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A narrativa desumanizante em torno dos assassinatos policiais no Rio de Janeiro

Atualizado: 20 de jan.

Essa publicação foi vencedora do 39.º Prêmio de Direitos Humanos de Jornalismo na categoria fotografia — troféu paulo dias. E recebeu menção honrosa no 44.º Prêmio Vladimir Herzog.
Aviso de gatilho: violência e morte.
Fotos por Fabio Teixeira, tiradas no dia 11 de fevereiro de 2022 na Vila Cruzeiro.

O conteúdo dessa série fotojornalística representa um enigma ético para mim como escritora e merece um aviso de gatilho severo. O termo “aviso de gatilho” é frequentemente associado à chamada cultura "Woke", de “guerreiros da justiça social”, mas, aqui, eu o uso literalmente. Gatilhos reais foram acionados e você como audiência está preparada para ver evidências fotográficas das consequências?

Por um lado, reproduzir essas imagens é, também, reproduzir a violência bárbara nelas retratada. Por outro lado, talvez, estar exposta a ela, como pessoa leitora e cidadã, possa fornecer a dose de realidade necessária para despertar uma consciência combativa, que pode ser usada para provocar mudanças reais. Mudança não apenas em quais gatilhos estão sendo acionados, onde e quando. Mudança na forma como falamos uns sobre os outros e uns com os outros.

As palavras usadas para descrever o que aconteceu no Rio de Janeiro dia 11 de fevereiro de 2022 foram baseadas principalmente no que a Polícia Militar teve a relatar. “Criminosos” foram mortos numa favela. São não-identificados, sem nome, mas eram 8, e eram “marginais”. Segundo o porta-voz da polícia, eles estavam atrás de Chico Bento, um líder de quadrilha que fugiu e usou jovens, pobres e negros como escudo. Em outras palavras, o homem procurado fugiu porque a polícia estava ciente da estratégia e não estava disposta a sacrificar vidas inocentes.

Vidas foram sacrificadas mesmo assim, sem vergonha, inteligência ou escrúpulo. Os cadáveres foram tratados de forma desumana, talvez apenas como um reflexo final de como os corpos eram tratados quando estavam vivos — e a brutalidade continua na disseminação da retórica em torno de quem eram essas pessoas.