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- Foreign flags in Copacabana
The demonstration in Rio reveals not only ideological alignments, but also the workings of an ecosystem that connects global finance, intellectual production, and political mobilization. READ IT IN ENGLISH HERE . Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. No dia seguinte ao assassinato do Aiatolá do Irã, a manifestação “Acorda, Brasil” com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, espalhou-se por Copacabana e outras vias pelo Brasil. No domingo, 1º de março de 2026, o grupo de manifestantes se reuniu na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Bolivar para protestar contra o governo federal e certos ministros. Enquanto as bandeiras estrangeiras não têm relação direta com a pauta do protesto, elas são usadas como símbolos ideológicos de alinhamento internacional, e esse alinhamento ocorre também no nível financeiro. Convocada por lideranças da direita e divulgada intensamente nas redes sociais, a manifestação reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e teve como pauta central críticas ao governo de Lula e pedidos de anistia para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. O público no Rio foi relativamente pequeno, especialmente quando comparado com o pedido de autorização de interdição ao trânsito feito pela organização para a prefeitura municipal. O Diário Oficial do Rio relata o fechamento da praia inteira, para a concentração de por volta de 4,7 mil pessoas entre a Rua Bolívar e Barão de Ipanema. O vereador Rafael Satiê formalizou o pedido de fechamento de ruas para viabilizar a manifestação em Copacabana em uma escala que indica expectativa de público elevado, com interdições amplas e por um período prolongado. Sua atuação política dialoga com o campo evangélico, pois ele se apresenta como pastor apesar de não divulgar de qual igreja. Porém, ele já demonstrou proximidade pública com a Igreja Universal do Reino de Deus, defendendo seus eventos e posicionando-se contra críticas à instituição . A Universal, por sua vez, acumula um histórico de denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas investigadas por autoridades no Brasil e no exterior, com acusações de uso de doações de fiéis multibilionárias em esquemas financeiros complexos. Esse enquadramento ganha um contorno político mais explícito quando se observa que, na véspera do ato, ele publicou nas redes sociais que o aiatolá havia sido “ abatido ,” termo carregado de desumanização. Ao mesmo tempo, ele celebrava a ação dos Estados Unidos e de Israel, conectando sua atuação institucional na organização do espaço público a um posicionamento político-ideológico claro no debate internacional. Ou seja, essas bandeiras internacionais revelam a presença de redes transnacionais de ideias e financiamento que há décadas atravessam a política brasileira. Think tanks e máquina global de influência Os Estados Unidos possuem a maior estrutura de inteligência do mundo. Ela reúne quase dezenas de agências diferentes, incluindo a CIA, e opera com um orçamento anual superior a US$ 70 bilhões anuais . Desde a Guerra Fria, documentos desclassificados mostram que essas estruturas foram usadas não apenas para espionagem tradicional, mas também para operações de influência política em países considerados estratégicos. A América Latina ocupa um lugar importante nesse histórico. Intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos em países como Chile, Guatemala, Nicarágua e Brasil, especialmente durante o século XX, já foram amplamente documentadas. O caso do golpe brasileiro é visto hoje como escancarado, mas até ele só foi confirmado por documentos liberados décadas depois. No século XXI, os métodos se modernizaram. Influência política internacional nem sempre aparece na forma de golpes ou operações clandestinas. Ela costuma operar através de redes de instituições, fundações, think tanks e organizações civis. Uma das principais redes internacionais desse tipo é a Atlas Network, organização sediada em Washington que conecta mais de 500 think tanks em cerca de 100 países . Fundada em 1981 pelo empresário britânico Antony Fisher, ela tem como objetivo promover políticas públicas ligadas a economia de mercado, redução do Estado e liberalização econômica. A organização oferece financiamento, treinamento, bolsas e programas educacionais para institutos parceiros ao redor do mundo. No Brasil, uma das organizações associadas a essa rede é o Instituto Millenium, criado em 2005 pelo Paulo Guedes, et. al. O instituto se apresenta como um centro de estudos voltado à promoção de liberdade econômica, responsabilidade fiscal e democracia liberal. Suas atividades incluem publicação de artigos e análises, organização de eventos e debates, produção de vídeos institucionais, e programas de formação política para jovens lideranças. Think tanks raramente sobrevivem apenas de doações individuais. Eles dependem de financiamento institucional, frequentemente vindo de empresas, fundações ou organizações internacionais. Como outros think tanks , o Instituto Millenium não fornece retorno financeiro a quem investe nele, pelo menos não diretamente. Seu objetivo é influenciar políticas públicas no Brasil, e a implementação dessas políticas pode ser lucrativa a longo prazo, oferecendo um bom retorno no investimento de uma entidade estrangeira como o governo dos Estados Unidos. Arquivos do Instituto Millenium indicam apoio financeiro do braço de gestão financeira do Bank of America . (Algumas dessas páginas foram posteriormente removidas.) O Bank of America , por sua vez, mantem uma parceria de longa data com a BlackRock , hoje considerada a maior administradora de ativos do planeta, com trilhões de dólares sob gestão. Tom Montag, ex-presidente do Bank of America , atuou no conselho de administração da BlackRock enquanto trabalhava no BofA . Além disso, por volta de 2 anos depois que Merrill Lynch “ uniu forças ” com a BlackRock , ela foi comprada pelo BofA. A BlackRock também mantém relações próximas com o governo dos Estados Unidos e com a CIA. Durante a crise financeira de 2008 e a da pandemia em 2020, a empresa foi contratada pelo Federal Reserve para administrar programas de compra de ativos destinados a estabilizar os mercados. E diversos executivos da empresa circularam entre cargos no setor privado e posições no governo estadunidense, um fenômeno conhecido em Washington como “ revolving door ,” ou porta giratória. Thomas E. Donilon é um destes executivos. Como vice-presidente da BlackRock , ele foi membro do conselho administrativo da CIA por quase uma década, e é também membro do conselho de uma think thank chamada Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Internacionais). Há um argumento a ser feito de que isso não significa que exista coordenação alguma entre empresas, think tanks e agências de inteligência. Mas um rastro indica que as redes institucionais que conectam finanças globais, política pública e produção intelectual são densas e interligadas. Não é de se surpreender que esse fenômeno de porta giratória gera preocupação, pois mostram que esses incentivos de carreira entre o setor público e privado podem moldar as escolhas políticas mesmo sem corrupção explícita. Favores para futuros empregadores e influência legislativa através de antigos colegas é um ambiente propício a conflitos de interesse. Aí se encontra o cerne da Teoria Econômica da Regulação : Através dessa porta giratória, as agências reguladoras começam a servir aos interesses das indústrias que devem ser regulamentadas, em vez dos interesses do público. O Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, é um exemplo perfeito disso, tendo servido cargo publico como ministro, criado bancos e gestoras de investimento, assim como uma das principais think tanks liberais do Brasil. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. O ecossistema da mobilização Enquanto think tanks produzem ideias e formam quadros políticos, outro tipo de organização atua na mobilização de rua. No Brasil, o movimento NasRuas é um desses grupos. Criado durante as mobilizações políticas da década passada, o movimento ganhou notoriedade organizando protestos contra o governo Dilma Rousseff e posteriormente participando de campanhas pró-impeachment. Grupos como este aplicaram estratégias inspiradas em campanhas políticas estadunidenses , incluindo o uso intensivo de redes sociais, publicidade digital segmentada, produção de conteúdo político viral, e articulação com influenciadores e páginas ideológicas. Uma característica recorrente desses movimentos é o financiamento difuso. A associação Brasil NasRuas, por exemplo, não divulga de forma detalhada a origem de todos os seus doadores ou os valores arrecadados para campanhas específicas. Essa falta de transparência levou o movimento a aparecer em investigações judiciais como o Inquérito 4828 do STF, onde o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma série de diligências para investigar a organização e o financiamento de manifestações consideradas antidemocráticas. O resultado revelou o potencial da “existência de uma rede integralmente estruturada de comunicação virtual voltada tanto à sectarização da política quanto à desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos.” Carla Zambelli, fundadora da Associação Brasil NasRuas, e Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, estiveram ligados principalmente porque faziam parte do mesmo projeto político durante o governo Bolsonaro, no qual Guedes era o responsável pela política econômica e Zambelli atuava como aliada no Congresso apoiando essa agenda. Ela foi investigada por diversos crimes, incluindo lavagem de dinheiro através da Associação que ela criou, o NasRuas, e hoje está presa. Esse ecossistema costuma operar em três níveis. No topo estão instituições financeiras, fundações e redes internacionais que apoiam projetos intelectuais e educacionais. No meio estão think tanks , responsáveis por produzir conteúdo, pesquisas e programas de formação política. Na base aparecem movimentos de mobilização digital e organizações de rua, que transformam essas ideias em campanhas públicas, protestos e pressão política. Nem sempre existe coordenação explícita entre essas camadas. Mas frequentemente elas compartilham redes de financiamento, formação e circulação de ideias. Diante desse cenário, a presença de bandeiras estrangeiras em manifestações políticas brasileiras ganha outro significado. Ela representa admiração cultural, alinhamento ideológico ou identificação geopolítica. Mas também pode indicar a existência de uma rede internacional de narrativas e verbas políticas. No protesto de 1º de março em Copacabana, esse símbolo apareceu de forma literal. Talvez fosse apenas um gesto espontâneo. Talvez fosse um sinal de algo maior. Vivemos à mercê da mais ampla, influente, tecnológica e bem financiada infraestrutura de inteligência e de operações secretas da história do mundo. Neste contexto em que ideias e dinheiro circulam globalmente com a mesma velocidade que memes nas redes sociais, acreditar que a política brasileira existe isolada dessas redes pode ser, no mínimo, um pouco ingênuo. De qualquer forma, é curioso que uma mobilização cercada de bandeiras internacionais e discursos neoliberais termine deixando como rastro online sua vaquinha “oficial,” criada quase 6 meses antes do evento, cujo endereço ainda anuncia que “o cachorro Bob precisa de cirurgia” porque “foi atropelado.” _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9. _____ Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique .
- Covert Power, Manufactured Consent, and Iran’s glory
Read in English at SUL BOOKS, HERE . Operações secretas, consentimento fabricado e a glória do Irã Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos operou não apenas por meio da diplomacia e da guerra declarada, mas também por meio de uma vasta arquitetura de operações secretas. Da América Latina à África e ao Oriente Médio, a atividade de inteligência frequentemente precedeu e preparou a justificativa pública para ações militares ostensivas. Compreender os eventos contemporâneos em torno do Irã exige situá-los dentro de um padrão histórico mais amplo de desestabilização secreta, manipulação narrativa e guerra ideológica funcionando em conjunto. Operações secretas como ferramenta de longa data da política externa dos EUA A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA. Por exemplo, o Projeto FUBELT envolveu esforços secretos da CIA para impedir que o presidente chileno Salvador Allende governasse e para promover o golpe militar que acabou instalando Augusto Pinochet. Os programas secretos dos EUA no Congo buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos. As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a Operação CHAOS monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico. Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável. Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio a assassinatos cometidos pelo ICE , a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência. O Irã e o papel das operações de inteligência O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o contrabando de drones e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar. Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam surtos internos . Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição. Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência. Ação secreta como relações públicas para a guerra A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável. A Operação Mongoose da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção. Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que se levante contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação. Interesses estratégicos por trás da desestabilização do Irã Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã. O Irã ocupa uma posição estratégica singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos. As sanções dos EUA contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção. Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia. A propaganda como arma de guerra A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em Manufacturing Consent (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites. Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas. Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita. Islamofobia e a fabricação da desumanização O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise baseada em corpus de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos. Estudos sobre mídias sociais após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais. A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva. Diáspora e reações conflitantes Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo. As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas. Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica. A compreensão limitada do ocidente sobre o mundo muçulmano Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível. Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários. Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional. Uma Ode ao Irã Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja literatura é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica. O Irã também possui uma longa e complexa história de movimentos políticos feministas . Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico. Erradicando a supremacia A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados. Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações. O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda. Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique . Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.
- Liberty-Washing Venezuela: How Trump Turns Crises into a Narrative of Control
Read in English at Sul Books . Liberty-washing: a prática de invocar seletivamente a linguagem da liberdade, da restauração democrática ou do Estado de direito para legitimar ações coercitivas no exterior, desconsiderando a soberania, as restrições do direito internacional ou liberdades comparáveis no próprio país. Imagens de Fabio Teixeira que retratam um protesto dia 5 de janeiro, da Cinelândia até o Consulado dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro – Brasil. A operação americana que resultou na prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi apresentada por Donald Trump como um ato decisivo em defesa da liberdade, da democracia e do Estado de direito. De acordo com declarações oficiais, a ação foi enquadrada como uma medida de aplicação da lei, baseada em acusações de longa data contra Maduro por tráfico de drogas e conspiração criminosa, combinadas com a alegação de que o sistema eleitoral venezuelano carecia de legitimidade. No entanto, a escala e a natureza da operação — envolvendo o uso de força militar contra um chefe de Estado em exercício — imediatamente levantaram questionamentos sobre o direito internacional, a soberania e as reais motivações. Compreender esse episódio exige separar três elementos distintos que frequentemente são condensados em uma única narrativa: as reais dificuldades enfrentadas pelos venezuelanos, as justificativas apresentadas pelo governo Trump e o uso político dessas justificativas para exercer poder além das fronteiras dos Estados Unidos. A Venezuela não é uma exceção — a crise é uma condição global A Venezuela, assim como outros países, tem vivenciado polarização política, volatilidade econômica, eleições contestadas e migração em massa. Nenhum desses fenômenos é único, nem justifica, por si só, a intervenção estrangeira. Eleições contestadas, ciclos inflacionários, violações dos direitos humanos e fluxos migratórios são características da política global contemporânea, inclusive em países que se posicionam regularmente como árbitros da democracia. Organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas , a Human Rights Watch e a Anistia Internacional , documentaram preocupações na Venezuela relacionadas ao devido processo legal, ao tratamento de oponentes políticos e à independência institucional. Relatórios semelhantes existem para aliados dos EUA — e para os próprios Estados Unidos — onde o encarceramento em massa, a violência policial, a supressão do voto e os poderes de emergência também têm sido alvo de críticas constantes. A existência de falhas na governança não cria uma hierarquia de nações, em que algumas têm direito à soberania e outras são consideradas passíveis de perdê-la. A crise migratória da Venezuela deve ser compreendida nesse mesmo contexto global. Milhões de venezuelanos deixaram o país na última década, se estabelecendo principalmente em países vizinhos da América Latina, como o Brasil . Seu deslocamento reflete uma convergência de contração econômica, sanções, desigualdade regional e impasse político. Os refugiados não são prova da falha moral de um Estado; são pessoas que enfrentam escolhas limitadas sob pressão estrutural. Merecem proteção, dignidade e respostas políticas sérias, e não serem usados retoricamente como símbolos de desordem. Apesar das frequentes referências de comentaristas à migração , os refugiados não foram a principal justificativa legal ou operacional oferecida pelo governo Trump para a prisão de Maduro. As declarações oficiais enfatizaram duas alegações acima de todas as outras: tráfico de drogas e conspiração criminosa, com base em acusações dos EUA que alegavam que agentes do Estado venezuelano facilitavam o fluxo de narcóticos; e ilegitimidade eleitoral, com os EUA se recusando a reconhecer as recentes eleições venezuelanas como estando em conformidade com os padrões internacionais. Essas alegações foram apresentadas como ameaças à segurança nacional dos EUA e à estabilidade regional. Se as evidências sustentam tal ação extraordinária, isso permanece em debate. Avaliações de inteligência pública não demonstraram conclusivamente que a Venezuela desempenha um papel central único no tráfico transnacional de drogas em comparação com outros países da região. Tampouco a existência de eleições contestadas — um fenômeno global — constitui base legal para intervenção militar unilateral. O que importa, do ponto de vista analítico, não é se essas preocupações são totalmente fabricadas, mas como são elevadas, isoladas e instrumentalizadas. Liberty-washing como Técnica Política Essa estratégia pode ser melhor descrita como liberty-washing. Ela se refere à invocação seletiva da linguagem da liberdade, da democracia e do Estado de Direito para legitimar ações coercitivas no exterior, ignorando a soberania, as restrições do direito internacional e as liberdades comparáveis no próprio país. Assim como o pinkwashing ou o greenwashing , não se baseia em falsidades absolutas, mas em uma seleção de verdades utilizadas para uma agenda política hegemônica. Nesse caso, as alegações de tráfico de drogas e irregularidades eleitorais são transformadas de desafios políticos em autorização moral. A linguagem da “libertação” substitui a diplomacia; a acusação criminal substitui o processo multilateral. A liberdade torna-se algo que os Estados Unidos reivindicam o direito de administrar, em vez de uma condição exercida pelos próprios povos. Essa lógica explica uma contradição central: Trump se apresenta como um defensor global da liberdade no exterior, enquanto contesta abertamente a legitimidade eleitoral, a independência judicial e a liberdade de imprensa internamente. Liberty-washing resolve essa contradição transformando a liberdade em uma posse do poder, e não em um princípio universal. O Prêmio Nobel da Paz e a Personalização da Política Externa A fixação de Trump pelo Prêmio Nobel da Paz ilustra ainda mais como a instrumentalização da liberdade opera no nível da ambição pessoal. Relatos indicam que Trump via o prêmio como uma validação de sua estatura global, e que tensões surgiram quando a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, recebeu o prêmio em seu lugar. O reconhecimento de Machado, enraizado na luta política não violenta, não se traduziu em apoio total dos EUA, supostamente porque isso prejudicava a própria pretensão de Trump de ser uma autoridade na promoção da paz. Essa personalização é importante. Quando a política externa se torna um palco para a competição simbólica, os atores democráticos que não se alinham com esse simbolismo são marginalizados. A instrumentalização da liberdade, portanto, não fortalece a sociedade civil venezuelana; ela centraliza a legitimidade em Washington. A retórica de Trump após a operação sugere mais do que apenas a instauração de um processo judicial. Declarações sobre supervisionar a "transição" da Venezuela ou determinar resultados políticos aceitáveis ecoavam uma postura mais ampla, evidente em outros contextos — incluindo em Gaza — onde a soberania é tratada como provisória, revogável por uma força superior. Em ambos os casos, o território é discutido menos como o espaço político de um povo e mais como um problema de segurança a ser administrado. Lei, liberdade e ordem são invocadas não para restringir o poder, mas para racionalizar sua expansão. Isso não é uma anomalia; é uma lógica familiar de intervenção reformulada em linguagem contemporânea. Refugiados merecem proteção, e não serem usados como instrumento narrativo É crucial que os refugiados venezuelanos não sejam incluídos nessa lógica. Seu deslocamento não justifica o uso da força; é uma denúncia do fracasso global — incluindo regimes de sanções, desigualdade regional e apoio internacional inadequado. Respeitar os refugiados significa resistir à sua instrumentalização como moeda de troca moral em disputas geopolíticas. A retórica da liberdade transforma os refugiados em símbolos. Como prova do fracasso estatal, justificativa para intervenção ou pano de fundo para ganhos estratégicos. Uma abordagem séria, em vez disso, priorizaria os direitos de asilo, a cooperação regional e o apoio de longo prazo, sem militarização. A prisão de Nicolás Maduro não revela muito sobre a suposta disfunção excepcional da Venezuela, mas revela muito sobre como o poder opera quando envolto na linguagem da liberdade. As justificativas de Trump baseiam-se em preocupações seletivamente amplificadas sobre drogas, eleições e governança, transformadas em autoridade moral para ações unilaterais. Liberty-washing instrumentaliza o sofrimento. E, ao fazê-lo, arrisca transformar crises em precedentes para um mundo em que a soberania é condicional, a lei é opcional e a liberdade é algo imposto, e não vivido. Os venezuelanos — incluindo aqueles que fugiram — merecem melhor do que isso. _____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi e fotografado por Fabio Teixeira Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique
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- P9 | Team ◣ Time
The Plataforma9 team is responsible for writing, editing, translating, and conceptualizing P9 publications. Mirna Wabi-Sabi is director and editor-in-chief, and Fabio Teixeira is a photojournalist and founding member. Time ◣ Team Mirna Wabi-Sabi fundadora • diretora • editora chefe ◣ founding member • director • editor-in-chief Fabio Teixeira fundador • fotojornalista ◣ founding member • photojournalist Cajú Media identidade visual ◣ visual identity ___________ escritores ◣ writers Donya Ahmadi Eduardo Barbosa Fabiana Faleiros Fabiana Lian Felipe Lott Fernanda Grigolin Jere Kuzmanić Patrick Farnsworth Rhyd Wildermuth Silvia Federici artistas visuais ◣ visual artists Alejandra Robles Alice Hsieh Iasmin Rios Izabela Moreira Karla Sampaio Riccardo Riccio Saide Jabani Sara Kovač Seeds Collective Volodea Biri revisores ◣ revisers Ana Botner Gabriela de Jesus Silva Guilherme Ryuichi Michelle Morikawa Nox Morningstar tradutores ◣ translators Felipe Moretti Lilo Assenci colaboradores ◣ collaborators Cooperativa Conjunts On Stage Exp Trovão Tropical
- P9 | Podcast (English)
In this podcast, Mirna Wabi-Sabi, founder of the initiative, talks with collaborators and guests about several articles and projects from Plataforma9. PT Guest appearances
- P9 | River Ecobarrier
Data analysis of waste in the Eco-barrier of the João Mendes river. Survey of solid waste at the João Mendes Eco-barrier Read the article 'Eco-barriers and restoring balance between species on the planet' he re . Eco-barriers are barriers at the mouth, or outflow point, of rivers in megacities. –microtrash is registered as a separate category, and means a mixture of small waste such as cigarette butts, microtubes of narcotics, fragmented Styrofoam, other plastics and plant parts that are entangled by this waste. –tetra pack is also recorded separately, as they are those packages with a mixed composition of metal, paper and plastic, often used for products such as milk, juice and tomato sauce. - There are other identified materials, but not individually categorized, such as occasional toys, electronic waste, light bulbs, tires, mattresses, etc. – While the unidentified waste are the closed bags found at the barrier that are not opened because they may contain materials that pose a risk to the health of volunteers – such as syringes, blades, diapers, condoms, used toilet paper, etc. "The amount of solid waste (garbage) that has been thrown into the João Mendes river weekly (about 250 kg) also contributes significantly to the pollution of the João Mendes river, showing still precarious sanitation conditions." Volume or Pluviometric Index is measured by millimeter of rain per square meter in a certain place and period. Source: (A627, from INMET ) Panel.









