, o Congo sobreviveu geograficamente e prosperou culturalmente. De acordo com o WWF , “a Bacia do Congo é habitada por humanos há mais de 50.000 anos e fornece comida, água fresca e abrigo para mais de 75 milhões de pessoas”. O rio Congo é o maior em volume depois do rio Amazonas. Sua floresta tropical também é a maior depois da Amazônia. Como pessoas brasileiras, nossa paixão pela preservação do nosso bem mais magnífico e precioso deve ser estendida ao nosso vizinho ecológico, já que, juntos, nossos países são os detentores das mais “importantes áreas selvagens que restam na Terra”. Música e literatura congolesa também encontram na expressão artística uma ferramenta de autoestima e poder. Kolinga , um grupo congolês, hoje faz hinos feministas decoloniais. No século passado, hits de soukous e rumba congolesa tornaram-se clássicos internacionais, bem representados na compilação Congo Revolution “ Revolutionary and Evolutionary Sounds From The Two Congos 1955-62 ”. A literatura, que merece tradução e distribuição ampla, é ainda mais comovente e representativa da maré artística da nação. O poema “Segunda Dimensão” do escritor congolês Rais Neza Boneza, em seu livro “Nômade, sons do exílio”, é particularmente perspicaz, talvez até especificamente para a situação de Moïse e sua comunidade imigrante no Brasil. Que ele fale por si: Perto de sua mesa está um copo de água; Pela janela ele olha para o transeunte: Ele observa e sempre espera, espera, espera. A amargura nutre seu ser; Sujeito a mal-entendidos E falsos ares de ‘gente’ Ele é um prisioneiro. Ele se senta, as mãos em volta do queixo Pensando solenemente Em seus sonhos, seus espíritos escapam O mundo das dificuldades E viajar nas extensões do Céu azul selvagem Ele se inclina sobre a mesa, meio preocupado, meio satisfeito. Neste lugar dele não há compaixão; O mal ronda sua presa; Rancor canta sua melodia da manhã, Um estranho à sua terra, Ele bebe melancolicamente de seu copo… Um gole de liberdade. Marginalizado e carente, Muito longe está soprando para ele o vento da liberdade Ele é um clandestino, sempre sem endereço, Não um nômade, mas um recluso no meio da humanidade. Em sua clausura de cristal imbatido* Ele segue os ecos de seus gritos silenciosos. Uma rocha de loucura, só a solidão lhe responde. Ele se assusta! Seu coração bate rápido! Ele se levanta da cama! Ah! É apenas um pesadelo! Este é um pesadelo do qual Moïse Kabagambe e sua família não vão acordar, nem a diáspora africana será protegida da desumanidade de tais atos. Mas podemos, como sociedade, começar a interpretar a Justiça como um conceito abrangente – não apenas como algo que o sistema judicial pode fornecer. Justiça significa ver, respeitar e apreciar o valor de acolher pessoas diferentes de nós em nossas comunidades. Justiça significa fazer o que pudermos para aprender, entender e lutar contra um paradigma geopolítico alimentado pelo abuso e pela exploração (por exemplo, exigindo reparações). Justiça significa pensar, perguntar e sentir a Humanidade em todos nós. Manifestação por Justiça no caso Moïse em São Paulo, MASP, 5 de fevereiro — Foto e vídeo, (Crédito Mirna Wabi-Sabi) _____ *Nota de tradução: ‘Imbatido’ como o particípio passado de ‘imbatível’, do original ‘unbroken’. _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação .
- Separar o lixo orgânico pode prevenir leptospirose e salvar vidas
Por Mirna Wabi-Sabi e fotos por Fabio Teixeira. Publicado na Le Monde Diplomatique Brasil . Pode-se dizer que produzir menos lixo ajuda a estender a vida humana no planeta, pois, entre outras coisas, preserva recursos naturais dos quais dependemos para sobreviver. O lixo orgânico, em particular, é responsável pela produção de metano, um dos mais importantes gases causadores do efeito estufa. Mas é possível que a separação do lixo orgânico possa salvar vidas de uma forma mais imediata: com a prevenção de casos de leptospirose . Está longe de ser novidade que resíduos de alimentos no lixo atraem animais como ratos, e que a urina desses animais pode causar leptospirose em humanos. De acordo com o fotojornalista Fabio Teixeira, autor da série fotográfica “Sobrevivendo Entre Sombra e Luz”, trabalhadores anônimos que atuam nos arredores das comunidades da cidade do Rio de Janeiro são vítimas de racismo, violência policial, e ainda sofrem com doenças causadas pelo lixo. “Essas pessoas desempregadas fazem a reciclagem do lixo para encontrar cobre, ferro, alumínio, e brinquedos para conserto e doação. Segundo informações dos recicladores, dois óbitos foram causados por contaminação com leptospirose, uma em novembro e outra em dezembro de 2022.” Fotos por Fabio Teixeira na Favela Manguinhos (04/03/2023) Essa observação de Teixeira é sustentada por pesquisas da área de saúde pública, apesar dos números provavelmente serem subnotificados . A comunidade de trabalhadores da indústria da reciclagem e coleta de lixo é descrita como em constante risco no artigo “ Percepção De Qualidade De Vida De Catadores De Materiais Recicláveis” , publicado em 2017, pela revista de enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco. As autoras explicam que por “exigir contato permanente com agentes nocivos à saúde, sendo uma das atividades profissionais mais arriscadas”, a “atividade que manipula lixo” é “insalubre em grau máximo”. Tais afirmações podem soar óbvias, mas a questão do lixo tem o potencial de afetar toda a população urbana, e não apenas profissionais que manejam resíduos. A Radioagência Nacional, divulgou um alerta em março deste ano sobre o aumento de “casos e de mortes” por leptospirose. Chuvas fortes e enchentes exacerbam o problema ao expor maior contingente da população, tendo como consequência 24 casos e 3 mortes registrados pela Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro nos primeiros dois meses de 2023. As propostas para mitigar esse perigo até agora têm sido evitar que crianças brinquem em lugares com água acumulada e tirar o lixo no máximo uma hora antes do caminhão passar . Mas essas soluções não protegem a população como um todo, pois o lixo ainda é levado para algum lugar onde pessoas transitam e se expõem aos riscos, e o potencial recorrente de enchentes em áreas urbanas impossibilita evitar água acumulada. Consumo e descarte consciente de resíduos é a ferramenta mais eficaz nas mãos de indivíduos, e requer uma reconfiguração simples da dinâmica do lar. Separar lixo orgânico: “Não jogue sua consciência no lixo” O consumo consciente começa na compra do produto. Melhor do que reciclar é produzir menos lixo. Para isso, basta dar preferência para produtos sem embalagem, como legumes e frutas de feira. Se houver embalagem, opte pela embalagem compostável, como papel, ou a embalagem reutilizável, como jarras de vidro. Ao descartar plástico, tetrapak e tecido, garanta que eles estejam limpos, sem sobras ou cheiros de comida. É importante que esse lixo esteja sem resíduos ou odores de matéria orgânica, pois eles servem como comida e atraem roedores. Separar todos os restos de comida do lixo previne a emissão de metano na atmosfera e evita que ratos sejam atraídos pelo lixo. A questão é o que fazer com essa comida. A compostagem é a melhor maneira de transformar resíduos orgânicos em terra adubada sem produzir metano ou atrair roedores. Mas nem todos têm como compostar em casa. Hortas comunitárias como o AMaravista na região oceânica de Niterói recebe e coleta matéria orgânica de moradores da vizinhança para usar na compostagem, e orienta como fazer a separação desses materiais – evitar colocar carne, por exemplo, e separar cascas de cítricos em seus próprios recipientes. A reconfiguração da cultura de consumo e descarte de resíduos do lar requer pouco tempo e espaço, mas requer interesse e consciência. Fotos por Fabio Teixeira na Favela Manguinhos (09/03/2023) Considerar que alguém manuseará o lixo e pensar no bem-estar dessas pessoas é de imensa importância, além de lembrar que o lixo existirá por décadas depois que nós o jogamos fora. É benéfico para todos que esse lixo possa ser separado, reusado ou reciclado de forma sustentável e saudável, sem poluir a terra ou os oceanos, e sem causar mortes. O trabalho de coleta e separação de lixo é imprescindível para a sustentabilidade de práticas de consumo, para a proteção ambiental e para a preservação de recursos naturais como águas despoluídas e terrenos férteis. Fotos por Fabio Teixeira no Rio de Janeiro (2022) Lidando com o fracasso de políticas públicas Quais ações e programas deveriam ser desenvolvidos pelo Estado para garantir o bem-estar da população? A leptospirose é uma doença causada por um fracasso de serviços de saneamento básico, pelo adensamento de municípios a favor do mercado imobiliário, e pelos níveis desumanos de desigualdade social. “A destinação inadequada dos resíduos sólidos está envolvida na determinação do aparecimento de doenças infecciosas” ( 2017 ), e a adequação significa não só um destino apropriado, mas também equipamentos adequados e condições dignas de vida para trabalhadores. Uma análise interseccional entre direitos trabalhistas, acesso à saúde e educação, saneamento básico, sustentabilidade e ambientalismo permite o desenvolvimento de uma solução holística para esse problema. De acordo com a pesquisa da Revista de enfermagem da UFPE, “a degradação do meio ambiente natural e a geração de resíduos causam comprometimentos da saúde física, transtornos psicológicos e psiquiátricos, e desintegração social.” O bem-estar da população depende de ações que consideram os âmbitos físico, psíquico e social. Portanto, as soluções como esperar para tirar o lixo ou evitar entrar em contato com água acumulada não abordam o problema de saúde pública da leptospirose em sua totalidade. Essa totalidade inclui o consumo familiar até seu método de descarte, diversos fracassos de políticas públicas, práticas comunitárias sustentáveis e uma perspectiva ambientalista. A história da leptospirose A leptospirose foi trazida para as américas com os roedores presentes em navios europeus durante a colonização, e é possível que tenha causado um massacre de populações indígenas. O Artigo “ Nova hipótese para a causa da epidemia entre os nativos americanos, Nova Inglaterra, 1616–1619 ” propõe que se deve considerar “costumes que podem ter sido fundamentais para a quase aniquilação dos nativos americanos, o que facilitou a colonização bem-sucedida” de certas áreas dos Estados Unidos. E que esses “costumes locais continuamente expuseram essa população à infecção hiperendêmica por leptospira”. Fontes dos gráficos 1 e 2: SINAN-03/03/2023 Um jornal acadêmico de Doenças Tropicais Negligenciadas ( PLOS Neglected Tropical Diseases ), dedicado a “doenças infecciosas que promovem a pobreza”, publicou um artigo sobre a “ Carga Global da Leptospirose ” em 2015. Nele, os pesquisadores estimam que a leptospirose é um problema sério para países tropicais com poucos recursos, incluindo países na África, “devido aos problemas de diagnóstico e falta de dados”. Dados da Tanzânia e da Amazônia revelam que febre é um sintoma comum e a malária é superdiagnosticada como causa. Isso leva a números substanciais de “ estimativa da carga de doença” da leptospirose sendo mal alocados para outras doenças infecciosas, como a malária. De acordo com dados publicados pela Sinan dia 3 de março de 2023 , houve um aumento de casos de leptospirose no país em 2022, ou uma subnotificação mais drástica do que o usual durante a pandemia de Covid-19 em 2020 e 2021. Poucos dias antes, dia primeiro de março, a Radioagência Nacional reportou 3 mortes em 2023 que não constam nos números da Sinan. É evidente que a magnitude do impacto da leptospirose no Brasil não está sendo precisamente quantificada. Fontes dos gráficos 3 e 4: SINAN-01/03/2023. Gráfico 5: SINAN- DOI Por conta do adensamento populacional nas regiões do Rio de Janeiro e de São Paulo, seus números se sobressaem, ao lado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Apesar do Rio apresentar uma “ taxa de prevalência inferior à taxa nacional ” a cada 100 mil habitantes, surtos de leptospirose na cidade coincidem com as tempestades de verão desde os anos 60, e “áreas com ocorrência de inundações apresentam mais casos”. Essas áreas tendem a ser, como esperado, de baixas condições sanitárias , com comunidades de baixa renda . Em 2020, Mário Martins e Mary Spink publicaram um artigo chamado “ A leptospirose humana como doença duplamente negligenciada no Brasil ”, onde a seguinte afirmação é feita: “Nossa análise mostra [a] arbitrariedade dos critérios de atribuição de prioridades de saúde e a invisibilidade do perfil populacional da leptospirose humana nos dados oficiais. […] Concluímos que [isso] é relacionado ao fato de que a leptospirose humana afeta uma população que o Estado não tem interesse em manter viva.” A leptospirose matou mais brasileiros do que a dengue todos os anos entre 2000 e 2016 – 3 vezes mais – mas recebeu nove vezes menos investimento médico. Há mais casos de dengue, portanto o questionamento está longe de significar uma crítica ao financiamento de tratamento e prevenção dela, mas acadêmicos estão há anos apontando a severa negligência com a qual a leptospirose é abordada institucionalmente, e o paralelo com a dengue destaca isso. “ Quantificar a magnitude da perda de saúde ” devido à leptospirose é difícil, mas não há dúvida que casos são subnotificados, mal diagnosticados, e recursos não são suficientemente alocados para pesquisa e prevenção. Desde a chegada da doença em “ navios negreiros ”, uma população racializada e empobrecida é forçada a viver em condições insalubres, sem recursos apropriados e acesso a políticas públicas decentes. Isso no mínimo deveria nos incentivar a tomar iniciativas em nossas casas e comunidades para ajudar a prevenir casos e mortes causadas pela doença. Seres humanos e o meio ambiente só tem a ganhar com a conscientização da população e de instituições públicas das causas e soluções do problema do lixo como risco à saúde humana. _____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi e fotos por Fabio Teixeira
- Os Desabrigados da Humanidade
Escrito por Mirna Wabi-Sabi Fotografado por Fabio Teixeira Série fotográfica: "Pessoas em situação de rua trabalham com o lixo reciclável e estão doentes", por Fabio Teixeira. 17 de maio, 2024. Zona Norte, Rio de Janeiro. Um filósofo escocês uma vez escreveu: “Uma corrente não é mais forte do que o seu elo mais fraco”. Antes disso, os bascos provavelmente já haviam cunhado o provérbio “geralmente o fio quebra onde é mais fino”. Esse sentimento continua bem vivo hoje e perdura durante séculos por uma razão simples: a humanidade tem fraquezas. Nesse alvorecer do terceiro milênio, após centenas de milhares de anos que seres humanos têm percorrido por esse belo planeta, é difícil olhar em volta e acreditar que temos utilizado as nossas habilidades para fortalecer os laços entre povos ou para engrossar o fio da nossa humanidade. Para percorrer as ruas do Rio de Janeiro, considerada por muitos uma das cidades mais bonitas do mundo, qualquer pessoa com um coração deve desviar muitas vezes o olhar de coisas que o encherão de desespero. Poucas coisas refletem mais o repetido fracasso da humanidade em evoluir do que a falta de moradia. Numa época em que a riqueza e a tecnologia disparam, nunca foi tão claro que a pobreza extrema não se deve à falta de recursos disponíveis. A população em situação de rua no Brasil tem crescido consistentemente nas últimas décadas, aproximando-se de 300 mil . No Rio, diz-se que há cerca de 8 mil pessoas vivendo nas ruas. Sempre aparecem manchetes com números impressionantes, “População em situação de rua cresce 211% na última década”, “Censo identifica 7.865 pessoas em situação de rua na cidade”, ‘ Novo programa do governo dá assistência para pessoas em situação de rua’. Mas pesquisar além das manchetes e envolver-se pessoalmente com os assuntos revela uma história diferente. Em primeiro lugar, nem metade dos municípios brasileiros contabiliza o número de pessoas que estão desabrigadas em suas comunidades. Isso significa que os números são alarmantemente imprecisos. Mesmo os órgãos dedicados a prestar serviços às populações desabrigadas do Rio de Janeiro, governamentais ou independentes, que estão localizados em áreas da cidade conhecidas por terem grandes concentrações delas trabalhando ou se estabelecendo, não têm ideia significativa dos números, localizações ou doenças de pessoas que eles se propuseram a servir. No entorno da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, é sabido que grupos de pessoas desabrigadas se reúnem, muitas vezes para separar resíduos domésticos e industriais. O fotojornalista Fabio Teixeira documentou alguns dos trabalhos que essas pessoas, que preferem permanecer anônimas, têm feito, bem como alguns dos não surpreendentes problemas de saúde que decorrem desse paradigma. Especificamente, observou-se que iniciativas informais de reciclagem, realizadas por pessoas sem acesso consistente à privacidade, água corrente e saneamento básico, geram a uma epidemia de infecções nos olhos. Ao perceberem que estão perdendo a visão, elas ajudam umas as outras com os recursos disponíveis. Os abrigos financiados pelo município não estão autorizados a falar diretamente com a imprensa. Toda comunicação deve passar pela assessoria de imprensa da prefeitura ou pela assessoria de imprensa do ministério da saúde. Esse escritório tem respostas prontas com números sobre o alcance do mais novo programa governamental voltado para a “ressocialização da população em situação de rua”. Esses programas envolvem o envio de profissionais de enfermagem, psicologia e assistência social para as “ruas”. Essa é a abordagem onde se acredita que, se a mente e o corpo dessas pessoas forem tratados, naturalmente, elas conseguirão se reinserir na sociedade, conseguindo emprego e moradia. A realidade, porém, mostrou que estar na rua é o que causa a grande maioria das doenças psicológicas e físicas na comunidade, e não o contrário. Portanto, a única forma de resolver com sucesso estes problemas de saúde é, em primeiro lugar, fornecer habitação. “As principais questões de saúde diagnosticadas pelas equipes de Consultório na Rua são as infecções sexualmente transmissíveis como sífilis, HIV, hepatites virais, questões relacionadas ao sofrimento em saúde mental e ao uso de drogas, hipertensão arterial, tuberculose, feridas crônicas, entre outras. E as principais situações que interferem diretamente nas condições de saúde dessas pessoas são a insegurança alimentar, dificuldade de acesso a água potável, privação do sono, exposição ao calor, ao frio ou a chuva.” (Ascom) Por “interferem diretamente” eles querem dizer “causam”. O fato de não ter casa é a principal causa desses problemas de saúde, no entanto, a solução permanece: tratar os sintomas à medida que eles são encontrados nas ruas. As iniciativas financiadas de forma independente, as ONGs, estão ainda menos equipadas para abordar a raiz do problema. Uma organização dedicada à “reinserção social de pessoas em situação de rua” no centro da cidade do Rio descreveu sua maior conquista como: existir há 8 anos e uma vez ter ganhado um prêmio. Dizem que o seu maior obstáculo é a “captação de recursos”, em vez do que eles precisam de dinheiro para alcançar. Esses desastres de comunicação podem ser indicativos de uma verdade horrível, não sobre as pessoas desabrigadas, mas sobre os abrigados. Nossas cidades têm seres humanos que estão desprotegidos pela humanidade. A Secretaria de Assistência Social do Rio de Janeiro precisa especificar que ela não está legalmente autorizada a se envolver na “remoção” de uma pessoa sem-teto, e isso diz muito sobre os tipos de solicitações que ela recebe do público em geral. Enquanto grande parte da população alojada aborde a falta de moradia como se fosse uma questão de gestão de lixo, aqueles que trabalham na área de serviço social demonstram uma compreensão superficial da realidade que tantos brasileiros em extrema pobreza enfrentam. Abordar o atendimento a pessoas desabrigadas como um projeto de “ressocialização” implica que o que elas precisam é aprender certos comportamentos para se reinserirem à sociedade. Na realidade, os desabrigados nunca se retiraram da sociedade, eles são o elo mais vulnerável dela. As populações desabrigadas e abrigadas não apenas compartilham espaços nas cidades, mas estão intrinsecamente ligadas através da forma como a nossa sociedade tem funcionado. A inacessibilidade da habitação está diretamente ligada ao setor imobiliário e a todos os que com ela se envolvem para se alojar. Quanto mais a nossa sociedade encarar lares como uma oportunidade de investimento financeiro, em oposição a uma necessidade humana básica nos dias de hoje, mais crescerá a população sem habitação. A única razão pela qual isso não é suficiente para provocar uma mudança nesse sistema é porque nós, a população abrigada, nos convencemos de que os desabrigados são um problema causado por eles mesmos e pelos seus comportamentos e escolhas de vida. Após uma autoinspeção mais aprofundada, grande parte da população alojada perceberia quantos momentos das nossas vidas são passados a trabalhar ou a pensar em trabalhar para manter um teto sobre as nossas cabeças, com exceção daqueles que nasceram numa riqueza notável. Embora nós como indivíduos possamos não ser capazes de resolver sozinhos a questão da habitação nas nossas comunidades, a nossa sociedade como um todo, os seus valores e os seus recursos, certamente é capaz de o fazer. Isso exigirá uma mudança de perspectiva de longo prazo e em grande escala. Entretanto, o mínimo que podemos fazer como indivíduos hoje é separar resíduos orgânicos para compostagem e lavar os nossos resíduos domésticos inorgânicos para prevenir infecções nas pessoas que nos prestam o serviço informal de reciclagem. Os elos mais fracos nessa cadeia de povos da humanidade são talvez os valores meritocráticos e individualistas das populações abrigadas no capitalismo tardio – um elo que lava as mãos de quaisquer laços humanos com a população desabrigada. Da próxima vez que nos perguntarmos, a população em situação de rua “ é responsabilidade de quem? ” A resposta é: de todo mundo. Só então o fio tênue da nossa humanidade se engrossará.
- Guerra no Rio: a desigualdade de visibilidade e proteção legal entre mortos de uma operação policial
"Segundo normas internacionais de direitos humanos, às quais o Brasil está juridicamente vinculado , toda morte ocorrida em operações de segurança deve ser registrada, investigada e acompanhada de identificação completa das vítimas." No dia 28 de outubro de 2025, mais de 119 pessoas foram mortas no Rio de Janeiro, na operação policial mais letal da história do Estado. A facção retaliou com drones, explosivos e barricadas. O número de mortos, o ambiente em favelas densamente povoadas, e o fato de muitos mortos ainda sem identificação completa geram questionamentos sobre como, quem, e em que circunstâncias morreram. Entes perdidos foram negados a presença de familiares e a perícia, amarrados com cordas náuticas e transportados em caminhonetes para o hospital Getúlio Vargas, e de lá, para o Instituto Médico Legal. O fato de apenas os policiais serem nomeados evidencia desigualdade de visibilidade e proteção legal entre mortos de uma operação, influencia a narrativa midiática e levanta questões sérias sobre direitos humanos, justiça e ética jornalística. Ao serem nomeados oficialmente, os policiais mortos são imediatamente reconhecidos como vítimas pelo Estado, o que garante às suas famílias acesso rápido a pensões, indenizações e assistência jurídica — benefícios que são negados às famílias dos mortos não identificados. Os problemas éticos, legais e políticos de chamar mortos anônimos de 'bandidos' A presunção de culpa sem julgamento Quando uma pessoa é chamada de bandido após uma operação, está se atribuindo culpa sem processo legal. Mas no Estado de Direito, ninguém deve ser considerado culpado até se provar o contrário. Em muitas dessas operações, as mortes ocorrem sem que haja prisão, investigação ou julgamento — logo, é impossível afirmar quem eram de fato os mortos. O apagamento da humanidade dos mortos Reduzir dezenas de pessoas a bandidos é uma forma de desumanização. Os mortos deixam de ser reconhecidos como cidadãos, pais, filhos, irmãos ou moradores de comunidades, e passam a ser uma categoria abstrata e descartável. Isso facilita a aceitação social da violência policial e o silêncio sobre execuções sumárias. O reforço de desigualdades sociais e raciais Na prática, o termo “bandido” costuma recair sobre corpos negros e pobres das periferias. Essa generalização legitima a morte seletiva de certos grupos sociais. Ou seja, a palavra não é neutra, ela faz parte de uma estrutura de poder que naturaliza a violência do Estado sobre determinados territórios. A transparência e a responsabilização prejudicada Enquanto as autoridades chamam os mortos de “criminosos,” raramente há investigação independente. Isso bloqueia a busca por responsabilidade policial, impede a identificação das vítimas e infringe leis internacionais de direitos humanos. A opinião pública moldada A linguagem molda a percepção social. Quando a imprensa ou o Estado usa “bandidos” para descrever apenas um lado dos agentes de violência urbana, o público tende a aceitar massacres como operações legítimas, mesmo sem provas ou contexto. Isso cria uma narrativa de guerra, em que certos cidadãos são tratados como inimigos do povo. Segundo normas internacionais de direitos humanos, às quais o Brasil está juridicamente vinculado , toda morte ocorrida em operações de segurança deve ser registrada, investigada e acompanhada de identificação completa das vítimas. Essa obrigação consta no Protocolo de Minnesota da ONU (2016) , nos Princípios Básicos da ONU sobre Uso da Força (1990) e na Convenção Americana de Direitos Humanos (OEA) . Esses documentos determinam que, em qualquer operação estatal, é ilegal classificar pessoas mortas como “não identificadas” sem investigação formal e sem notificação às famílias. Para o direito internacional, cabe ao Estado garantir transparência. Até o fechamento desta nota, a operação no Rio não cumpre esses requisitos. Não há boletim público nominal das vítimas, nem relatório oficial de circunstâncias das mortes, o que pode se qualificar como descumprimento de tratados assinados e possível configuração de execução extrajudicial, caso não haja investigação independente. ____ Corpos na Praça Dia 29 de outubro de 2025 Moradores do Complexo da Penha resgataram pelo menos 50 corpos da Serra da Misericórdia na madrugada do dia 29 de outubro, e os colocaram na Praça São Lucas. Lá, familiares tentaram reconhecer seus entes antes do IML os recolher. Quando moradores são forçados a resgatar corpos por conta própria, os empilhar numa praça pública e improvisar uma espécie de identificação coletiva antes da chegada do Estado, há evidência de que o Estado produz morte para manter dominação. Ele não tem comprometimento com a vida da população que considera paralela e inimiga, agindo com brutalidade para 'reconquistar território.' O Estado busca 'reconquistar território' e negar direitos a quem vive nas margens não porque esses territórios sejam uma ameaça à sociedade, mas porque eles representam uma ameaça ao modelo de poder e controle sobre a sociedade. Guerra como método de disciplina social Cada operação cumpre uma função estratégica de: – Impedir a mobilização coletiva, reprimindo lideranças comunitárias e criminalizando qualquer organização autônoma; – Fragmentar redes de solidariedade, produzindo desconfiança e sabotando iniciativas coletivas; – Instalar trauma e medo, usando o terror como método para paralisar a ação política; – E legitimar a ocupação policial permanente, transformando as periferias em zonas de exceção onde direitos são suspensos e a presença militar é normalizada. Essa engrenagem mantém territórios pobres e racializados sob vigilância e submissão, inviabilizando resistência social e assegurando a continuidade do interesse econômico e político que depende dessa estrutura de opressão. As instituições governamentais criam condições para a extração econômica e o controle político dessas populações, ao neutralizar conflitos de classe e proteger a circulação do capital. O que aconteceu no Complexo da Penha nessa madrugada vai além de uma tragédia humanitária. É uma declaração do real interesse das instituições governamentais, que atuam não para proteger vidas, mas para administrar a morte e lucrar ao negar direitos a quem vive nas margens. ____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi Fotografado por Fabio Teixeira ____ [Nota editorial: Número de vítimas atualizado.]
- “Chega de chacina, polícia na favela, Israel na Palestina!”
Este era o grito no protesto no Rio de Janeiro, dia 31 de outubro. Fotos e vídeos de Fabio Teixeira, 31 de outubro de 2025, no Rio de Janeiro. Dia 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro se transformou numa zona de guerra . Uma megaoperação das forças de segurança do estado do Rio, envolvendo cerca de 2.500 policiais, foi deflagrada contra a facção criminosa Comando Vermelho . Pelo menos 132 pessoas foram mortas, tornando a operação policial a mais letal da história da cidade. Na madrugada do dia 29, mais de cinquenta corpos foram carregados por moradores e dispostos em uma praça pública no Complexo da Penha, para que os familiares pudessem tentar identificá-los – sem qualquer apoio do Estado. Muitos dos mortos chegaram apenas de cueca, anônimos. O protesto No dia 31 de outubro, um protesto pela paz reuniu moradores das favelas, jovens, familiares das vítimas, ativistas e defensores dos direitos humanos. A energia era urgente e intensa – faixas pedindo o fim do massacre, a identificação das vítimas e justiça para as favelas tremulavam ao vento. Mães e pais se sentavam nas calçadas, chorando, em silêncio, com a cabeça baixa. O trauma coletivo era palpável. As pessoas no Rio e nas comunidades vizinhas falam de choque e luto, mas também de raiva e determinação. O protesto foi uma declaração de que o governo não sairá impune dessa brutalidade. Exigiremos nomes, identificação e apoio jurídico para as famílias. Porque sem isso, não há justiça, apenas apagamento. O massacre expôs a forma como o Estado trata os corpos (e as vidas) de homens, em sua maioria jovens, negros e de baixa renda, moradores das favelas. Após a operação, autoridades governamentais a declararam um sucesso, mas os moradores percebem que essa estratégia assassina de operações policiais, que já dura décadas e que claramente só aumenta o número de vítimas, ainda não apresentou resultados. E nunca apresentará resultados no combate ao crime organizado, porque não aborda a raiz do problema: a subjugação sistêmica dos moradores das favelas e o racismo institucionalizado. Tudo o que faz é satisfazer uma ideologia supremacista e sanguinária de limpeza étnica e extermínio de um contingente da população que não é útil para a manutenção do sistema capitalista. Essas pessoas mortas são seres humanos e merecem dignidade, humanidade e direitos. De acordo com direitos humanos internacionais, o Estado tem o dever de identificar as vítimas, notificar as famílias, fornecer apoio jurídico e psicossocial e, o mais importante, conduzir uma investigação independente. Essas obrigações não são opcionais e ainda não foram cumpridas. A ausência dessa resposta, a falha em identificar adequadamente os mortos e o tratamento vergonhoso da situação como "bandido bom é bandido morto" sinalizam violência institucional em níveis sem precedentes. Sejamos claros: mesmo que todas as pessoas mortas nesta operação fossem membros de gangues (o que ainda não foi comprovado), isso não isenta o Estado de sua responsabilidade. São jovens, em sua grande maioria negros e moradores de favelas. Foram atacados, encurralados, baleados, esfaqueados, decapitados, sem julgamento ou devido processo jurídico. Quando um segmento da população (definido por raça e classe) é tratado como um inimigo a ser exterminado, estamos entrando no âmbito do genocídio. A narrativa oferecida pelo Estado, de que 'um morador de favela merece morrer porque faz parte de um Estado paralelo inimigo,' espelha outras narrativas genocidas em todo o mundo. Diz-se que os palestinos merecem morrer por causa do Hamas; os moradores de favelas merecem morrer por causa do crime organizado e de gangues como o Comando Vermelho. Até mesmo as armas usadas no Rio incluem fuzis de fabricação israelense (como o IWI Arad fornecido à Polícia Militar do Rio). Em ambos os casos, as pessoas são desumanizadas, privadas de direitos, excluídas da ordem simbólica. Essa é a lógica do genocídio, quando a violência é normalizada contra um outro indesejado. O que Lula disse O presidente Lula gerou controvérsia ao afirmar que os traficantes de drogas também são vítimas dos usuários; há pessoas que vendem drogas porque há pessoas que compram, e pessoas que compram porque há pessoas que vendem. A oposição disse que isso equivalia a banalizar o crime de tráfico. No entanto, a declaração aponta para algo mais profundo: o reconhecimento de que aqueles que são forçados a entrar na economia das drogas são, eles próprios, vítimas de um sistema de subjugação, desigualdade e consumo por parte dos privilegiados. No contexto deste massacre mais recente, a implicação é clara. Jovens reduzidos a bucha de canhão, lutando uma guerra sobre a qual tiveram pouca escolha, parte de economias informais geradas pela falta de oportunidades, enquanto os consumidores da classe média e da elite permanecem protegidos do escrutínio e consequência. As palavras do presidente deveriam nos levar a enxergar além do rótulo de "criminoso" ou "bandido" e perguntar: Por que tantas vidas são consideradas descartáveis nas favelas? Por que essa operação fracassa A lógica da megaoperação é cruelmente simples: usar força esmagadora, apreender armas e declarar vitória. Mas décadas de operações semelhantes no Rio e no Brasil mostram que isso não quebra o ciclo de crimes violentos. Pesquisas demonstram que a polícia do Rio mata mais pessoas em operações a cada ano do que a polícia dos Estados Unidos inteiro. O trauma dessa violência se espalha, famílias são destruídas, crianças ficam órfãs, comunidades aterrorizadas e desconfiadas. O protesto pela paz no Rio não se resume a essa única operação; é um grito contra décadas de policiamento militarizado, violência racial e negligência estrutural. Um apelo por justiça e humanidade Após os acontecimentos de 28 e 29 de outubro, as exigências são claras: Todas as vítimas devem ser identificadas; as famílias informadas; e deve ser fornecido apoio jurídico, financeiro e psicossocial. Uma investigação completa e transparente sobre como e por que as pessoas foram mortas. O fim das declarações que criminalizam comunidades inteiras em vez de abordar as causas profundas da desigualdade, do racismo, da falta de oportunidades, da marginalização, do consumo de drogas por parte dos privilegiados e da corrupção em instituições governamentais que encobrem má conduta e uso excessivo da força. O policiamento deve ser substituído por investimento social e pela reconstrução do contrato social para desmantelar suas estruturas de racismo institucional. Se esperamos que o mundo condene a violência em outros lugares, que defenda os chamados países 'civilizados' que respeitam os direitos humanos, devemos primeiro olhar para nós mesmos. A supremacia branca e a violência patrocinada pelo Estado continuam sua lógica genocida no Brasil, em Gaza, em todos os lugares. Para aqueles de nós que não foram diretamente afetados, a luta não acabou. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para apoiar as comunidades afetadas, exigir justiça e desafiar as narrativas de extermínio. Esta não é apenas uma crise no Rio; é um espelho que reflete o globo. Veja mais fotos aqui. _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9 . Ela é autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos pela editora P9 .












