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  • Mirna Wabi-Sabi

Yoga as the Decolonial Attitude of the Human Body

By Mirna-Wabi-Sabi

Read this article in English at: A Beautiful Resistance

“Perdemos a ioga para o oeste, tudo bem. Ioga era uma atividade chata e passiva que as pessoas faziam de pijama. E aí os americanos se envolveram. E se tornou um esporte brutal.” (Zarna Garg) 

É verdade, parte da minha prática de ioga é abordar minha tendência de transformá-la num desafio radical ou numa competição acirrada contra mim mesma. Como ela disse, porém, está tudo bem. Os indianos sabem que não é do interesse de ninguém guardar a ioga ao ponto de ninguém no exterior poder praticá-la. Eles sabem que o ioga tem valor para a humanidade. Não é a única coisa de valor. Mas tem um imenso potencial para nutrir corpos e mentes.

Me fascina como a ioga pode alcançar até as pessoas menos espirituais. Ainda estou para conhecer alguém que pense que ioga e meditação são uma farsa. Ou que tratar a mente e o corpo dessa forma é errado. No entanto, ela foi proibida em vários lugares (como no Alabama), mas suspeito que isso seja um sinal da sua eficácia, e não do contrário.

Para quem não sabe, provavelmente não será uma surpresa descobrir que no período colonial britânico na Índia a ioga foi proibida. No primeiro encontro com os iogues, os europeus sentiram bastante repulsa pelo que não entendiam – como os iogues eram vistos pelos habitantes locais como iluminados, enquanto para eles parecia que essa condição era o resultado de algum tipo de ilusão. Não os comparar com os bruxos europeus da época foi, contudo, um sinal de respeito. (Página 36 de “Yoga Body” de Singleton, 2010.)

Para os britânicos, cuja forma de exercício era trabalhar, cavar buracos, brincar com armas e assim por diante, a Índia deve ter sido um espetáculo e tanto. Um cara nu, de cabelos compridos, coberto de cinzas, meditando com os braços erguidos debaixo de uma árvore. Outro em parada de mão por horas a fio, e alguns carregando correntes. Todos sendo elogiados pelos colegas. Chocante foi o quão doloroso deve ter sido ficar fixado naquelas posições nada naturais. Era uma forma de loucura, certamente.

“[O faquir-iogue] assume posições totalmente contrárias à atitude natural do corpo humano” (38).

De acordo com a tradição supremacista europeia, presumia-se que os iogues eram tudo menos “seres racionais” (37). Nenhuma distinção foi feita entre as diferentes “ordens mendicantes” (37), pois, aos olhos do britânico, todas eram vegetativas, vagabundas, preguiçosas ou mesmo vaidosas. Como tal, para os cristãos, as posturas de ioga tornaram-se símbolos de quão absurda era a espiritualidade indiana. 

À medida que a perspectiva ocidental era insidiosamente injetada na sociedade indiana, os iogues eram marginalizados e muitas vezes forçados a fazer de si próprios um espetáculo para a sua subsistência, o que consolidou ainda mais o estigma. Mas nem todos foram subjugados por essa artimanha dos protestantes. “Bandos altamente organizados de iogues militarizados” tornaram-se uma ameaça espetacular à ordem colonial, causando danos financeiros significativos à Companhia das Índias Orientais.

“A antipatia europeia pelos iogues não se devia apenas a sensibilidades morais ofendidas: os iogues também eram pessoas difíceis de pôr em ordem.” (39)

E foi então que a lei foi usada para acelerar a mudança cultural ocidentalizante que os britânicos precisavam para continuar a lucrar na região. A ioga foi proibida. Além de andar nu e portar uma arma, o que, segundo o autor de Yoga Body, era a estética desses soldados iogues. (40)

Apesar da marginalização e das proibições, durante os dois milênios e meio que os humanos praticam ioga (pelo menos), a prática continua a espalhar-se e a prosperar, compreensivelmente. Há uma ciência antiga nisso, que a ciência ocidental ainda está tentando compreender ou sistematizar.

Quando uma conexão entre ioga e medicina começou a ser feita no campo médico, possivelmente em 1850 pela publicação A Treatise on the Yoga Philosophy, irrompeu uma resistência desenfreada a ela, com queima de livros e tudo (52). De alguma forma, foi considerado ofensivo sugerir que a filosofia da ioga realmente correspondia à realidade da anatomia humana.

No entanto, a colonização deu origem a um estudo da ioga a partir de uma perspectiva miscigenada, literal e figurativamente, e já no primeiro encontro. Os anglo-indianos e os britânicos “indianizados” serviram de ponte entre a Índia e o Ocidente, e a influência fluiu em ambos os sentidos.

Poucos povos colonizados podem dizer isso sobre sua experiência com seu principal colonizador. A influência que o Brasil teve sobre Portugal, por exemplo, é incalculavelmente pequena em comparação com a influência deles sobre nós. Embora eu saiba que os poderes constituídos na Índia provavelmente adotaram algumas das piores características do modus operandi europeu, nomeadamente a intolerância étnica e religiosa, não posso deixar de observar com admiração a resistência da civilização indiana.

Apesar de ter uma prática espiritual distinta, tomo medidas para expressar meu respeito aos porta-vozes indianos do legado do ioga. Porque, sem eles, eu não estaria aqui colhendo os enormes benefícios desse conhecimento. É um pouco como citar suas fontes, em vez de plagiar.

A simbiose entre corpo e mente é destacada pelo ioga de uma forma que revela muito sobre quem somos, e também sobre o que estamos passando nesse momento – é filosófico porque é físico, e vice-versa.

Aqui estão alguns insights do dia a dia que a ioga me deu nas últimas semanas:

Aceitação.

De si, dos outros e do mundo. Mesmo que as pessoas e as situações possam nos irritar, ainda precisamos aceitar o que está acontecendo para lidar com isso de forma eficaz.

Poder.

É uma questão de disciplina e força. Não vamos tirar o poder de alguém ou de alguma coisa, vamos construí-lo para nós mesmos.

Paciência.

Apenas seja paciente. Algumas coisas levam tempo e melhoram com o tempo. Outras só precisam ser feitas, e a impaciência não ajudará a realizá-las.

Combata a hiperestimulação.

O tédio não é seu problema. Nessa era digital, somos constantemente bombardeados com conteúdo. A verdadeira ameaça à nossa satisfação não é o tédio. A necessidade de se entreter constantemente com conteúdo aleatório é a ameaça.

Você pode ser honesto sem ser cruel.

É o que é.

Qual a diferença entre “é o que é” e aceitação? Aceitação é abraçar situações, pessoas, onde você está e com quem. “É o que é” é uma aceitação da Verdade, num sentido amplo. Aceite o fato de que a Verdade será e deve ser revelada.

O amor é mais importante que a independência.

Ser financeiramente independente é um ótimo objetivo. Mas não à custa da formação de laços de amor, onde é natural confiar e contar um com o outro.

Não busque a perfeição.

Se esforce para melhorar.

Não há problema em cometer erros.

Então, também não há problema em cometer erros em público.

Não leve para o lado pessoal.

Mesmo que seja pessoal. Nada existe no vácuo e nada é para sempre.

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