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  • O Capitalismo na Era Digital dos Modelos de Linguagem

    "É difícil aceitar que nos esforçamos para ‘ganhar a vida’ num mercado global que é um Casino. Em vez disso, é fácil abraçar ideias de gurus de negócios e dicas financeiras genéricas que não abordam a questão fundamental de como alcançar uma existência autêntica e gratificante nesse mundo." Por Mirna Wabi-Sabi Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique Brasil Empresas sempre procuram estar na vanguarda do marketing digital e, a cada dia, uma nova estratégia de negócio é lançada. A sobrevivência do capitalismo depende da crença de que os nossos empreendimentos serão bem-sucedidos se dedicarmos muitas horas e aprendermos a utilizar todas essas ferramentas digitais, que estão em constante mudança e multiplicação. O Search Engine Optimization (SEO) tem sido a ferramenta queridinha do marketing digital nos últimos anos, até ser, desde 2019, proverbialmente substituído pelo BERT, um modelo de linguagem do Google que depende menos de palavras-chave e termos, interpretando mais o contexto. Mas quando uma ferramenta é democratizada (ou seja, tornada amplamente acessível), ela, em essência, deixa de ser eficaz. O mercado capitalista, assim como as pesquisas no Google, precisa da competição por lugares limitados no topo. Essa corrida para aparecer no topo da 1ª página de uma busca no google é interessante, pois ou você precisa se inserir em uma tendência pesquisável, ou fabricar uma. De qualquer forma, não é um processo científico fiável onde os contributos garantem o resultado, embora o mito da meritocracia capitalista se baseie na crença de que seja. Na realidade, o sucesso de um empreendimento comercial é uma aposta que requer muito investimento inicial, antes de haver (e se houver) algum retorno. No pôquer, a pessoa jogadora precisa começar colocando dinheiro no jogo. Depois disso, há um cálculo cuidadoso das probabilidades de vitória e como lidar com essas probabilidades dependendo do adversário e da equidade do jogador. Só porque existe cálculo de probabilidade não significa que não seja uma aposta, e o mesmo vale para o marketing digital e o sucesso de um empreendimento capitalista. Quanto mais dinheiro o empreendimento tiver para entrar no jogo, maior será a probabilidade de os cálculos eventualmente darem lucro e também da sorte acontecer. É difícil aceitar que nos esforçamos para ‘ganhar a vida’ num mercado global que é um Casino. Em vez disso, é fácil abraçar ideias de gurus de negócios e dicas financeiras genéricas que não abordam a questão fundamental de como alcançar uma existência autêntica e gratificante nesse mundo. Quando acreditamos que existe uma fórmula e que o sucesso é todo mérito pessoal, é mais provável que continuemos tentando reproduzir o que vimos funcionar para os outros, e isso está dentro da categoria de seguir tendências. Pesquise no Google como ser relevante no Google (Modelos de Linguagem) O modelo BERT é aquele que prevê o final da sua frase no Gmail. Se você digitar “Como vo”, a tecla ‘tab’ adicionará “cê está?”, e “Espero”, ‘tab’, “que sim”, etc. Os resultados dessa função de preenchimento automático de texto não são apenas previsíveis e pouco originais, mas também nem sempre são factuais. As pesquisas do Google, que utilizam esse modelo, interpretam o contexto e também prevêem e geram conteúdo com base em enormes conjuntos de dados. Para ter uma classificação elevada em uma pesquisa com esse método, precisamos ser um acompanhamento previsível de um termo chave ou pergunta feita no Google. O que acabamos obtendo é uma grande quantidade de conteúdo e empreendimentos comerciais que aproveitam uma onda de pesquisas populares – todos eles competindo por um lugar de destaque. Aqui você encontrará muito clickbait e, em geral, produtos e conteúdos pouco originais, que seguem uma fórmula de marketing digital para assuntos que já provaram ser populares. Um exemplo disso pode ser visto na dica da “Amazing Money Marketer” Sherri Norris, sobre como ganhar 90 mil vendendo cadernos através do Amazon KDP. Nesse reel, Sherri mostra como um caderno preto vendeu 6 mil unidades por cerca de 15 dólares, e, com uma “matemática simples”, podemos ver que a pessoa faturou (6000x15) 90k. Em seguida, ela explica como criar um PDF no Canva, carregá-lo no Amazon KDP e acumular riqueza. Seu cálculo não leva em conta a parcela considerável dos lucros que vai para a Amazon, para impressão, envio e manuseio. Acima de tudo, não leva em conta o fato de que, sem um investimento inicial considerável em marketing, você simplesmente não venderá um único exemplar, enterrado sob um mercado hipersaturado de cadernos na Amazon. Isso foi apontado por pessoas nos comentários, que tentaram e falharam, e a solução apresentada a eles foi “você tem que alterar sua estratégia de SEO”, ou “Faça uma pesquisa na internet sobre como comercializar livros de baixo conteúdo do KDP”. Para empreendimentos de acompanhamento de tendências que seguem essa lógica, isso significa que não existe uma ciência exata para se destacar na multidão ou permanecer relevante no longo prazo. Mais importante ainda, essa lógica não aborda a realidade de que, para ganhar dinheiro, precisamos já de ter tempo e dinheiro. Nas próprias palavras de Sherri Norris, em seu aviso de isenção de responsabilidade em letras miúdas em seu “site”: “Conforme estipulado por lei, não podemos e não oferecemos nenhuma garantia sobre sua capacidade de obter resultados ou ganhar dinheiro com nossos cursos, eventos, programa de afiliados ou treinamentos em vídeo gratuitos. A pessoa comum que compra qualquer informação sobre “como fazer” [“how to”] obtém pouco ou nenhum resultado.” (ênfase adicionada.) Existem várias contas que se descrevem como “ajudando pessoas comuns a ganhar dinheiro online” ou “em casa”, muitas com o mesmo texto de isenção de responsabilidade. Esses gurus da renda passiva estão espalhados pela Internet, apenas os de maior destaque enfrentam consequências jurídicas. A tendência Stanley Quencher Tumbler No Brasil, a Croácia só é pesquisada no Google no contexto de jogos de futebol. Otimizar as pesquisas de uma publicação sobre um terremoto naquela região implicaria reestruturá-la como clickbait – ou, de alguma forma, fabricar demanda para o tema de terremotos nos Balcãs. Quando se trata de produto, ser o único do gênero só é uma vantagem quando um número suficiente de pessoas o conhece e o procura. Não há maneira mais segura de estar no topo de uma pesquisa no Google do que ter milhares de pessoas pesquisando algo que só você fornece. A questão é como levar as pessoas a fazer isso. A mania do Stanley Quencher Tumbler é um exemplo extremo de como fabricar demanda por um produto que apenas uma empresa oferece. Embora o conceito de garrafa térmica não seja exclusivo da Stanley, eles conseguiram aumentar o desejo do público por uma versão que só eles fornecem. O resultado é uma explosão de tendência do tópico “Quencher” no Google (ou um aumento impressionante nas pesquisas de termos relacionados como “Stanley” e “Tumbler”) de novembro de 2023 até hoje, para um produto que foi lançado em 2016. Alguns atribuem esse fenômeno a uma colaboração com o site The Buy Guide (TBG), que, segundo suas fundadoras, foi criado em oposição à tendência de influenciadores do Instagram. As três mães do lar brancas transformaram seu hobby de comprar presentes online em um empreendimento de sucesso, porque estavam “cansadas de ver pessoas perfeitas e fotogênicas vendendo produtos de uso diário no Instagram”. Essas mulheres meio que lideraram esse estilo particular de influência, que rejeita as personalidades ultra curadas das influenciadoras nas mídias sociais, em favor de postagens elegantes e bem pesquisadas centradas em produtos. A colaboração da TBG com a Stanley desencadeou uma tendência que alguns dizem ter saído do controle. Há violência e crime nas lojas quando novas cores são lançadas nos EUA, as redes sociais estão inundadas de colecionadores ávidos e os copos da Stanley já estão surgindo nas praias e bares brasileiros. Nem a Stanley nem a TBG seguiram um guia de marketing “como fazer” (“how to”) para alcançar vendas como essas. Ambos foram inovadores nos seus respectivos campos de produtos e serviços, mas isso por si só não explica o seu sucesso. Eles também estavam na vanguarda de uma nova estratégia de marketing. A Stanley se autodenomina a inventora da garrafa de aço térmica a vácuo em 1913, mas o conceito da garrafa térmica a vácuo foi desenvolvido por James Dewar na Escócia algumas décadas antes. Só em 2020 é que o novo presidente da Stanley, Terence Reilly, implementou claramente a estratégia de marketing do seu tempo na Crocs – utilizando “criadores de gosto” (“tastemakers”) para aumentar a demanda por uma estética de marca única. Hoje em dia, tastemakers podem ser encontrados no TikTok, e é por isso que ele deu um carro novo para uma TikToker. Essa cultura empresarial é descrita por uma funcionária como “oportunismo visionário”, onde uma oportunidade de tendência é encontrada em territórios ainda não explorados. O oportunismo visionário requer dinheiro. Um empreendedor já precisa ter dinheiro para investir em testes de estratégias de marketing que ninguém experimentou antes. Para pessoas sem dinheiro para esse investimento inicial, “how to’s” e SEO, nas palavras da Amazing Money Marketer, “obtêm pouco ou nenhum resultado”. Essas ferramentas são uma espécie de folclore que transmite os costumes capitalistas à próxima geração. Mas, como vimos nas tentativas fúteis de criminalizar a negociação com informações privilegiadas (insider trading), o mercado global não é apenas mais uma aposta do que uma ciência, é uma aposta fraudulenta. Será que esses contos e costumes deveriam continuar a ser preservados? O sucesso de um negócio, tal como a estabilidade do mercado global, não se baseia na fiabilidade dos modelos linguísticos e na previsibilidade da demanda do consumidor. Baseia-se no capital inicial, cálculos de aposta e muita sorte. O fato de que o capitalismo ainda é descrito como o único sistema que funciona, onde o sucesso financeiro se baseia apenas no mérito, parece uma tentativa desesperada de enxergar ordem no completo caos e incerteza do nosso mundo moderno. ____ Mirna Wabi-Sabi é fundadora e editora-chefe da Plataforma9, autora dos livros Anarco-Transcriação e Finge Que Isso é um Celular.

  • Argentina: O falso anarquismo de Javier Milei e seu apoio estrondoso a Israel

    Milei está ansioso para apoiar a invasão de Israel em Gaza e para seguir os passos de Trump na mudança da embaixada para Jerusalém. Mostrar como o uso do termo Anarquismo por Javier Milei é absurdo não exige muito esforço, mas o absurdo é altamente elegível em nossa era. Para um anarquista concorrer à presidência, ele estaria buscando um cargo que não acredita que deveria existir, e estaria ideologicamente comprometido em não fazer o trabalho. À medida que Javier Milei faz campanha e vence a sua candidatura na Argentina, ele está, no entanto, empenhado em fazer um trabalho como chefe de Estado, apesar de se autodenominar anarquista. Seu compromisso é instaurar o mais livre dos mercados capitalistas e manter o governo o menor possível – sem que o seu próprio emprego deixe de existir. Isso significa acabar com regulamentos e ministérios, e exaltar stocks em dólares americanos e as forças armadas – para proteger bens privados. Como uma relação inquebrável com os EUA e Israel, que são as suas primeiras viagens internacionais confirmadas desde as eleições, pode ajudá-lo a alcançar esses objetivos? A estratégia de Milei para gerar riqueza e conter a inflação é privatizar tudo, e isso já sacudiu a bolsa de valores nos EUA. Segundo a Reuters, o seu plano de vender a YPF, a empresa petrolífera nacional, já fez com que suas ações subissem 40% desde a vitória eleitoral. “A YPF é a maior empresa petrolífera da Argentina e supervisiona o desenvolvimento da Vaca Muerta, a segunda maior reserva de gás de xisto do mundo e a quarta maior reserva de óleo de xisto.” A dolarização da Argentina tornará esse tipo de venda ainda mais conveniente para os estrangeiros. Ao mesmo tempo, a privatização desses bens públicos estabilizará a dolarização. Pelo menos é nisso que Milei está apostando, e ele precisa que funcione por vários motivos. Um deles é que a YPF está sob escrutínio judicial pela forma como foi nacionalizada em primeiro lugar. Uma sentença de 16 bilhões de um tribunal dos EUA paira sobre a cabeça da empresa devido à “apreensão” de ações de investidores minoritários em 2012. Outra razão pela qual Milei precisa que esse plano funcione é que a Argentina é o país que mais deve dinheiro ao FMI no mundo. Se investimento do FMI, cujo objetivo é ajudar “países de baixo rendimento” a permanecerem ativos no mercado capitalista global, fracassou, será que entrar de cabeça no mercado dolarizado e privatizado funcionará como solução? Quando se trata de conflitos na Ásia Ocidental, a discussão sobre o petróleo é um clichê ultrapassado. Mas se há fumaça, temos que pelo menos considerar a possibilidade de que também há fogo. A escalada dos ataques à Palestina levantou preocupações sobre os preços e o fornecimento global de petróleo. Se o Irã, “o quarto maior fornecedor de petróleo da OPEP”, se envolver (ainda mais) nesse conflito, e, digamos, os EUA forem encorajados a decretar sanções, seria pertinente começar a conceber um plano para lidar com a diminuição do volume de petróleo que está circulando. A revista Time publicou um artigo no final de outubro argumentando que as sanções ao petróleo iraniano são a chave para a “paz” no “Oriente Médio”, estimando que as vendas de petróleo constituem 70% das receitas do governo do Irã. Enquanto isso, Israel tem debatido o potencial de extração de quantidades significativas de xisto betuminoso há algum tempo, uma vez que se acredita que 15% do território israelense esteja em leitos desse xisto. Talvez não seja uma coincidência que o novo presidente da Argentina queira reforçar a sua relação com Israel enquanto tenta livrar-se da YPF, que já foi descrita como “a jogada de xisto mais atraente fora dos EUA”. A relação política e econômica entre a Argentina e Israel não começou com Milei. Perón já tentou conquistar os EUA através de acordos com Israel. Assim, ele acreditou que “remover[ia] o estigma” de que a Argentina tinha se tornado um porto seguro para nazistas após a Segunda Guerra Mundial, enquanto também abriga a maior população judaica da América Latina. Desde então, Israel forneceu equipamento militar à Argentina antes e durante a Guerra das Malvinas contra a Grã-Bretanha, o que se argumenta ser devido à animosidade extrema de Menachem Begin com o mandato britânico da Palestina. Hoje, Milei está ansioso para apoiar a invasão de Israel em Gaza e para seguir os passos de Trump na mudança da embaixada para Jerusalém. Mas mesmo antes da sua vitória, a empresa nacional de água de Israel, Mekorot, já tinha recebido “influência significativa” sobre como os recursos hídricos são atribuídos em várias províncias da Argentina. Depois de ver como essa empresa abordou o abastecimento de água à Palestina, muitos argentinos estão indignados não apenas com a presença dessa empresa no seu próprio país, mas também com o que ela tem feito no exterior. No Brasil, quando Bolsonaro abanou uma bandeira israelense num protesto, os representantes da Confederação Israelita do Brasil (Conib) foram rápidos a rejeitá-la como representativa da posição política da diáspora judaica no país em geral. Não está claro se o mesmo pode ser dito sobre a população judaica argentina. Mas uma coisa é certa: o fanatismo de Milei com Israel não tem nada a ver com o anarquismo, e tudo a ver com o seu amor implacável pelo capitalismo norte-americano. Me parece que ele instrumentaliza a religião para atingir objetivos econômicos, e isso muito provavelmente será às custas de argentinos de todas as religiões, enquanto ele agita sua motosserra da austeridade. As ideologias anarquistas e libertárias visam combater o controle governamental sobre a sociedade, mas o anarquismo nunca significou que esse controle caísse nas mãos de uma instituição ainda mais problemática – o mercado global de ações. É por isso que, historicamente, o anarquismo se desenvolveu em resposta à direção insustentável que a industrialização capitalista tomava no século XIX (em direção à pobreza generalizada). Ao se inspirar no fato de que várias civilizações indígenas prosperaram sem o capitalismo e o Estado, ficou claro para os anarquistas que outro mundo é possível. Acelerar na direção de um capitalismo industrial sem regulamentação é bastante contrário aos princípios do anarquismo, porque apenas agrava a questão da desigualdade econômica. Inegavelmente, a Argentina está numa situação financeira difícil e o seu novo presidente planeja resolvê-la com uma versão ainda mais extrema do sistema financeiro que não deu certo até agora. Como uma personalidade televisiva com ideias econômicas explosivas, Milei conquistou os corações de um eleitorado que está ansioso para preservar o status quo capitalista. Talvez essas ideias não sejam tão explosivas ou inovadoras como ele as faz parecer, são apenas uma tentativa desesperada de proteger um sistema de longa data que não tem dado sinais de funcionar. ____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi, fundadora e editora-chefe da Plataforma9. Fotografado por Alisdare Hickson, sob a licença Attribution-ShareAlike (CC BY-SA 2.0)

  • “This is not a drill” de Roger Waters chega ao Brasil invocando Resistência

    Dada a geopolítica atual, está claro que ideologias genocidas não estão em declínio, e perduram pela história. Por isso, a resistência continua imprescindível, e é essa a mensagem central do show “This is Not a Drill” de Roger Waters, no Brasil. O primeiro show da tour ‘This is Not a Drill’ de Roger Waters aconteceu em um auditório de Pittsburgh, dia 6 de julho de 2022, na Pensilvâniana. Dia 24 de outubro de 2023, a tour foi estreada no Brasil, em Brasília, reconfigurada para estádios. A set list, a mensagem política e a identidade visual é a mesma, mas estar ao céu aberto garante uma experiência renovada. Não há mais a configuração do palco de auditório de 360 graus em formato de cruz, mas foi possível ver a lua durante ‘Dark Side of the Moon’, realçada por lasers espetaculares. Entre o primeiro show da tour e o primeiro show da tour no Brasil, Roger Waters lidou com diversos ataques políticos, protestos pedindo pelo cancelamento de seus shows — especialmente na Alemanha — documentários acusando-o de antissemitismo, e escrutínio de críticos e audiências por seus posicionamentos políticos. Em resposta, Waters expressou genuína decepção, questionando por que agora se tornou alvo desse escrutínio por uma mensagem política que ele dissemina já há meio século. Desde o fim dos anos 60, a preocupação com uma guerra nuclear, com líderes mundiais desrespeitando direitos humanos, e a brutalidade da ganância da elite global tem sido centrais não só na vida, mas na arte de Waters. É inspirador e honrável ver um artista como ele usar seu talento e fama para fazer o que ele pode para realizar mudanças positivas e necessárias no mundo. Durante toda a sua carreira, é possível observar uma estratégia de comunicação artística e política que utiliza personagens e narrativas para transmitir uma mensagem. Roger, na verdade, é mais que um músico, ele é um contador de estórias. Como contador de estórias, ele idealiza personagens e os coloca em narrativas que expressam o pior cenário imaginável. Ao encenar explosões, tiroteios, mortes, crimes de guerra, líderes fascistas e capitalistas inconsequentes, ele não só apresenta esse pior cenário, como também mostra o quão próximo dele realmente estamos. É um balde de água fria que te traz para a realidade e faz enxergar um futuro assustadoramente próximo — o qual precisamos impedir. O personagem do líder fascista que Waters encenou antes da tour chegar no Brasil era performado acompanhado de uma metralhadora e soldados obedientes. Em Brasília, ele foi apresentado em uma cadeira de rodas, vestindo uma camisa de força, acompanhado por auxiliares de hospital. Ele enlouqueceu de vez, e de forma alguma deve ser ouvido. Há anos, esse personagem representa o poder político, e como ele é centralizado em indivíduos completamente doentes e perturbados. Resistência a eles é imprescindível, e Waters é explícito em relação a isso. Resistência, para Roger, pode acontecer de diversas formas. Resistir é um processo material, como pessoas indígenas e palestinas lutando para retomar controle de suas terras. E também é um processo social, através do diálogo e do apoio mútuo. Quando ele invocou direitos indígenas, palestinos, reprodutivos e trans, grande parte da audiência se emocionou e celebrou. Ele faz uma vertente ampla da população brasileira, que luta por esses direitos regularmente, se sentir reconhecida e apoiada. Mas nem todos compartilham essa visão. Pode-se observar o incômodo de alguns indivíduos com a crítica ao capitalismo. Eu ouvi pelo menos uma vez, “olha lá o comunista vindo em show de capitalista. Aposto que o Roger Waters tá fazendo muita grana”. Fora que o Roger inquestionavelmente endossou o Lula no palco. É possível que essa chamada para resistir ao capitalismo seja difícil de absorver no Brasil. Porque a concepção de capitalismo, num país que lidou com uma ditadura que utilizou “militar” no lugar de “capitalista”, interpreta o Capital como sinônimo de Renda. Não é preciso convocar jargões da teoria comunista para analisar a falha na fusão desses conceitos. O Roger Waters trabalha e produz — arte. Se todas as pessoas trabalhadoras fossem propriamente renumeraras por seu trabalho no sistema capitalista, não haveria necessidade de resisti-lo. Mas não é essa a realidade, e nunca foi. O Waters é sábio o suficiente para reconhecer que só porque ele conseguiu construir uma carreira que o remunera generosamente pelo seu trabalho, não quer dizer que essa seja a realidade para todo o mundo ou que o sistema funciona para a humanidade. Roger Waters no Brasil É difícil compreender como a visão do Roger Waters para um mundo melhor não é unânime. Porém, resistência contra a guerra, a ganância, o fascismo, o racismo e as demais ideologias que visam erradicar a diversidade humana só pode ser unânime em um mundo onde essas ideologias nocivas não existem mais ou estão em declínio. Se todos nós concordássemos com o fato de que essas violências deveriam acabar, não resistiríamos, construiríamos juntos um mundo novo. Dada a geopolítica atual, está claro que ideologias genocidas não estão em declínio, e perduram pela história. Por isso, a resistência continua imprescindível, e é essa a mensagem central do show “This is Not a Drill” de Roger Waters. Podemos diferir ou até discordar sobre quais ferramentas empregar nessa resistência, mas pelo menos participar dessa conversa ele demanda de sua audiência. Sua arte transcende a música. Ela é folclore, teatro, amizade, ativismo, e claro — resistência. Mas a música não deixa de ser central. Como eu disse ano passado, na resenha sobre o primeiro show dessa tour em Pittsburgh, “os solos de guitarra e cantoras de back-up gratificam qualquer fã obstinado do Pink Floyd e os inspira a cantar junto. Enquanto os fluxos dinâmicos da set list, sem mencionar os fantásticos solos de saxofone, fazem qualquer pessoa interessada em música dançar.” E isso continua a ser verdade. Algumas das músicas mais adoradas de todos os tempos são tocadas de forma autêntica e fiel, criando uma experiência imperdível para pelo menos três gerações de fãs. _______ Por Mirna Wabi-Sabi

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  • P9 | O movimento iraniano pelo direito das mulheres

    Brochure 132 pages 110x180x8mm Farsi-English: ISBN 9786585267045 Portuguese-English: ISBN 9786585267038 A History of the Iranian Women's Rights Movement O movimento iraniano pelo direito das mulheres لاله های سرکش جنبش زنان ایران، از مشروطه تا امروز Bilingual book: English/Portuguese or English/Farsi ​ Historical accounts often bypass this important legacy of the twentieth century Iranian women’s movement, crediting Khomeini’s charismatic leadership as the sole contributing factor to the mass mobilization of women, particularly those from working-class and conservative backgrounds. ​ Reductionist tales, recalling orientalist essentialism, portray Muslim women as passive recipients of politics, who blindly follow the authority of religious men in their pursuit of political power. ​ This book shows that Iranian women have been all but passive victims, and that their political contributions and organizing have been key to any progre ss made on behalf of sociopolitical movem ents in contemporary Iran. ​ About the a uthor Dr. Donya Ahmadi is Assistant Professor of International Relations, Department of International Relations and International Organization at the University of Groningen. ​ ◣ Livro bilíngue: in glês/português brasileir o ​ Relatos históricos, muitas vezes, ignoram esse legado importante do movimento de mulheres iranianas do século XX, creditando a liderança carismática de Khomeini como o único fator que contribuiu para a mobilização em massa de mulheres, particularmente aquelas de origem trabalhadora e conservadora. ​ Cont os reducionistas, que lembram o essencialismo orientalista, retratam as mulheres muçulmanas como recipientes passivos da política, que seguem cegamente a autoridade de homens religiosos em sua busca pelo poder político. Este livro mostra que as mulheres iranianas foram tudo menos vítimas passivas, e que suas contribuições e organizações políticas foram fundamentais para qualquer progresso feito em nome de movimentos socio-políticos no Irã contemporâneo. ​ Sobre a autora Dra. Donya Ahmadi é Professora de Relações Internacionais, Departamento de Relações Internacionais e Organização Internacional da Universidade de Gronin gen. ​ ​ ◣ کتاب دو زبانه: انگلیسی/فارسی ​ منابع تاریخی، معمولاً بر میراث مهم جنبش زنان ایرانی در قرن بیستم چشم بسته و رهبری کاریزماتیک خمینی را، عامل اصلی به حرکت درآمدن توده‌ی زنان، به‌ویژه زنان متعلق به طبقات فرودست و خانواده‌های مذهبی-سنتی می‌دانند ​ چنین داستان‌های تقلیل‌گرایانه‌ای، یادآور ذات‌گرایی اورینتالیستی هستند که زنان مسلمان را صرفاً مخاطبان منفعل سیاست می‌دانند. کسانی که کورکورانه از اقتدار مردان مذهبی مدعی قدرت سیاسی پیروی می‌کنند اما این کتاب نشان می‌دهد که زنان ایرانی، نه‌تنها قربانیانی منفعل نبوده‌اند؛ بلکه فعالیت سیاسی و قدرت سازماندهی آنان در مسیر دستیابی به هرگونه پیشرفتی که در جنبش‌های اجتماعی- سیاسی ایران حاصل شده؛ نقشی کلیدی ایفا نموده است درباره نویسنده دنیا احمدی ستادیار روابط بین الملل، دانشگاه خرونینگن ​ ____ A BOUT P9 Plataforma9 is a journ alistic i nitiat ive that publish es article s and pocket books in several languages ​​and in several countries. So far we hav e books in Portuguese, English, Spa nish, Farsi and Indonesian, and we sell in Brazil, United States, United Kingdom, European Union, Austr alia , Mexico, Peru, Argentina and Chile, and also in Indonesia with a partner publisher called Sabate. We also offer editing, media literacy and copywriting services. Our books are the size of a smartphone, made to be portable, and read anywhere. ​ SOB RE A P9 A Plataforma9 é uma iniciativa jornalística que publica artigos e livros de bolso em diversas línguas e em diversos países. Até agora temos livros em português, inglês, espanhol , fársi e indonésio, e vendemos no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia, Austrália, México, Peru, Argentina e Chile, e também na Indonésia com uma editora parceir a chamada Sabate. Também oferecemos serviços de edição, alfabetização midiática e p rodução de texto. Nossos livr os são do tamanho de um smartphone , feitos para serem portáteis, e lidos em qualquer lugar. ​ A History of the Iranian Women's Rights Movement لاله های سرکش جنبش زنان ایران R$ 39,00 Preço Ver informações Iranian Women's Rights Movement | O movimento iraniano pelo direito das mulheres R$ 39,00 Preço Ver informações A History of the Iranian Women's Rights Movement [digital] R$ 19,00 Preço Ver informações

  • P9 | Media Literacy

    PT What is Media Literacy? The same way we learn how to read and write text, we can learn how to interpret online content. Reading and writing are, in one way, tools for consuming and producing content, but in private. Media is the means of mass dissemination of this content. And to communicate with large amounts of people, several different avenues can be used, like radio, print publications, and the internet. Internet media is disseminated through websites, and these websites are platforms for media content. This content has an address: a link. Once we have the ability to read and write (which is literacy), we have the ability to consume and produce media in platforms with massive audiences (media literacy). Media literacy isn’t widely taught, though, not just in the internet era. We aren’t generally taught how books are published, radios are broadcasted, or how websites are built. This knowledge was often reserved for professionals in these fields, until social media democratized mass distribution of personal content (for better or for worse). Now more than ever, media literacy is a necessity for all people, of all ages. Below you will find a short course, consisting of a checklist on what to look for when consuming online content. The output of those who filled out this checklist is presented collectively in the ‘results’ section, with graphs, maps, and databases. Through this process, we train ourselves to look for relevant information, and see our individual consumption of online content in a broader context – the global online context in which we find ourselves. FORM RESULTS THE HISTORY Since the invention of the German printing press in the 15th century, which birthed the method of reproducing media on a large scale and revolutionized the consumption of information in the West, there has been false news. It was very common for these false news to be directed towards a marginalized contingent of society, such as Jewish, indigenous and black peoples. Sometimes, atrocities committed by ‘undesirable’ members of society were made up. Other times, atrocities committed by ‘desirable’ members of society were omitted. In other words, deceptive media is one that not only lies, but also omits truthful information. Because of the continued presence of falsehood in the media over the past five centuries, many journalists like to say that ‘fake news’ is not new – but it is. The term ‘fake news’ says more about the media age in which we find ourselves, than the practice of disseminating misinformation. False information has always circulated through media, but today it circulates in a particular way, with the use of new technological tools, such as social media boosts and bots. In the first half of the 20th century, the first Brazilian ‘media baron’, Assis Chateaubriand, threatened to ruin the reputations of people and companies with false news in exchange for money (essentially blackmail). Today, technological advances significantly changed the format in which these false news get disseminated, and by whom. What’s App, Facebook, Twitter, Telegram, Instagram are explosive and unprecedented formats of disseminating media. Most people are able to produce media content, and most of those who can, do it constantly. When we see news on one of these platforms, we also see who and how many people reacted to it, which influences not only what we feel about the news, but also about the others who consume it – all instantly. We can believe or stop believing something depending on who or how many people ‘shared it’ or ‘liked it’. In terms of ‘who’, it’s enough for a famous or credible person to believe and ‘share it’ for “the bewildered herd” (From Chomsky in Media Control) to follow. This is where ‘influencers’ come in. It terms of ‘how many’, a high number of shares helps the post reach a wider audience by appearing relevant to social media algorithms and to the people seeing it. That’s where bots come in. Here is an example of false news. Here (Abcnews.com.co) is an example of ‘fake news.’ One comes from a platform that still exists and lied. It’s an example of bad journalism. The other (Abcnews.com.co) doesn’t even exist as a platform, it pretends to be something it isn’t. We would not find this link by searching for it on our own, it is created to be believable on Facebook, as an ad. ‘Fake news’ sites have the specific purpose of buying ads on social media. [Note that I didn’t use a hyperlink for the fake news site, because I don’t want it as a backlink or as part of their PageRank.] THE TRUTH The starting point of truth is our subjectivity, it depends on each one’s perspective. All media produced by someone is a result of that person’s subjectivity. It’s necessary to be in contact with our own subjectivity, in order to be able to discern the veracity of what others produce. More important than finding answers, is asking the right questions. It’s okay if you can’t find the answers to all questions. The important thing is the process of research, because sometimes not finding the answer is valuable information in itself. Is the platform being as transparent as it could be? Lie or Deception? A lie is when, for example, an author invents information. An author can be deceptive or misleading without inventing anything. They may select truthful information, omit another piece of information, place these pieces out of context, and use sensational tools to provoke certain emotions in the audience. Generally, media literacy courses focus on how to identify objective and neutral journalistic language. This, however, does not exist. It is not always easy to discern sensational and misleading tools from effective or creative methods of delivering information to an audience. Some identifiable tools, even if subjective, are: – Dramatic music. – Shocking images and words. – Exclamation points. – Titles that cause fear, and pass on little information. – Titles that speak directly to you. Focusing on a guideline or checklist on how to identify ‘fake news’ can make us even more vulnerable to them. These guidelines can become new, effective tools for their dissemination. For example, if I say to you: “only trust newspapers that do not use exclamation points on titles,” this guideline can be used by any deceitful platform to gain your trust. A much stronger tool than memorizing identifiable ‘fake news’ characteristics is to have a clear sense of your own values, and political goals. ‘Fake News’, ‘bots’ and people with an interest in using these tools to steer the behavior of a wide audience, target ‘influenceable’ and undecided people. That doesn’t necessarily mean people who are on the fence about a subject. Dogmatic people are as easy to influence, because their reference of truth is outside themselves. That’s why the search for your own truth is fundamental to make ‘fake news’ ineffective, which is the most effective way to combat it. Thought, speech, and action should be one, as should your ideas, what you share with others and how you live your life. This is an exercise in balance – being open to learning new things, while not losing sight of your own truth and lived experiences. THE AUDIENCE When we produce media, we think of a target audience so that we can make it effective in delivering the message. A newspaper, for example, has an audience, and the values ​​of each one of them exist in symbiosis. The media literacy process involves the analysis of the values ​​of the institutions and/or people that produce media, based on the recognition of our own values ​​as an audience. Many people who produce media on the internet are not honest, or transparent, about what their values ​​and intentions are. There are media tactics that aim to manipulate a specific audience, that use tools that provoke targeted emotions. Art also aims to provoke emotions; academic writing is intended to be verifiable and validated. These are tools that can be used in ways that are subtle, exaggerated, effective, manipulative, untruthful, misleading, etc. Our analysis of how these tools are used depends on our understanding of how we use them ourselves, and why. What constitutes content accessible to the general public? For content to be accessible, it needs to be able to reach the audience it sets out to reach. For example, for a video to reach an Instagram audience, it needs to last a maximum of one minute, because this is (or was) the limitation of the platform visited by that audience. How to identify whether a text aims to reach a lay audience, and not just a specialized one? A person who is not specialized and has no interest in specializing in a certain area of ​​study will spend less time reading about this subject. So, for texts to reach this audience, they must be short. Short online texts do not need an abstract, summary, numbered sections, etc. A long text is not necessarily inaccessible. Another way of identifying the level of accessibility is to recognize excessive citations/references, usually redirecting the reader to other, even longer, academic texts. Academic requirements reflect the audience that the author intended to reach. Specific acronyms and terms have the same function. To reach a lay audience, terms must be defined, and acronyms that aren’t widespread in popular culture must be spelled out the first time they are mentioned. FBI or CIA, for example, are not acronyms that need to be spelled out, but NCI does. GLOSSARY Audience (in media) – “A media audience may be as small as one person reading a magazine or as large as billions of people around the world watching events, like 9/11, unfold live on television. Audiences have a complex relationship with the products they consume.” (New Zealand’s Ministry of Education) ‘Bot’ (on social media) – “is an agent that communicates more or less autonomously on social media, often with the task of influencing the course of discussion and/or the opinions of its readers. It is related to chatbots but mostly only uses rather simple interactions or no reactivity at all.” (Wikipedia) Dogma – “a principle or set of principles laid down by an authority as incontrovertibly true.” (Oxford Languages) ‘Fake News’ – “is a form of news consisting of deliberate disinformation or hoaxes spread via traditional news media or online social media.” (Wikipedia) Media – “the main means of mass communication (broadcasting, publishing, and the Internet) regarded collectively.” (Oxford Languages) Sensationalism – “(especially in journalism) the use of exciting or shocking stories or language at the expense of accuracy, in order to provoke public interest or excitement.” (Oxford Languages) Social Media – “websites and applications that enable users to create and share content or to participate in social networking.” (Oxford Languages) Form Results

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