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O novo fluxo de conhecimento

Como a IA, a filantropia e a mídia “perene” estão remodelando o trabalho intelectual

Leia também na Le Monde.
Enquanto as empresas de IA se beneficiam de ecossistemas digitais, quem mais se beneficia com elas?

A popularização da inteligência artificial está remodelando não apenas a tecnologia, mas também a economia da produção de conhecimento. Além do entretenimento e da opinião, o conteúdo da internet cada vez mais valorizado é a informação estruturada, explicativa e continuamente atualizada, que pode ser facilmente analisada por sistemas de IA. Nesse cenário emergente, projetos inspirados na Wikipédia ocupam uma posição particularmente estratégica. Eles produzem conhecimento humano organizado em um formato ideal para o aprendizado de máquina. Enquanto as empresas de IA se beneficiam desses ecossistemas digitais, quem mais se beneficia com elas?

A Wikipédia é o exemplo mais claro dessa transformação. A Fundação Wikimedia recebeu doações de grandes empresas de tecnologia, incluindo Google, Microsoft, Apple, GitHub, Adobe e outras. Mais recentemente, a Wikimedia formalizou relações comerciais com empresas de IA por meio da Wikimedia Enterprise, licenciando acesso estruturado aos seus dados para empresas como Microsoft, Meta, Amazon, Perplexity e Mistral AI. “O Wikimedia Enterprise não se trata apenas de fazer com que as empresas de tecnologia paguem pelo seu uso; ele também lhes fornece acesso aos projetos da Wikimedia em um volume e velocidade projetados para atender às suas necessidades de dados.”

Uma interpretação é que a Wikipédia se tornou infraestrutura para a economia da IA. Grandes modelos de linguagem dependem fortemente de quantidades massivas de informações limpas, escritas por humanos e atualizadas com frequência, e a Wikipédia está entre os repositórios mais confiáveis e legíveis por máquina já criados. Os próprios representantes da Wikimedia reconheceram a pressão que a coleta de dados por IA exerce sobre seus sistemas. “O conhecimento da Wikipédia para treinamento de IA aumentou a demanda por servidores e, consequentemente, os custos…” Assim, a Wikimedia está tentando garantir compensação pelo valor que as empresas de IA já extraíam gratuitamente. E suas parcerias podem representar um esforço para forçar a redistribuição num ecossistema já desigual.

A produção colaborativa e aberta de conhecimento tornou-se economicamente indispensável para os sistemas de IA.

O projeto Observatório (The Observatory), lançado pelo Instituto de Mídia Independente, se apresenta como uma “wiki” dedicada a conteúdo político e intelectual explicativo e atemporal. Em vez de publicar ensaios estáticos, o projeto visa criar guias continuamente atualizados que sintetizem o trabalho de acadêmicos, jornalistas e intelectuais públicos em textos explicativos acessíveis.O modelo se assemelha à Wikipédia não apenas estilisticamente, mas também estruturalmente. O conteúdo é modular, educativo, pesquisável, perene e otimizado para acessibilidade, em vez de permanência acadêmica. Na prática, isso significa traduzir trabalhos intelectuais densos em linguagem explicativa legível por máquina.

A relação do projeto com a IA é abordada apenas em conversas com potenciais colaboradores e escritores. É-lhes dito que os modelos de linguagem de IA favorecem exatamente esse tipo de conteúdo – estilo wiki, continuamente atualizado, explicativo e em prosa facilmente digerível – e que essa visibilidade dentro dos sistemas de IA constitui parte da exposição que os colaboradores receberão em troca de seu trabalho intelectual.

Além dos sistemas de IA se beneficiarem desse estilo de publicação, a capacidade de descoberta por IA parece estar conscientemente integrada à lógica e à proposta de valor da produção intelectual.A produção acadêmica tradicional depende de citações estáveis por meio de edições fixas e permanência em arquivos. Documentos perenes e dinâmicos complicam essa estrutura, pois os textos podem mudar com o tempo. Embora os autores possam receber créditos, a obra em si torna-se fluida. As citações tornam-se instáveis e a durabilidade histórica tradicionalmente associada à produção intelectual enfraquece. Sem mencionar que os assistentes de IA raramente citam suas fontes.

Isso cria uma assimetria. Os sistemas de IA se beneficiam justamente do conteúdo explicativo dinâmico e continuamente atualizado. Mas, para acadêmicos e escritores, o valor profissional de textos instáveis e constantemente reescritos pode ser consideravelmente menor do que o de publicações fixas com valor de citação duradouro e cujos leitores têm consciência de quem estão lendo. Ou, simplesmente, estão conscientes. É por isso que a questão do trabalho se torna ainda mais evidente quando o pagamento é substituído por promessas de visibilidade.

A visibilidade por meio de sistemas de IA é fundamentalmente diferente da leitura tradicional. Grandes modelos de linguagem frequentemente sintetizam informações sem preservar claramente a atribuição ou direcionar os usuários aos autores originais. Mesmo quando os sistemas de IA amplificam ideias indiretamente, o valor econômico resultante é capturado principalmente por plataformas tecnológicas, e não pelos trabalhadores intelectuais cujo trabalho aprimorou os resultados dos modelos. Essa estrutura editorial está alinhada às necessidades da indústria de IA.

O ecossistema de financiamento que envolve o Instituto de Mídia Independente (Independent Media Institute, ou IMI) complica ainda mais o cenário. Bancos de dados de organizações sem fins lucrativos mostram que o IMI recebeu financiamento substancial por meio de estruturas filantrópicas com Fundos Aconselhados por Doadores, principalmente a GS Donor Advised Philanthropy Fund.

Esse Fundo Filantrópico, anteriormente conhecido como Goldman Sachs Philanthropy, tornou-se um mecanismo influente na filantropia de elite, permitindo que doadores ricos recebam benefícios fiscais imediatos, ao mesmo tempo que protegem o fluxo de doações do escrutínio público. Naquele mesmo ano, um erro de divulgação do IRS (Serviço de Receita Interna Estadunidense) revelou involuntariamente vários dos principais contribuintes do Fundo Filantrópico Goldman Sachs, incluindo Steve Ballmer (ex-CEO da Microsoft), Laurene Powell Jobs (com ações significativas na Apple e na Disney) e Jan Koum (cofundador do WhatsApp). A opacidade não é acidental; o sigilo é uma das características institucionais que os fundos filantrópicos oferecem explicitamente. Consequentemente, a impossibilidade de estabelecer a intenção direta do doador não pode ser automaticamente considerada como evidência de que não existe alinhamento estrutural.

Novos incentivos sistêmicos estão surgindo. A economia da IA está recompensando a produção de conteúdo intelectual simplificado, estruturado e perene, otimizado para absorção por máquinas. Projetos de mídia sem fins lucrativos, iniciativas de conhecimento aberto, capital filantrópico e corporações de IA operam dentro desse mesmo ecossistema, mesmo que suas motivações sejam diferentes.

O que emerge é uma nova economia política da produção intelectual. Acadêmicos, jornalistas e pensadores públicos podem ser incentivados a reformular seus trabalhos em formatos compatíveis com IA, não porque esses formatos necessariamente atendam melhor aos leitores humanos, mas porque maximizam a descoberta, a circulação e a usabilidade por máquinas – um desdobramento da otimização para mecanismos de busca (SEO) do início dos anos 2000. Enquanto isso, os maiores ganhos econômicos podem não beneficiar os produtores de conhecimento, mas sim as empresas que constroem sistemas comerciais de IA sobre essa infraestrutura de conhecimento.

Ainda não se sabe se o trabalho intelectual na era da IA permanecerá um recurso público amplamente não remunerado ou se novos modelos de propriedade, remuneração e atribuição surgirão antes que a infraestrutura do conhecimento humano seja permanentemente absorvida pelas economias de máquinas.

 Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.

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