A classe média brasileira está em surto
Atualizado: há 9 minutos
Entre o bolsonarismo, o esquerdismo caviar e a fantasia de se distanciar da pobreza.
Escrito por Mirna Wabi-Sabi, Fotografado por Fabio Teixeira.
Existe uma crise de identidade no Brasil que atravessa tanto a direita quanto a esquerda: a classe média brasileira parece não saber muito bem a que classe pertence. E, talvez mais importante, parece fazer de tudo para não ser confundida com aquela que está abaixo dela.
O resultado é uma espécie de surto coletivo. De um lado, uma parcela da classe média adere ao bolsonarismo, à retórica da militarização da vida pública e à promessa de que o extermínio dos pobres resolverá os problemas do país. De outro, uma parcela se identifica com o discurso progressista, a luta de classes e a defesa dos trabalhadores, mas preserva, na vida cotidiana, relações profundamente hierárquicas com as pessoas que realizam o trabalho necessário para sustentar seu próprio conforto.
São dois comportamentos aparentemente opostos, mas que compartilham da contradição da dificuldade de abrir mão de certos privilégios e das distâncias sociais que organizam a sociedade brasileira.
A série Dom de Iludir, da Netflix, oferece uma boa ilustração desse universo. Ambientada entre o luxo e as intrigas da elite carioca, a trama permite pensar sobre o teatro das aparências, a proximidade aspiracional com os ricos e as relações de poder que se escondem atrás de uma fachada de respeitabilidade. O verdadeiro bando é o rico e sua estrutura de poder que permite à riqueza proteger a si mesma, inclusive quando seus interesses entram em conflito com os da sociedade.
Fotos de Fabio Teixeira, Rio de Janeiro, Brasil, outubro de 2026.
A casta que não quer ser casta
O Brasil não tem a mesma organização religiosa e histórica da Índia, mas a rigidez das fronteiras socioeconômicas e a naturalização das hierarquias evidencia paralelos explícitos entre os dois sistemas. No Brasil, classe e raça se entrelaçam de maneira particularmente violenta. A escravidão acabou juridicamente, mas deixou uma estrutura de distribuição de riqueza e trabalho reconhecíveis. Não é coincidência que o trabalho doméstico remunerado seja exercido majoritariamente por mulheres negras.
É nesse contexto que a classe média brasileira desenvolve uma relação ambígua com a pobreza. Ela precisa da existência de uma população economicamente vulnerável para manter determinados padrões de consumo, mas não quer ser associada a ela. Precisa de trabalhadores domésticos, entregadores, motoristas, cuidadores e prestadores de serviços, mas frequentemente não os reconhece como pessoas que deveriam desfrutar das mesmas condições de dignidade que reivindica para si.
A questão não é ter alguém que faça a limpeza da casa, contratar um serviço ou comer fora. É naturalizar que outra pessoa precise executar tarefas que consideramos indignas para nós mesmos, frequentemente em condições precárias, para que possamos preservar nosso próprio conforto.
Essa contradição aparece em dois surtos políticos.
1. O bolsonarismo como fantasia de ascensão social
Uma parcela da classe média encontra no bolsonarismo uma possibilidade de identificação simbólica com os ricos. Não necessariamente por ter patrimônio, poder econômico ou influência política, mas porque adota os valores e os códigos de quem os possui.
A promessa de ‘você não é como aquela gente’ é sedutora. Você é trabalhador de bem, cidadão de família, contribuinte, alguém que merece proteção. O problema estaria nos pobres, nos criminosos, nos beneficiários de políticas sociais, nos moradores das periferias.
A retórica de que bandido bom é bandido morto funciona como autorização moral para uma política de segurança que trata determinados segmentos da população como descartáveis. A contradição aparece quando a indignação contra a criminalidade não se estende aos crimes financeiros, à corrupção empresarial, à sonegação ou aos abusos cometidos por pessoas com dinheiro e influência.
A pergunta que essa ideologia evita é: por que a punição deve ser tão implacável para quem rouba um celular e tão frequentemente negociável para quem movimenta milhões em esquemas de corrupção ou violações econômicas?
Os dados da violência policial mostram que essa seletividade não é apenas retórica. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou 6.243 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2024. Pessoas negras representaram 82% das vítimas. Em 2025, segundo o relatório Pele Alvo, divulgado em julho de 2026, a proporção de vítimas negras chegou a 86,3% nos nove estados analisados pela Rede de Observatórios da Segurança:
“o Rio de Janeiro, com a maior chacina da história do país [em 2025], viu um aumento de 13,8% na letalidade em um ano. Eis outro paradoxo: o governo fluminense promoveu tal violência sob a tutela da ADPF 635, mecanismo jurídico que coloca o Supremo Tribunal Federal (STF) como ator fiscalizador.”
Trata-se de identificar uma operação política que vai além da policial, a de convencer pessoas que não pertencem à elite econômica de que seus interesses são os mesmos dos grupos que concentram riqueza e poder. A fantasia é pertencer ao andar de cima. A realidade é continuar dependendo das mesmas estruturas econômicas e sociais que produzem a desigualdade.
2. O esquerdismo caviar e a luta de classes de estimação
Do outro lado, existe uma parcela da classe média que domina o vocabulário da esquerda, vota em Lula, frequenta eventos culturais progressistas, compartilha denúncias de exploração capitalista e se identifica com o povo. Mas essa identificação frequentemente termina onde começa a própria vida doméstica.
É a esquerda que fala de trabalhadores, mas não necessariamente consegue olhar para a pessoa que limpa sua casa como uma igual. Que denuncia a exploração do proletariado, mas considera perfeitamente natural que alguém cozinhe, limpe, organize e cuide de seus filhos para que possa dedicar seu tempo a atividades intelectuais, profissionais e de lazer.
É uma esquerda que diz estar sempre sem dinheiro, mas, diante da possibilidade de perder certos confortos, prefere voltar para a casa dos pais a reorganizar o próprio padrão de consumo. Que reclama do custo de vida, mas não quer abrir mão dos restaurantes, das viagens, dos serviços terceirizados e da infraestrutura invisível que sustenta sua rotina.
Apesar de haver nada de errado em morar com os pais, comer fora ou contratar serviços, há uma contradição está em defender igualdade como princípio abstrato e reproduzir relações de subordinação como prática cotidiana.
O trabalho doméstico brasileiro é um bom retrato dessa contradição. De acordo com levantamento divulgado pelo Ministério das Mulheres em 2025, 64,5% das trabalhadoras domésticas recebiam menos de um salário-mínimo. Apenas 25% tem carteira assinada.
Ou seja, há uma classe média que se enxerga sem dinheiro o suficiente para pagar um salário direito, mas não dá conta de cozinhar pra si e limpar a própria casa.
Essas trabalhadoras domésticas são personagens fundamentais na economia desse país. São parte da infraestrutura que permite a outras pessoas trabalhar, estudar, produzir, viajar, participar da vida política e usufruir de tempo livre.
A questão que a esquerda caviar deveria enfrentar é desconfortável: se a sua qualidade de vida depende de relações de trabalho que você consideraria inaceitáveis para si mesmo, em que sentido sua prática é diferente daquela que você denuncia?
A luta de classes não acontece apenas nos discursos, nas manifestações ou nas urnas. Acontece também na cozinha, na lavanderia, no condomínio, na relação com funcionários e na maneira como distribuímos o tempo, o dinheiro e a dignidade.
Fotos de Fabio Teixeira, Rio de Janeiro, Brasil, outubro de 2026.
O que as eleições de 2026 revelaram?
As eleições presidenciais de 2026 foram uma demonstração contundente de que a polarização brasileira não se resolveu. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foram aproximadamente 64,2 milhões de votos para Lula e 59,8 milhões para seu adversário. Uma diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos em um eleitorado de dimensão continental.
Mesmo que esses números possam não representar a população em termos exatos, o resultado mostra que a disputa política não pode ser reduzida a uma divisão simples entre ricos e pobres, nem entre pessoas esclarecidas e desinformadas. A polarização atravessa diferentes classes, regiões, grupos sociais, e acima de tudo, é evidente no dia a dia.
As redes sociais tornaram-se um espaço central dessa disputa. Nelas, a posição política é também uma forma de apresentação pessoal. Compartilhar uma denúncia, defender um candidato, publicar uma bandeira ou participar de uma campanha produz visibilidade e pertencimento.
Essa mobilização tem importância. Pode pressionar instituições, pautar o debate público, organizar manifestações e, claramente, influenciar eleições. A vitória de Lula demonstra que a disputa digital e a mobilização política podem contribuir para certos resultados. Mas existe um problema quando a participação política termina na postagem de uma opinião ou na confirmação de um voto.
A performance eleitoral pode produzir a sensação de participação em uma transformação que, na realidade, ainda não aconteceu.
É possível votar na esquerda e continuar reproduzindo relações profundamente conservadoras. É possível votar na direita e imaginar que a proximidade ideológica com os ricos produzirá uma ascensão social que nunca chega. É possível passar quatro anos defendendo um presidente e quatro anos denunciando o próximo, sem questionar as estruturas econômicas que permanecem relativamente intactas entre os mandatos.
A resistência não pode depender de quem ocupa o Planalto
Por que a energia empregada para defender ou atacar candidatos não é igualmente direcionada às políticas públicas que estão sendo executadas neste exato momento?
A Amazônia registrou em 2026 sua menor taxa de desmatamento desde o início das medições do INPE. É uma conquista que deve ser reconhecida. Mas não pode funcionar como salvo-conduto para outras decisões ambientais. Enquanto o governo celebra a redução do desmatamento terrestre, avança a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, uma região de recifes, manguezais, biodiversidade marinha e comunidades cuja sobrevivência depende da integridade desses ecossistemas. O desempenho ambiental de um governo não pode ser medido apenas pelo indicador em que obteve sucesso.
Proteger a floresta e comprometer o oceano não constitui uma política ambiental coerente.
A pergunta não é se o Brasil está desmatando menos, mas se está realmente construindo um modelo de desenvolvimento que não transfira os custos de sua expansão econômica para os ecossistemas e as populações mais vulneráveis.
Outro exemplo é a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei 15.190/2025). Embora Lula tenha vetado dispositivos do projeto aprovado pelo Congresso, parte desses vetos foi posteriormente derrubada, e a legislação passou a vigorar em fevereiro de 2026, sob questionamentos de organizações e partidos que levaram o tema ao Supremo Tribunal Federal. O próprio Iphan manifestou preocupação com a redução de salvaguardas e de mecanismos de participação e proteção do patrimônio cultural.
Essas contradições importam porque não basta celebrar a imagem internacional do Brasil como liderança climática enquanto se ignoram decisões que podem comprometer ecossistemas, comunidades tradicionais e populações costeiras.
Também é preciso questionar os modelos de concessão, financiamento, exploração e transferência de controle sobre recursos naturais. A presença de empresas estrangeiras não representa automaticamente uma entrega de soberania, mas contratos, participações empresariais e acordos de exploração precisam ser examinados quanto à distribuição dos benefícios, dos riscos e do poder de decisão—independentemente de quem é presidente.
Desde 2019, a Petrobras, por exemplo, assinou 17 contratos com a TGS, uma empresa Norueguesa, para aquisição de uso de dados sísmicos em território brasileiro, uma média maior que 2 contratos por ano, totalizando um valor de mais de 3 bilhões de reais. Com essa verba, a TGS aplica por licenciamento ambiental com o IBAMA, para levantar dados não exclusivos sobre a sísmica do nosso país.
A defesa da soberania nacional não pode ser seletiva. Tampouco pode ser confundida com a defesa dos interesses de empresas brasileiras quando esses interesses entram em conflito com os direitos das populações e a preservação ambiental.
O capitalismo global não se organiza em torno de eleições nacionais. Opera por redes financeiras, empresariais, tecnológicas, militares e de inteligência que atravessam fronteiras e condicionam as possibilidades de governos democraticamente eleitos. O presidente tem poder, mas não governa sozinho o sistema econômico internacional.
Por isso, a resistência precisa sobreviver aos ciclos eleitorais.
Fotos de Fabio Teixeira, Rio de Janeiro, Brasil, outubro de 2026.
Sair do surto e começar a transformação
Talvez o verdadeiro problema da classe média brasileira seja não conseguir imaginar uma sociedade em que sua posição social não dependa da existência de alguém em posição inferior.
A direita oferece a fantasia de ascensão pela identificação com os ricos. A esquerda performática oferece a fantasia de igualdade sem redistribuição concreta dos privilégios cotidianos.
Ambas podem acabar protegendo a estrutura de uma sociedade em que poucos concentram poder e muitos precisam disputar entre si os recursos, os direitos e as oportunidades que deveriam ser garantidos a todos.
É necessário ampliar o significado da participação política para além da política eleitoral.
Que as campanhas nas redes sociais também sirvam para denunciar a precarização do trabalho doméstico, a violência policial, o racismo institucional, a destruição ambiental, a privatização de bens comuns e os contratos públicos que comprometem o interesse coletivo.
Que a indignação não apareça apenas quando o adversário político está no poder. Que a cobrança não seja confundida com traição. Que apoiar um governo não signifique conceder-lhe imunidade crítica.
E que a esquerda, sobretudo, comece a praticar a igualdade nas relações mais próximas, onde ela costuma ser mais inconveniente.
Não é possível construir uma sociedade menos desigual apenas desejando que os outros tenham mais direitos. É necessário questionar as vantagens que dependem de que esses direitos continuem sendo negados a alguém.
O Brasil não precisa de uma classe média que se imagine rica, nem de outra que se imagine revolucionária. Precisa de pessoas dispostas a confrontar as estruturas que produzem e perpetuam a desigualdade, inclusive quando elas próprias se beneficiam dessas estruturas.
Continue sendo resistência, independentemente de quem seja o presidente.
Porque o presidente muda. Os governos mudam. As coalizões mudam. Mas as estruturas de poder econômico, os interesses corporativos e as redes internacionais que condicionam as decisões políticas não desaparecem com a contagem dos votos.
A democracia não começa ou termina na urna. E a luta por dignidade não pode começar e terminar a cada quatro anos.





Comentários