Foreign flags in Copacabana
- Mirna Wabi-Sabi

- 43 minutes ago
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The demonstration in Rio reveals not only ideological alignments, but also the workings of an ecosystem that connects global finance, intellectual production, and political mobilization.
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Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026.
No dia seguinte ao assassinato do Aiatolá do Irã, a manifestação “Acorda, Brasil” com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, espalhou-se por Copacabana e outras vias pelo Brasil. No domingo, 1º de março de 2026, o grupo de manifestantes se reuniu na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Bolivar para protestar contra o governo federal e certos ministros. Enquanto as bandeiras estrangeiras não têm relação direta com a pauta do protesto, elas são usadas como símbolos ideológicos de alinhamento internacional, e esse alinhamento ocorre também no nível financeiro.
Convocada por lideranças da direita e divulgada intensamente nas redes sociais, a manifestação reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e teve como pauta central críticas ao governo de Lula e pedidos de anistia para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. O público no Rio foi relativamente pequeno, especialmente quando comparado com o pedido de autorização de interdição ao trânsito feito pela organização para a prefeitura municipal. O Diário Oficial do Rio relata o fechamento da praia inteira, para a concentração de por volta de 4,7 mil pessoas entre a Rua Bolívar e Barão de Ipanema.
O vereador Rafael Satiê formalizou o pedido de fechamento de ruas para viabilizar a manifestação em Copacabana em uma escala que indica expectativa de público elevado, com interdições amplas e por um período prolongado. Sua atuação política dialoga com o campo evangélico, pois ele se apresenta como pastor apesar de não divulgar de qual igreja. Porém, ele já demonstrou proximidade pública com a Igreja Universal do Reino de Deus, defendendo seus eventos e posicionando-se contra críticas à instituição. A Universal, por sua vez, acumula um histórico de denúncias de lavagem de dinheiro e evasão de divisas investigadas por autoridades no Brasil e no exterior, com acusações de uso de doações de fiéis multibilionárias em esquemas financeiros complexos.
Esse enquadramento ganha um contorno político mais explícito quando se observa que, na véspera do ato, ele publicou nas redes sociais que o aiatolá havia sido “abatido,” termo carregado de desumanização. Ao mesmo tempo, ele celebrava a ação dos Estados Unidos e de Israel, conectando sua atuação institucional na organização do espaço público a um posicionamento político-ideológico claro no debate internacional. Ou seja, essas bandeiras internacionais revelam a presença de redes transnacionais de ideias e financiamento que há décadas atravessam a política brasileira.
Think tanks e máquina global de influência
Os Estados Unidos possuem a maior estrutura de inteligência do mundo. Ela reúne quase dezenas de agências diferentes, incluindo a CIA, e opera com um orçamento anual superior a US$ 70 bilhões anuais. Desde a Guerra Fria, documentos desclassificados mostram que essas estruturas foram usadas não apenas para espionagem tradicional, mas também para operações de influência política em países considerados estratégicos.
A América Latina ocupa um lugar importante nesse histórico. Intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos em países como Chile, Guatemala, Nicarágua e Brasil, especialmente durante o século XX, já foram amplamente documentadas. O caso do golpe brasileiro é visto hoje como escancarado, mas até ele só foi confirmado por documentos liberados décadas depois.
No século XXI, os métodos se modernizaram. Influência política internacional nem sempre aparece na forma de golpes ou operações clandestinas. Ela costuma operar através de redes de instituições, fundações, think tanks e organizações civis.
Uma das principais redes internacionais desse tipo é a Atlas Network, organização sediada em Washington que conecta mais de 500 think tanks em cerca de 100 países. Fundada em 1981 pelo empresário britânico Antony Fisher, ela tem como objetivo promover políticas públicas ligadas a economia de mercado, redução do Estado e liberalização econômica. A organização oferece financiamento, treinamento, bolsas e programas educacionais para institutos parceiros ao redor do mundo.
No Brasil, uma das organizações associadas a essa rede é o Instituto Millenium, criado em 2005 pelo Paulo Guedes, et. al. O instituto se apresenta como um centro de estudos voltado à promoção de liberdade econômica, responsabilidade fiscal e democracia liberal. Suas atividades incluem publicação de artigos e análises, organização de eventos e debates, produção de vídeos institucionais, e programas de formação política para jovens lideranças.
Think tanks raramente sobrevivem apenas de doações individuais. Eles dependem de financiamento institucional, frequentemente vindo de empresas, fundações ou organizações internacionais. Como outros think tanks, o Instituto Millenium não fornece retorno financeiro a quem investe nele, pelo menos não diretamente. Seu objetivo é influenciar políticas públicas no Brasil, e a implementação dessas políticas pode ser lucrativa a longo prazo, oferecendo um bom retorno no investimento de uma entidade estrangeira como o governo dos Estados Unidos.
Arquivos do Instituto Millenium indicam apoio financeiro do braço de gestão financeira do Bank of America. (Algumas dessas páginas foram posteriormente removidas.)
O Bank of America, por sua vez, mantem uma parceria de longa data com a BlackRock, hoje considerada a maior administradora de ativos do planeta, com trilhões de dólares sob gestão. Tom Montag, ex-presidente do Bank of America, atuou no conselho de administração da BlackRock enquanto trabalhava no BofA. Além disso, por volta de 2 anos depois que Merrill Lynch “uniu forças” com a BlackRock, ela foi comprada pelo BofA.
A BlackRock também mantém relações próximas com o governo dos Estados Unidos e com a CIA. Durante a crise financeira de 2008 e a da pandemia em 2020, a empresa foi contratada pelo Federal Reserve para administrar programas de compra de ativos destinados a estabilizar os mercados. E diversos executivos da empresa circularam entre cargos no setor privado e posições no governo estadunidense, um fenômeno conhecido em Washington como “revolving door,” ou porta giratória. Thomas E. Donilon é um destes executivos. Como vice-presidente da BlackRock, ele foi membro do conselho administrativo da CIA por quase uma década, e é também membro do conselho de uma think thank chamada Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Internacionais).
Há um argumento a ser feito de que isso não significa que exista coordenação alguma entre empresas, think tanks e agências de inteligência. Mas um rastro indica que as redes institucionais que conectam finanças globais, política pública e produção intelectual são densas e interligadas. Não é de se surpreender que esse fenômeno de porta giratória gera preocupação, pois mostram que esses incentivos de carreira entre o setor público e privado podem moldar as escolhas políticas mesmo sem corrupção explícita. Favores para futuros empregadores e influência legislativa através de antigos colegas é um ambiente propício a conflitos de interesse.
Aí se encontra o cerne da Teoria Econômica da Regulação: Através dessa porta giratória, as agências reguladoras começam a servir aos interesses das indústrias que devem ser regulamentadas, em vez dos interesses do público. O Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, é um exemplo perfeito disso, tendo servido cargo publico como ministro, criado bancos e gestoras de investimento, assim como uma das principais think tanks liberais do Brasil.
Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026.
O ecossistema da mobilização
Enquanto think tanks produzem ideias e formam quadros políticos, outro tipo de organização atua na mobilização de rua. No Brasil, o movimento NasRuas é um desses grupos. Criado durante as mobilizações políticas da década passada, o movimento ganhou notoriedade organizando protestos contra o governo Dilma Rousseff e posteriormente participando de campanhas pró-impeachment. Grupos como este aplicaram estratégias inspiradas em campanhas políticas estadunidenses, incluindo o uso intensivo de redes sociais, publicidade digital segmentada, produção de conteúdo político viral, e articulação com influenciadores e páginas ideológicas.
Uma característica recorrente desses movimentos é o financiamento difuso. A associação Brasil NasRuas, por exemplo, não divulga de forma detalhada a origem de todos os seus doadores ou os valores arrecadados para campanhas específicas. Essa falta de transparência levou o movimento a aparecer em investigações judiciais como o Inquérito 4828 do STF, onde o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma série de diligências para investigar a organização e o financiamento de manifestações consideradas antidemocráticas. O resultado revelou o potencial da “existência de uma rede integralmente estruturada de comunicação virtual voltada tanto à sectarização da política quanto à desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos.”
Carla Zambelli, fundadora da Associação Brasil NasRuas, e Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, estiveram ligados principalmente porque faziam parte do mesmo projeto político durante o governo Bolsonaro, no qual Guedes era o responsável pela política econômica e Zambelli atuava como aliada no Congresso apoiando essa agenda. Ela foi investigada por diversos crimes, incluindo lavagem de dinheiro através da Associação que ela criou, o NasRuas, e hoje está presa.
Esse ecossistema costuma operar em três níveis. No topo estão instituições financeiras, fundações e redes internacionais que apoiam projetos intelectuais e educacionais. No meio estão think tanks, responsáveis por produzir conteúdo, pesquisas e programas de formação política. Na base aparecem movimentos de mobilização digital e organizações de rua, que transformam essas ideias em campanhas públicas, protestos e pressão política. Nem sempre existe coordenação explícita entre essas camadas. Mas frequentemente elas compartilham redes de financiamento, formação e circulação de ideias.
Diante desse cenário, a presença de bandeiras estrangeiras em manifestações políticas brasileiras ganha outro significado. Ela representa admiração cultural, alinhamento ideológico ou identificação geopolítica. Mas também pode indicar a existência de uma rede internacional de narrativas e verbas políticas. No protesto de 1º de março em Copacabana, esse símbolo apareceu de forma literal. Talvez fosse apenas um gesto espontâneo. Talvez fosse um sinal de algo maior.
Vivemos à mercê da mais ampla, influente, tecnológica e bem financiada infraestrutura de inteligência e de operações secretas da história do mundo. Neste contexto em que ideias e dinheiro circulam globalmente com a mesma velocidade que memes nas redes sociais, acreditar que a política brasileira existe isolada dessas redes pode ser, no mínimo, um pouco ingênuo.
De qualquer forma, é curioso que uma mobilização cercada de bandeiras internacionais e discursos neoliberais termine deixando como rastro online sua vaquinha “oficial,” criada quase 6 meses antes do evento, cujo endereço ainda anuncia que “o cachorro Bob precisa de cirurgia” porque “foi atropelado.”
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Mirna Wabi-Sabi é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.
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