A narrativa desumanizante em torno dos assassinatos policiais no Rio de Janeiro

Aviso de gatilho: violência e morte.
Fotos por Fabio Teixeira, tiradas no dia 11 de fevereiro de 2022 na Vila Cruzeiro.

O conteúdo dessa série fotojornalística representa um enigma ético para mim como escritora e merece um aviso de gatilho severo. O termo “aviso de gatilho” é frequentemente associado à chamada cultura "Woke", de “guerreiros da justiça social”, mas, aqui, eu o uso literalmente. Gatilhos reais foram acionados e você como audiência está preparada para ver evidências fotográficas das consequências?

Por um lado, reproduzir essas imagens é, também, reproduzir a violência bárbara nelas retratada. Por outro lado, talvez, estar exposta a ela, como pessoa leitora e cidadã, possa fornecer a dose de realidade necessária para despertar uma consciência combativa, que pode ser usada para provocar mudanças reais. Mudança não apenas em quais gatilhos estão sendo acionados, onde e quando. Mudança na forma como falamos uns sobre os outros e uns com os outros.

As palavras usadas para descrever o que aconteceu no Rio de Janeiro dia 11 de fevereiro de 2022 foram baseadas principalmente no que a Polícia Militar teve a relatar. “Criminosos” foram mortos numa favela. São não-identificados, sem nome, mas eram 8, e eram “marginais”. Segundo o porta-voz da polícia, eles estavam atrás de Chico Bento, um líder de quadrilha que fugiu e usou jovens, pobres e negros como escudo. Em outras palavras, o homem procurado fugiu porque a polícia estava ciente da estratégia e não estava disposta a sacrificar vidas inocentes.

Vidas foram sacrificadas mesmo assim, sem vergonha, inteligência ou escrúpulo. Os cadáveres foram tratados de forma desumana, talvez apenas como um reflexo final de como os corpos eram tratados quando estavam vivos — e a brutalidade continua na disseminação da retórica em torno de quem eram essas pessoas.



Neste descanso sem paz, não apenas os mortos são as vítimas. Toda uma comunidade é submetida à narrativa desumanizante usada pela polícia, e perpetuada pelos meios de comunicação de massa, para justificar ações injustificáveis. Então, ao invés de repetir o que já foi dito sobre esse caso — qual favela, qual líder de quadrilha, quantas armas, quantas drogas — devemos discutir quais são as consequências dessas operações policiais.

Não há evidências de que as operações da Polícia Militar ou a presença da Unidade de Polícia Pacificadora nas favelas cariocas tenham alcançado algum sucesso no controle da indústria de drogas e armas ilegais. Comunidades marginalizadas são aterrorizadas tanto pela polícia quanto pelos traficantes locais. De fato, comunidades negras marginalizadas são aterrorizadas pelas autoridades desde antes da existência do crime organizado, antes mesmo da existência da polícia ou do Estado que ela protege.

O que é 'crime organizado'? Em primeiro lugar, deve haver o conceito de crime, definido por lei e respaldado por instituições governamentais. E para que seja organizado, deve ser maior que uma única infração, grande o suficiente para se tornar uma indústria paralela e lucrativa.

As favelas se organizaram o suficiente para suportar um legado de terror que persistiu por meio milênio. A força policial que realiza operações de “pacificação” nas favelas foi criada antes da formação do Estado brasileiro, para 'caçar' pessoas escravizadas em fuga. Em outras palavras, a instituição policial precede a constituição e o estabelecimento de direitos humanos básicos.

O que distingue o crime organizado das operações fracassadas de inteligência policial é o apoio das autoridades, sejam elas quais forem. Ao longo da história, testemunhamos mudanças na autoridade institucional, da Monarquia, para a República, para uma moderna Constituição Liberal. Por toda parte, a Polícia persiste, comete crimes, às vezes auxilia organizações criminosas organizadas, mas, mesmo assim, segue controlando a narrativa.

O direcionar o discurso público é a ferramenta mais valiosa de uma instituição. Sua capacidade de convocar apoio é o segredo de sua longevidade. Quando se trata da polícia e do exército, a narrativa de que “marginais”, “criminosos”, "terroristas" não são nada mais do que apenas isso não só sustentou como agravou a sede de sangue em grande parte da população.

Os apoiadores de Bolsonaro, amantes de armas, anseiam pela punição brutal de criminosos, adoram vídeos online de roubos que deram errado. O slogan dos anos 80, criado por um Delegado de Polícia do Rio de Janeiro, ainda é alarmantemente popular: “Bandido bom é bandido morto."

Não há dúvida de que o Brasil vive sob uma estratégia política de extermínio, a questão é qual narrativa um cidadão compra. Uma que propaga a ideia de que algumas pessoas merecem morrer porque não passam de criminosos marginais. E outra, que acredita que todas as pessoas merecem dignidade.

Não existem criminosos, existem pessoas que cometem crimes. Não existem marginais, existem pessoas que foram marginalizadas. Não existiram escravos, existiram pessoas que foram escravizadas. Quando deixamos de ver a humanidade nos outros, falhamos ela em nós mesmos. Talvez, ao sermos confrontados com imagens de dignidade sendo maliciosamente negada aos outros, possamos lutar pela dignidade deles tanto quanto lutamos pela nossa.



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Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação.

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