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  • Por que o clássico 'A Revolução de uma Palha' do Fukuoka nunca foi publicado no Brasil? Até agora...

    Durante décadas, A Revolução de uma Palha (1975), um livro do microbiologista e agricultor japonês Masanobu Fukuoka, circulou no Brasil de forma extraoficial. A edição de Portugal, de uma editora que não existe mais chamada Via Óptima, se tornou a principal referência entre agroecologistas, permacultores, agricultores familiares, estudantes e leitores interessados em ecologia. Porém, a agência literária que representa a família de Fukuoka não reconhece essa edição portuguesa como legítima ou oficial. Em 2026, isso finalmente muda. Estamos preparando a primeira edição brasileira do livro que volta às raízes filosóficas e ao sentido que Fukuoka deu à ideia de agricultura natural. Quando “Natural” Virou “Selvagem” A edição portuguesa, que circula no Brasil em PDF até hoje, foi traduzida da edição francesa dos anos 80, publicada por Guy Trédaniel. Essa versão traduziu 自然農法, termo criado por Fukuoka, como agriculture sauvage (agricultura selvagem). E a edição portuguesa seguiu essa escolha. Fukuoka talvez rejeitasse essa perspectiva, às vezes descrevendo seu método como ‘semi-selvagem,’ mas sempre afirmando que o processo depende do entendimento do que é a natureza sem domesticação, para podermos saber quais ações devem ou não ser tomadas. Ele aprendeu isso cedo, dizendo que: “O problema, veja bem, era que eu não estava praticando agricultura natural, mas sim o que se poderia chamar de agricultura preguiçosa! (...) Aquelas árvores jovens tinham sido domesticadas, plantadas, podadas e cuidadas por seres humanos. As árvores tinham sido escravizadas pelos humanos, então não conseguiram sobreviver quando o suporte artificial fornecido pelos agricultores foi repentinamente removido.” (A Revolução de uma Palha) “O verdadeiro caminho para a agricultura natural exige que a pessoa saiba o que é a natureza inalterada, para que ela possa entender instintivamente o que precisa ser feito — e o que não deve ser feito — para trabalhar em harmonia com seus processos.” (Entrevista com o menino do arado: Masanobu Fukuoka) Ou seja, para Fukuoka, ‘natural’ era diferente de ‘sem cuidados.’ A harmonia não é alcançada com negligência. Qual é o problema com “Selvagem”? A palavra 自然 (shizen) em japonês traz um sentido filosófico ligado ao zen e ao taoismo. O fluxo autêntico da vida em equilíbrio decorre de enxergar a negociação entre Natureza e Sociedade não como um paradoxo ou contradição, mas como “um estado de espírito mais elevado. (…) As duas categorias são definidas como opostas, mas são necessárias uma à outra.” Já sauvage/selvagem carrega um legado colonial baseado na oposição entre civilizado e primitivo — um imaginário historicamente usado para julgar povos e culturas fora da Europa. Embora selvagem e primitivo possam ser ressignificados, a filosofia de Fukuoka não propõe uma agricultura que simplesmente nasce, cresce e vive sem cuidados especiais, nem rejeita os aprendizados da ciência moderna. Assim, traduzir shizen como “selvagem” revela a perspectiva cultural e epistemológica de seus tradutores, uma visão de mundo europeia que tem dificuldade em perceber os processos Naturais atravessando e integrando o processo Humano. Essa Nova Edição Nossa edição brasileira tem alguns compromissos fundamentais: Português brasileiro. Tradução baseada no inglês de Larry Korn, discípulo e tradutor oficial de Fukuoka. Reconhecimento da agência japonesa que representa a família do autor. Essa nova edição é uma responsabilidade ética com a obra de um dos pensadores ecológicos mais importantes do século XX. Por que Publicar Isso Agora? Porque Fukuoka é urgente. Enquanto o mundo discute transição ecológica, soberania alimentar, colapso climático e tecnologias rurais dependentes de petróleo, Fukuoka permanece um farol que nos lembra: Não existe agricultura saudável sem humildade diante da natureza. Não existe regeneração sem simplicidade. Não existe futuro sem solo vivo. 💡 Nos próximos meses, vamos compartilhar: Trechos inéditos da nova tradução. Traduções de entrevistas com Fukuoka. Novidades sobre a publicação e seu lançamento. Se você quer acompanhar esse processo e apoiar o projeto: inscreva-se no boletim e compartilhe. Vamos devolver Fukuoka ao Brasil com o respeito que ele merece. ________________ Mirna Wabi-Sabi, Diretora da Plataforma9.

  • As bandeiras estrangeiras em Copacabana

    Manifestação no Rio revela não apenas alinhamentos ideológicos, mas a atuação de um ecossistema que conecta finanças globais, produção intelectual e mobilização política. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. No dia seguinte ao assassinato do Aiatolá do Irã, a manifestação “Acorda, Brasil” com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, espalhou-se por Copacabana e outras vias pelo Brasil. No domingo, 1º de março de 2026, o grupo de manifestantes se reuniu na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Bolivar para protestar contra o governo federal e certos ministros. Enquanto as bandeiras estrangeiras não têm relação direta com a pauta do protesto, elas são usadas como símbolos ideológicos de alinhamento internacional, e esse alinhamento ocorre também no nível financeiro. Convocada por lideranças da direita e divulgada intensamente nas redes sociais, a manifestação reuniu apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e teve como pauta central críticas ao governo de Lula e pedidos de anistia para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. O público no Rio foi relativamente pequeno, especialmente quando comparado com o pedido de autorização de interdição ao trânsito feito pela organização para a prefeitura municipal. O Diário Oficial do Rio relata o fechamento da praia inteira, para a concentração de por volta de 4,7 mil pessoas  entre a Rua Bolívar e Barão de Ipanema. O vereador Rafael Satiê formalizou o pedido de fechamento de ruas para viabilizar a manifestação em Copacabana em uma escala que indica expectativa de público elevado, com interdições amplas e por um período prolongado. Sua atuação política dialoga com o campo evangélico, pois ele se apresenta como pastor apesar de não divulgar de qual igreja. Porém, ele já demonstrou proximidade pública com a Igreja Universal do Reino de Deus, defendendo seus eventos  e posicionando-se contra críticas à instituição . A Universal, por sua vez, acumula um histórico de denúncias de lavagem de dinheiro  e evasão de divisas investigadas por autoridades no Brasil e no exterior, com acusações de uso de doações de fiéis multibilionárias em esquemas financeiros complexos. Esse enquadramento ganha um contorno político mais explícito quando se observa que, na véspera do ato, ele publicou nas redes sociais que o aiatolá havia sido “ abatido ,” termo carregado de desumanização. Ao mesmo tempo, ele celebrava a ação dos Estados Unidos e de Israel, conectando sua atuação institucional na organização do espaço público a um posicionamento político-ideológico claro no debate internacional. Ou seja, essas bandeiras internacionais revelam a presença de redes transnacionais de ideias e financiamento que há décadas atravessam a política brasileira. Think tanks  e máquina global de influência Os Estados Unidos possuem a maior estrutura de inteligência do mundo. Ela reúne quase dezenas de agências diferentes, incluindo a CIA, e opera com um orçamento anual superior a US$ 70 bilhões anuais . Desde a Guerra Fria, documentos desclassificados mostram que essas estruturas foram usadas não apenas para espionagem tradicional, mas também para operações de influência política em países considerados estratégicos. A América Latina ocupa um lugar importante nesse histórico. Intervenções diretas ou indiretas dos Estados Unidos em países como Chile, Guatemala, Nicarágua e Brasil, especialmente durante o século XX, já foram amplamente documentadas. O caso do golpe brasileiro é visto hoje como escancarado, mas até ele só foi confirmado por documentos liberados décadas depois. No século XXI, os métodos se modernizaram. Influência política internacional nem sempre  aparece na forma de golpes ou operações clandestinas. Ela costuma operar através de redes de instituições, fundações, think tanks  e organizações civis. Uma das principais redes internacionais desse tipo é a Atlas Network, organização sediada em Washington que conecta mais de 500 think tanks  em cerca de 100 países . Fundada em 1981 pelo empresário britânico Antony Fisher, ela tem como objetivo promover políticas públicas ligadas a economia de mercado, redução do Estado e liberalização econômica. A organização oferece financiamento, treinamento, bolsas e programas educacionais para institutos parceiros ao redor do mundo. No Brasil, uma das organizações associadas a essa rede é o Instituto Millenium, criado em 2005 pelo Paulo Guedes, et. al. O instituto se apresenta como um centro de estudos voltado à promoção de liberdade econômica, responsabilidade fiscal e democracia liberal. Suas atividades incluem publicação de artigos e análises, organização de eventos e debates, produção de vídeos institucionais, e programas de formação política para jovens lideranças. Think tanks  raramente sobrevivem apenas de doações individuais. Eles dependem de financiamento institucional, frequentemente vindo de empresas, fundações ou organizações internacionais. Como outros think tanks , o Instituto Millenium não fornece retorno financeiro a quem investe nele, pelo menos não diretamente. Seu objetivo é influenciar políticas públicas no Brasil, e a implementação dessas políticas pode ser lucrativa a longo prazo, oferecendo um bom retorno no investimento de uma entidade estrangeira como o governo dos Estados Unidos. Arquivos do Instituto Millenium indicam apoio financeiro do braço de gestão financeira do Bank of America . (Algumas dessas páginas foram posteriormente removidas.) O Bank of America , por sua vez, mantem uma parceria de longa data com a BlackRock , hoje considerada a maior administradora de ativos  do planeta, com trilhões de dólares sob gestão. Tom Montag, ex-presidente do Bank of America , atuou no conselho de administração da BlackRock   enquanto trabalhava no BofA . Além disso, por volta de 2 anos depois que Merrill Lynch “ uniu forças ” com a BlackRock , ela foi comprada pelo BofA. A BlackRock  também mantém relações próximas com o governo dos Estados Unidos e com a CIA. Durante a crise financeira de 2008 e a da pandemia em 2020, a empresa foi contratada pelo Federal Reserve  para administrar programas de compra de ativos destinados a estabilizar os mercados. E diversos executivos da empresa circularam entre cargos no setor privado e posições no governo estadunidense, um fenômeno conhecido em Washington como “ revolving door ,” ou porta giratória. Thomas E. Donilon é um destes executivos. Como vice-presidente da BlackRock , ele foi membro do conselho administrativo da CIA por quase uma década, e é também membro do conselho de uma think thank  chamada Council on Foreign Relations  (Conselho de Relações Internacionais). Há um argumento a ser feito de que isso não significa que exista coordenação alguma entre empresas, think tanks e agências de inteligência. Mas um rastro indica que as redes institucionais que conectam finanças globais, política pública e produção intelectual são densas e interligadas. Não é de se surpreender que esse fenômeno de porta giratória gera preocupação, pois mostram que esses incentivos de carreira entre o setor público e privado podem moldar as escolhas políticas mesmo sem corrupção explícita. Favores para futuros empregadores e influência legislativa através de antigos colegas é um ambiente propício a conflitos de interesse. Aí se encontra o cerne da Teoria Econômica da Regulação : Através dessa porta giratória, as agências reguladoras começam a servir aos interesses das indústrias que devem ser regulamentadas, em vez dos interesses do público. O Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, é um exemplo perfeito disso, tendo servido cargo publico como ministro, criado bancos e gestoras de investimento, assim como uma das principais think tanks  liberais do Brasil. Fotos por Fabio Teixeira, Copacabana, Março 1, 2026. O ecossistema da mobilização Enquanto think tanks  produzem ideias e formam quadros políticos, outro tipo de organização atua na mobilização de rua. No Brasil, o movimento NasRuas é um desses grupos. Criado durante as mobilizações políticas da década passada, o movimento ganhou notoriedade organizando protestos contra o governo Dilma Rousseff e posteriormente participando de campanhas pró-impeachment. Grupos como este aplicaram estratégias inspiradas em campanhas políticas estadunidenses , incluindo o uso intensivo de redes sociais, publicidade digital segmentada, produção de conteúdo político viral, e articulação com influenciadores e páginas ideológicas. Uma característica recorrente desses movimentos é o financiamento difuso. A associação Brasil NasRuas, por exemplo, não divulga de forma detalhada a origem de todos os seus doadores ou os valores arrecadados para campanhas específicas. Essa falta de transparência levou o movimento a aparecer em investigações judiciais como o Inquérito 4828 do STF, onde o ministro Alexandre de Moraes autorizou uma série de diligências para investigar a organização e o financiamento de manifestações consideradas antidemocráticas. O resultado revelou o potencial da “existência de uma rede integralmente estruturada de comunicação virtual voltada tanto à sectarização da política quanto à desestabilização do regime democrático para auferir ganhos econômicos diretos e políticos indiretos.” Carla Zambelli, fundadora da Associação Brasil NasRuas, e Paulo Guedes, fundador do Instituto Millennium, estiveram ligados principalmente porque faziam parte do mesmo projeto político durante o governo Bolsonaro, no qual Guedes era o responsável pela política econômica e Zambelli atuava como aliada no Congresso apoiando essa agenda. Ela foi investigada por diversos crimes, incluindo lavagem de dinheiro  através da Associação que ela criou, o NasRuas, e hoje está presa. Esse ecossistema costuma operar em três níveis. No topo estão instituições financeiras, fundações e redes internacionais que apoiam projetos intelectuais e educacionais. No meio estão think tanks , responsáveis por produzir conteúdo, pesquisas e programas de formação política. Na base aparecem movimentos de mobilização digital e organizações de rua, que transformam essas ideias em campanhas públicas, protestos e pressão política. Nem sempre existe coordenação explícita entre essas camadas. Mas frequentemente elas compartilham redes de financiamento, formação e circulação de ideias. Diante desse cenário, a presença de bandeiras estrangeiras em manifestações políticas brasileiras ganha outro significado. Ela representa admiração cultural, alinhamento ideológico ou identificação geopolítica. Mas também pode indicar a existência de uma rede internacional de narrativas e verbas políticas. No protesto de 1º de março em Copacabana, esse símbolo apareceu de forma literal. Talvez fosse apenas um gesto espontâneo. Talvez fosse um sinal de algo maior. Vivemos à mercê da mais ampla, influente, tecnológica e bem financiada infraestrutura de inteligência e de operações secretas da história do mundo. Neste contexto em que ideias e dinheiro circulam globalmente com a mesma velocidade que memes nas redes sociais, acreditar que a política brasileira existe isolada dessas redes pode ser, no mínimo, um pouco ingênuo. De qualquer forma, é curioso que uma mobilização cercada de bandeiras internacionais e discursos neoliberais termine deixando como rastro online sua vaquinha “oficial,” criada quase 6 meses antes do evento, cujo endereço ainda anuncia que “o cachorro Bob precisa de cirurgia” porque “foi atropelado.”  _____ Mirna Wabi-Sabi  é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.  _____ Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique .

  • Operações secretas, consentimento fabricado e a glória do Irã

    Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos operou não apenas por meio da diplomacia e da guerra declarada, mas também por meio de uma vasta arquitetura de operações secretas. Da América Latina à África e ao Oriente Médio, a atividade de inteligência frequentemente precedeu e preparou a justificativa pública para ações militares ostensivas. Compreender os eventos contemporâneos em torno do Irã exige situá-los dentro de um padrão histórico mais amplo de desestabilização secreta, manipulação narrativa e guerra ideológica funcionando em conjunto. Operações secretas como ferramenta de longa data da política externa dos EUA A intervenção secreta tem sido um componente estrutural da política externa dos EUA pelo menos desde a Guerra Fria. Documentos desclassificados mostram que a CIA orquestrou operações secretas para moldar resultados políticos no exterior, incluindo esforços para remover ou minar governos percebidos como hostis aos interesses dos EUA. Por exemplo, o  Projeto FUBELT  envolveu esforços secretos da CIA para impedir que o presidente chileno Salvador Allende governasse e para promover o golpe militar que acabou instalando Augusto Pinochet. Os programas secretos dos EUA no  Congo  buscavam depor o primeiro-ministro Patrice Lumumba e instalar uma liderança mais pró-Ocidente, em meio a temores de influência e controle soviéticos sobre recursos estratégicos. As operações não se limitavam à mudança de regime no exterior. Programas como a  Operação CHAOS  monitoravam movimentos políticos e dissidências, ilustrando como a lógica da inteligência enquadrava os próprios protestos como um campo de batalha geopolítico. Esses casos demonstram uma doutrina recorrente de ação secreta como um estágio inicial de gestão geopolítica, moldando as condições antes que a intervenção aberta se torne politicamente viável. Ironicamente, após décadas de interferência em regimes globais e em meio  a assassinatos cometidos pelo ICE , a narrativa dominante propagada por Washington é a de que o Irã precisa de uma mudança de regime porque reprime a dissidência. O Irã e o papel das operações de inteligência O Irã há muito tempo é um palco central para a competição entre serviços de inteligência. Analistas reconhecem a profunda infiltração da inteligência israelense no Irã. Relatórios indicam que agências de inteligência israelenses realizaram operações de sabotagem, assassinatos e campanhas de infiltração, incluindo o  contrabando de drones  e armas para o território iraniano e o uso de redes locais para atacar infraestrutura militar. Em relação aos recentes movimentos de protesto, alguns analistas de defesa argumentam que agências de inteligência estrangeiras exploram ou até mesmo alimentam  surtos internos . Especialistas citados pela Al Jazeera sugerem que agentes israelenses provavelmente atuam durante os protestos, coletando informações e amplificando as manifestações por meio de apoio à comunicação e estratégias de exposição. Isso não significa que os protestos não tenham queixas internas genuínas. O Irã tem vivenciado dificuldades econômicas reais e repressão política. Em vez disso, a doutrina de inteligência historicamente trata a agitação como uma oportunidade, demonstrando total desrespeito pela população local, já que ela exacerba a violência e a instabilidade para criar brechas para operações de influência. Ação secreta como relações públicas para a guerra A atividade secreta muitas vezes funciona como preparação política. As operações de inteligência enfraquecem materialmente os adversários, ao mesmo tempo que moldam narrativas que fazem com que uma ação militar posterior pareça necessária ou inevitável. A  Operação Mongoose  da CIA contra Cuba combinou explicitamente campanhas de propaganda com redes de inteligência e planejamento paramilitar, concebidos para gerar apoio à mudança de regime. A integração de propaganda e ação secreta ilustra como os objetivos militares são precedidos pela gestão da percepção. Reportagens recentes sobre os ataques EUA-Israel contra o Irã mostram líderes apelando abertamente à população iraniana para que  se levante  contra o governo, enquanto o planejamento militar já estava em andamento há meses. Essa mensagem reflete um padrão familiar de intervenção disfarçada de libertação. Interesses estratégicos por trás da desestabilização do Irã Os interesses geopolíticos, em oposição à preocupação humanitária, são os principais motivadores do confronto ocidental com o Irã. O Irã ocupa  uma posição estratégica  singular, pois detém grandes reservas de petróleo e está situado ao lado do Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O controle sobre a região e suas estruturas de alianças, portanto, influencia os cálculos políticos. As  sanções dos EUA  contra as redes petrolíferas e as capacidades militares iranianas visam explicitamente restringir o poder econômico e regional do Irã. Os analistas consistentemente enquadram o Irã como um rival estratégico, e não como uma crise humanitária que exige proteção. Nesse contexto, as alegações de que a intervenção busca principalmente defender civis iranianos revelam-se secundárias a objetivos mais amplos de segurança e economia. A propaganda como arma de guerra A teoria do modelo de propaganda de Noam Chomsky e Edward Herman, desenvolvida em  Manufacturing Consent  (A Fabricação do Consenso), explica como os sistemas de mídia podem ajudar a gerar aprovação pública para agendas de política externa. O modelo argumenta que pressões estruturais – propriedade, dependência da publicidade, fornecimento de informações a instituições oficiais e enquadramento ideológico – moldam a cobertura jornalística e fabricam o consentimento para os interesses das elites. Chomsky argumentou que a mídia distingue entre vítimas “dignas” e “indignas” dependendo do alinhamento geopolítico, amplificando os abusos cometidos por inimigos e minimizando aqueles cometidos por aliados. Essa assimetria ajuda a normalizar políticas intervencionistas. Após a Guerra Fria, estudiosos influenciados por essa estrutura observam que a “guerra ao terror” substituiu o anticomunismo como filtro ideológico dominante, posicionando as sociedades muçulmanas como principais objetos de medo e suspeita. Islamofobia e a fabricação da desumanização O discurso da mídia ocidental mostra estereótipos persistentes de muçulmanos e do Islã nas narrativas jornalísticas. Uma análise  baseada em corpus  de jornais britânicos e americanos identificou enquadramentos de propaganda recorrentes que retratam muçulmanos por meio de imagens ameaçadoras e centradas em conflitos. Estudos sobre mídias sociais  após ataques terroristas também encontraram ondas substanciais de discurso culpando o Islã coletivamente, originárias de países ocidentais. A islamofobia, portanto, funciona não apenas como preconceito, mas como um ambiente narrativo político no qual a violência militar se torna mais fácil de justificar. Quando populações são retratadas como inerentemente perigosas ou atrasadas, a guerra parece defensiva em vez de agressiva. Diáspora e reações conflitantes Muçulmanos e iranianos na diáspora enfrentam um dilema profundo. Muitos se opõem ao governo do Irã, mas permanecem cautelosos com a intervenção estrangeira de estados historicamente hostis à sua região e ao seu povo. As evidências não sustentam uma narrativa simplista de que ‘os iranianos estão celebrando’ a intervenção ocidental ou israelense. Embora algumas vozes da oposição acolham a pressão sobre o regime, as reações são diversas e profundamente divididas, refletindo o medo da guerra, o nacionalismo e a desconfiança em relação às potências estrangeiras. A dissidência interna e a intervenção externa são vivenciadas como realidades separadas, e não como causas unificadas. Essa ambiguidade gera tensão emocional e política na oposição ao autoritarismo e na resistência à dominação geopolítica. A compreensão limitada do ocidente sobre o mundo muçulmano Estudiosos da mídia e do discurso argumentam repetidamente que o público ocidental se depara com as sociedades muçulmanas principalmente por meio de narrativas de conflito desvinculadas do contexto cultural. O modelo de propaganda sugere que incentivos estruturais favorecem uma simplificação moral em detrimento de uma compreensão credível. Práticas condenadas no exterior são frequentemente julgadas de forma diferente quando ocorrem em democracias ocidentais, uma discrepância que Chomsky destacou em comparações da cobertura midiática de estados aliados versus estados adversários. Portanto, vale a pena questionar a autoridade moral de nações predominantemente cristãs, como os EUA, que condenam a repressão por parte de estados do mundo muçulmano, enquanto empregam policiamento agressivo, vigilância, normas ou legislações sexistas e políticas coercitivas em âmbito nacional ou internacional. Uma Ode ao Irã Além da geopolítica, existe uma civilização muito mais antiga que os conflitos modernos. O Irã é herdeiro das tradições persas que moldaram a matemática, a poesia, a arquitetura, a filosofia e a música ao longo dos séculos. Suas principais cidades carregam camadas de história que conectam impérios antigos à vida contemporânea. A língua persa, cuja  literatura  é uma das mais antigas, influenciou a estética global, desde a poesia mística até a pintura e as tradições da música clássica. O Irã também possui uma longa e complexa história de  movimentos políticos feministas . Essas lutas são frequentemente apropriadas tanto pelas elites nacionais quanto por potências estrangeiras que buscam justificativas morais para a intervenção. Quando a libertação das mulheres se torna um slogan dissociado das próprias vozes iranianas, corremos o risco de transformar lutas genuínas em meras estratégias de marketing geopolítico. Erradicando a supremacia A verdadeira solidariedade exige escuta, e não imposição de soluções. Políticas formuladas como resgate podem reproduzir uma hierarquia antiga que posiciona o Ocidente como civilizacionalmente superior e as sociedades muçulmanas como objetos a serem corrigidos ou controlados. Respeitar os iranianos significa reconhecer sua capacidade de ação, sua diversidade de pensamento político e seu direito de determinar seu próprio futuro. Qualquer coisa inferior a isso corre o risco de repetir a mesma lógica que justificou a intervenção, a dominação e a violência por gerações. O caminho a seguir não é a dominação disfarçada de libertação, mas a humildade – o reconhecimento de que a compreensão deve preceder a ação e que a dignidade não pode ser conquistada por bombas ou propaganda. Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique . Mirna Wabi-Sabi  é escritora brasileira, editora da Sul Books e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos publicados pela editora P9.

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  • P9 | Media Literacy

    Media Literacy Course, free online course. What is Media Literacy? Once we have the ability to read and write (which is literacy), we must acquire the ability to consume and produce media in platforms with massive audiences (media literacy). PT Media Literacy What is Media Literacy? The same way we learn how to read and write text, we can learn how to interpret online content. Reading and writing are, in one way, tools for consuming and producing content, but in private. Media is the means of mass dissemination of this content. And to communicate with large amounts of people, several different avenues can be used, like radio, print publications, and the internet. Internet media is disseminated through websites, and these websites are platforms for media content. This content has an address: a link. Once we have the ability to read and write (which is literacy), we have the ability to consume and produce media in platforms with massive audiences (media literacy). Media literacy isn’t widely taught, though, not just in the internet era. We aren’t generally taught how books are published, radios are broadcasted, or how websites are built. This knowledge was often reserved for professionals in these fields, until social media democratized mass distribution of personal content (for better or for worse). Now more than ever, media literacy is a necessity for all people, of all ages. Below you will find a short course, consisting of a checklist on what to look for when consuming online content. The output of those who filled out this checklist is presented collectively in the ‘results’ section, with graphs, maps, and databases. Through this process, we train ourselves to look for relevant information, and see our individual consumption of online content in a broader context – the global online context in which we find ourselves. FORM(https://docs.google.com/forms/u/1/d/e/1FAIpQLScEaYh4xIe92A-2c0nYMhGj_kNFA1GDIAJpG7VIsurRLVySiw/viewform) RESULTS(https://datastudio.google.com/u/0/reporting/bcfed446-d684-4dc5-93a7-50f609a0e146) THE HISTORY Since the invention of the German printing press in the 15th century, which birthed the method of reproducing media on a large scale and revolutionized the consumption of information in the West, there has been false news. It was very common for these false news to be directed towards a marginalized contingent of society, such as Jewish, indigenous and black peoples. Sometimes, atrocities committed by ‘undesirable’ members of society were made up. Other times, atrocities committed by ‘desirable’ members of society were omitted. In other words, deceptive media is one that not only lies, but also omits truthful information. Because of the continued presence of falsehood in the media over the past five centuries, many journalists like to say that ‘fake news’ is not new – but it is. The term ‘fake news’ says more about the media age in which we find ourselves, than the practice of disseminating misinformation. False information has always circulated through media, but today it circulates in a particular way, with the use of new technological tools, such as social media boosts and bots. In the first half of the 20th century, the first Brazilian ‘media baron’, Assis Chateaubriand, threatened to ruin the reputations of people and companies with false news in exchange for money (essentially blackmail). Today, technological advances significantly changed the format in which these false news get disseminated, and by whom. What’s App, Facebook, Twitter, Telegram, Instagram are explosive and unprecedented formats of disseminating media. Most people are able to produce media content, and most of those who can, do it constantly. When we see news on one of these platforms, we also see who and how many people reacted to it, which influences not only what we feel about the news, but also about the others who consume it – all instantly. We can believe or stop believing something depending on who or how many people ‘shared it’ or ‘liked it’. In terms of ‘who’, it’s enough for a famous or credible person to believe and ‘share it’ for “the bewildered herd” (From Chomsky in Media Control) to follow. This is where ‘influencers’ come in. It terms of ‘how many’, a high number of shares helps the post reach a wider audience by appearing relevant to social media algorithms and to the people seeing it. That’s where bots come in. Here (https://www.nytimes.com/2004/05/26/world/from-the-editors-the-times-and-iraq.html)is an example of false news. Here (Abcnews.com.co) is an example of ‘fake news.’ One comes from a platform that still exists and lied. It’s an example of bad journalism. The other (Abcnews.com.co) doesn’t even exist as a platform, it pretends to be something it isn’t. We would not find this link by searching for it on our own, it is created to be believable on Facebook, as an ad. ‘Fake news’ sites have the specific purpose of buying ads on social media. [Note that I didn’t use a hyperlink for the fake news site, because I don’t want it as a backlink or as part of their PageRank.] THE TRUTH The starting point of truth is our subjectivity, it depends on each one’s perspective. All media produced by someone is a result of that person’s subjectivity. It’s necessary to be in contact with our own subjectivity, in order to be able to discern the veracity of what others produce. More important than finding answers, is asking the right questions. It’s okay if you can’t find the answers to all questions. The important thing is the process of research, because sometimes not finding the answer is valuable information in itself. Is the platform being as transparent as it could be? Lie or Deception? A lie is when, for example, an author invents information. An author can be deceptive or misleading without inventing anything. They may select truthful information, omit another piece of information, place these pieces out of context, and use sensational tools to provoke certain emotions in the audience. Generally, media literacy courses focus on how to identify objective and neutral journalistic language. This, however, does not exist. It is not always easy to discern sensational and misleading tools from effective or creative methods of delivering information to an audience. Some identifiable tools, even if subjective, are: – Dramatic music. – Shocking images and words. – Exclamation points. – Titles that cause fear, and pass on little information. – Titles that speak directly to you. Focusing on a guideline or checklist on how to identify ‘fake news’ can make us even more vulnerable to them. These guidelines can become new, effective tools for their dissemination. For example, if I say to you: “only trust newspapers that do not use exclamation points on titles,” this guideline can be used by any deceitful platform to gain your trust. A much stronger tool than memorizing identifiable ‘fake news’ characteristics is to have a clear sense of your own values, and political goals. ‘Fake News’, ‘bots’ and people with an interest in using these tools to steer the behavior of a wide audience, target ‘influenceable’ and undecided people. That doesn’t necessarily mean people who are on the fence about a subject. Dogmatic people are as easy to influence, because their reference of truth is outside themselves. That’s why the search for your own truth is fundamental to make ‘fake news’ ineffective, which is the most effective way to combat it. Thought, speech, and action should be one, as should your ideas, what you share with others and how you live your life. This is an exercise in balance – being open to learning new things, while not losing sight of your own truth and lived experiences. THE AUDIENCE When we produce media, we think of a target audience so that we can make it effective in delivering the message. A newspaper, for example, has an audience, and the values of each one of them exist in symbiosis. The media literacy process involves the analysis of the values of the institutions and/or people that produce media, based on the recognition of our own values as an audience. Many people who produce media on the internet are not honest, or transparent, about what their values and intentions are. There are media tactics that aim to manipulate a specific audience, that use tools that provoke targeted emotions. Art also aims to provoke emotions; academic writing is intended to be verifiable and validated. These are tools that can be used in ways that are subtle, exaggerated, effective, manipulative, untruthful, misleading, etc. Our analysis of how these tools are used depends on our understanding of how we use them ourselves, and why. What constitutes content accessible to the general public? For content to be accessible, it needs to be able to reach the audience it sets out to reach. For example, for a video to reach an Instagram audience, it needs to last a maximum of one minute, because this is (or was) the limitation of the platform visited by that audience. How to identify whether a text aims to reach a lay audience, and not just a specialized one? A person who is not specialized and has no interest in specializing in a certain area of study will spend less time reading about this subject. So, for texts to reach this audience, they must be short. Short online texts do not need an abstract, summary, numbered sections, etc. A long text is not necessarily inaccessible. Another way of identifying the level of accessibility is to recognize excessive citations/references, usually redirecting the reader to other, even longer, academic texts. Academic requirements reflect the audience that the author intended to reach. Specific acronyms and terms have the same function. To reach a lay audience, terms must be defined, and acronyms that aren’t widespread in popular culture must be spelled out the first time they are mentioned. FBI or CIA, for example, are not acronyms that need to be spelled out, but NCI does. GLOSSARY Audience (in media) – “A media audience may be as small as one person reading a magazine or as large as billions of people around the world watching events, like 9/11, unfold live on television. Audiences have a complex relationship with the products they consume.” (New Zealand’s Ministry of Education) ‘Bot’ (on social media) – “is an agent that communicates more or less autonomously on social media, often with the task of influencing the course of discussion and/or the opinions of its readers. It is related to chatbots but mostly only uses rather simple interactions or no reactivity at all.” (Wikipedia) Dogma – “a principle or set of principles laid down by an authority as incontrovertibly true.” (Oxford Languages) ‘Fake News’ – “is a form of news consisting of deliberate disinformation or hoaxes spread via traditional news media or online social media.” (Wikipedia) Media – “the main means of mass communication (broadcasting, publishing, and the Internet) regarded collectively.” (Oxford Languages) Sensationalism – “(especially in journalism) the use of exciting or shocking stories or language at the expense of accuracy, in order to provoke public interest or excitement.” (Oxford Languages) Social Media – “websites and applications that enable users to create and share content or to participate in social networking.” (Oxford Languages) Form Results

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    Neste podcast, Mirna Wabi-Sabi, idealizadora e fundadora da iniciativa, conversa com pessoas colaboradoras e convidadas sobre diversos artigos e projetos da Plataforma9. EN Colaborações

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