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  • O Capitalismo na Era Digital dos Modelos de Linguagem

    "É difícil aceitar que nos esforçamos para ‘ganhar a vida’ num mercado global que é um Casino. Em vez disso, é fácil abraçar ideias de gurus de negócios e dicas financeiras genéricas que não abordam a questão fundamental de como alcançar uma existência autêntica e gratificante nesse mundo." Por Mirna Wabi-Sabi Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique Brasil Empresas sempre procuram estar na vanguarda do marketing digital e, a cada dia, uma nova estratégia de negócio é lançada. A sobrevivência do capitalismo depende da crença de que os nossos empreendimentos serão bem-sucedidos se dedicarmos muitas horas e aprendermos a utilizar todas essas ferramentas digitais, que estão em constante mudança e multiplicação. O Search Engine Optimization (SEO) tem sido a ferramenta queridinha do marketing digital nos últimos anos, até ser, desde 2019, proverbialmente substituído pelo BERT, um modelo de linguagem do Google que depende menos de palavras-chave e termos, interpretando mais o contexto. Mas quando uma ferramenta é democratizada (ou seja, tornada amplamente acessível), ela, em essência, deixa de ser eficaz. O mercado capitalista, assim como as pesquisas no Google, precisa da competição por lugares limitados no topo. Essa corrida para aparecer no topo da 1ª página de uma busca no google é interessante, pois ou você precisa se inserir em uma tendência pesquisável, ou fabricar uma. De qualquer forma, não é um processo científico fiável onde os contributos garantem o resultado, embora o mito da meritocracia capitalista se baseie na crença de que seja. Na realidade, o sucesso de um empreendimento comercial é uma aposta que requer muito investimento inicial, antes de haver (e se houver) algum retorno. No pôquer, a pessoa jogadora precisa começar colocando dinheiro no jogo. Depois disso, há um cálculo cuidadoso das probabilidades de vitória e como lidar com essas probabilidades dependendo do adversário e da equidade do jogador. Só porque existe cálculo de probabilidade não significa que não seja uma aposta, e o mesmo vale para o marketing digital e o sucesso de um empreendimento capitalista. Quanto mais dinheiro o empreendimento tiver para entrar no jogo, maior será a probabilidade de os cálculos eventualmente darem lucro e também da sorte acontecer. É difícil aceitar que nos esforçamos para ‘ganhar a vida’ num mercado global que é um Casino. Em vez disso, é fácil abraçar ideias de gurus de negócios e dicas financeiras genéricas que não abordam a questão fundamental de como alcançar uma existência autêntica e gratificante nesse mundo. Quando acreditamos que existe uma fórmula e que o sucesso é todo mérito pessoal, é mais provável que continuemos tentando reproduzir o que vimos funcionar para os outros, e isso está dentro da categoria de seguir tendências. Pesquise no Google como ser relevante no Google (Modelos de Linguagem) O modelo BERT é aquele que prevê o final da sua frase no Gmail. Se você digitar “Como vo”, a tecla ‘tab’ adicionará “cê está?”, e “Espero”, ‘tab’, “que sim”, etc. Os resultados dessa função de preenchimento automático de texto não são apenas previsíveis e pouco originais, mas também nem sempre são factuais. As pesquisas do Google, que utilizam esse modelo, interpretam o contexto e também prevêem e geram conteúdo com base em enormes conjuntos de dados. Para ter uma classificação elevada em uma pesquisa com esse método, precisamos ser um acompanhamento previsível de um termo chave ou pergunta feita no Google. O que acabamos obtendo é uma grande quantidade de conteúdo e empreendimentos comerciais que aproveitam uma onda de pesquisas populares – todos eles competindo por um lugar de destaque. Aqui você encontrará muito clickbait e, em geral, produtos e conteúdos pouco originais, que seguem uma fórmula de marketing digital para assuntos que já provaram ser populares. Um exemplo disso pode ser visto na dica da “Amazing Money Marketer” Sherri Norris, sobre como ganhar 90 mil vendendo cadernos através do Amazon KDP. Nesse reel, Sherri mostra como um caderno preto vendeu 6 mil unidades por cerca de 15 dólares, e, com uma “matemática simples”, podemos ver que a pessoa faturou (6000x15) 90k. Em seguida, ela explica como criar um PDF no Canva, carregá-lo no Amazon KDP e acumular riqueza. Seu cálculo não leva em conta a parcela considerável dos lucros que vai para a Amazon, para impressão, envio e manuseio. Acima de tudo, não leva em conta o fato de que, sem um investimento inicial considerável em marketing, você simplesmente não venderá um único exemplar, enterrado sob um mercado hipersaturado de cadernos na Amazon. Isso foi apontado por pessoas nos comentários, que tentaram e falharam, e a solução apresentada a eles foi “você tem que alterar sua estratégia de SEO”, ou “Faça uma pesquisa na internet sobre como comercializar livros de baixo conteúdo do KDP”. Para empreendimentos de acompanhamento de tendências que seguem essa lógica, isso significa que não existe uma ciência exata para se destacar na multidão ou permanecer relevante no longo prazo. Mais importante ainda, essa lógica não aborda a realidade de que, para ganhar dinheiro, precisamos já de ter tempo e dinheiro. Nas próprias palavras de Sherri Norris, em seu aviso de isenção de responsabilidade em letras miúdas em seu “site”: “Conforme estipulado por lei, não podemos e não oferecemos nenhuma garantia sobre sua capacidade de obter resultados ou ganhar dinheiro com nossos cursos, eventos, programa de afiliados ou treinamentos em vídeo gratuitos. A pessoa comum que compra qualquer informação sobre “como fazer” [“how to”] obtém pouco ou nenhum resultado.” (ênfase adicionada.) Existem várias contas que se descrevem como “ajudando pessoas comuns a ganhar dinheiro online” ou “em casa”, muitas com o mesmo texto de isenção de responsabilidade. Esses gurus da renda passiva estão espalhados pela Internet, apenas os de maior destaque enfrentam consequências jurídicas. A tendência Stanley Quencher Tumbler No Brasil, a Croácia só é pesquisada no Google no contexto de jogos de futebol. Otimizar as pesquisas de uma publicação sobre um terremoto naquela região implicaria reestruturá-la como clickbait – ou, de alguma forma, fabricar demanda para o tema de terremotos nos Balcãs. Quando se trata de produto, ser o único do gênero só é uma vantagem quando um número suficiente de pessoas o conhece e o procura. Não há maneira mais segura de estar no topo de uma pesquisa no Google do que ter milhares de pessoas pesquisando algo que só você fornece. A questão é como levar as pessoas a fazer isso. A mania do Stanley Quencher Tumbler é um exemplo extremo de como fabricar demanda por um produto que apenas uma empresa oferece. Embora o conceito de garrafa térmica não seja exclusivo da Stanley, eles conseguiram aumentar o desejo do público por uma versão que só eles fornecem. O resultado é uma explosão de tendência do tópico “Quencher” no Google (ou um aumento impressionante nas pesquisas de termos relacionados como “Stanley” e “Tumbler”) de novembro de 2023 até hoje, para um produto que foi lançado em 2016. Alguns atribuem esse fenômeno a uma colaboração com o site The Buy Guide (TBG), que, segundo suas fundadoras, foi criado em oposição à tendência de influenciadores do Instagram. As três mães do lar brancas transformaram seu hobby de comprar presentes online em um empreendimento de sucesso, porque estavam “cansadas de ver pessoas perfeitas e fotogênicas vendendo produtos de uso diário no Instagram”. Essas mulheres meio que lideraram esse estilo particular de influência, que rejeita as personalidades ultra curadas das influenciadoras nas mídias sociais, em favor de postagens elegantes e bem pesquisadas centradas em produtos. A colaboração da TBG com a Stanley desencadeou uma tendência que alguns dizem ter saído do controle. Há violência e crime nas lojas quando novas cores são lançadas nos EUA, as redes sociais estão inundadas de colecionadores ávidos e os copos da Stanley já estão surgindo nas praias e bares brasileiros. Nem a Stanley nem a TBG seguiram um guia de marketing “como fazer” (“how to”) para alcançar vendas como essas. Ambos foram inovadores nos seus respectivos campos de produtos e serviços, mas isso por si só não explica o seu sucesso. Eles também estavam na vanguarda de uma nova estratégia de marketing. A Stanley se autodenomina a inventora da garrafa de aço térmica a vácuo em 1913, mas o conceito da garrafa térmica a vácuo foi desenvolvido por James Dewar na Escócia algumas décadas antes. Só em 2020 é que o novo presidente da Stanley, Terence Reilly, implementou claramente a estratégia de marketing do seu tempo na Crocs – utilizando “criadores de gosto” (“tastemakers”) para aumentar a demanda por uma estética de marca única. Hoje em dia, tastemakers podem ser encontrados no TikTok, e é por isso que ele deu um carro novo para uma TikToker. Essa cultura empresarial é descrita por uma funcionária como “oportunismo visionário”, onde uma oportunidade de tendência é encontrada em territórios ainda não explorados. O oportunismo visionário requer dinheiro. Um empreendedor já precisa ter dinheiro para investir em testes de estratégias de marketing que ninguém experimentou antes. Para pessoas sem dinheiro para esse investimento inicial, “how to’s” e SEO, nas palavras da Amazing Money Marketer, “obtêm pouco ou nenhum resultado”. Essas ferramentas são uma espécie de folclore que transmite os costumes capitalistas à próxima geração. Mas, como vimos nas tentativas fúteis de criminalizar a negociação com informações privilegiadas (insider trading), o mercado global não é apenas mais uma aposta do que uma ciência, é uma aposta fraudulenta. Será que esses contos e costumes deveriam continuar a ser preservados? O sucesso de um negócio, tal como a estabilidade do mercado global, não se baseia na fiabilidade dos modelos linguísticos e na previsibilidade da demanda do consumidor. Baseia-se no capital inicial, cálculos de aposta e muita sorte. O fato de que o capitalismo ainda é descrito como o único sistema que funciona, onde o sucesso financeiro se baseia apenas no mérito, parece uma tentativa desesperada de enxergar ordem no completo caos e incerteza do nosso mundo moderno. ____ Mirna Wabi-Sabi é fundadora e editora-chefe da Plataforma9, autora dos livros Anarco-Transcriação e Finge Que Isso é um Celular.

  • Cedemos poder aos Autoritários quando tememos a Autoria

    “É privilégio dos Deuses não querer nada, e dos homens endeusados quererem pouco” (Diógenes) Anarco-transcriação, meu primeiro livro, é sobre como criar quando você não é ou não deseja ser um Deus, ou um homem endeusado. As fontes nele contidas vêm do contexto de publicação de um projeto de tradução, que é minha área profissional, mas os princípios podem ser aplicados a qualquer projeto que você precise (ou queira) realizar com mais pessoas do que apenas você mesma. Nenhum ser humano é invencível – muita coisa está fora do nosso controle e não há escudo contra a repreensão. Mas na busca pela invencibilidade, uma de duas ferramentas é geralmente empregada – controle forçado/coercitivo de outros, ou auto-isenção de responsabilidade e iniciativa. A primeira, sobre exercer controle, com a qual estamos bem familiarizados no discurso político global, orbita percepções de Autoridade, Autoritarismo e Hierarquia. A tentativa de se tornar invencível através do uso da força é a base para a criação de Estados-nação e das suas forças armadas. A segunda me interessa mais porque é pouco reconhecida. É quando nos esquivamos de responsabilidade, delegando responsabilidades a outras pessoas. O medo do fracasso ou do escrutínio não só é um obstáculo maior à autogestão do que 'as Autoridades', mas é também o método através do qual entregamos Poder às forças autoritárias. Dessa forma, nenhuma das nossas criações é vencível, porque nenhuma dessas criações são realmente nossas. O medo da autogestão é o que leva alguns de nós a pensar que votar em representantes é a forma mais importante de atuação política, com queixas ocasionais quando, inevitável e repetidamente, os testemunhamos sendo incompetentes. Vemos os políticos falharem, isso nos frustra, no entanto, nos sentimos seguros por não ter que assumir, por conta própria, certas responsabilidades, e arriscar falhar também. Na minha experiência como editora, tem sido fácil identificar quando uma escritora tem medo de fazer sua própria declaração, se escondendo atrás de citações após citações de outros escritores, nem mesmo assumindo autoria sobre sua curadoria. Essa é a diferença entre dizer “Esta é a declaração da minha tese, e estas são as fontes que utilizo para sustentar esta afirmação”, versus, “Esta tese é sobre o que estes pensadores afirmaram”. Quando se trata de gestão (de uma comunidade, organização ou projeto grande), executar por conta própria (autogestão) significa assumir responsabilidades e tomar decisões com outros, em vez de delegar a responsabilidade de uma decisão a uma figura de autoridade. Isso não significa nos transformar em uma Autoridade, mas assumir a responsabilidade por certas decisões e ações em projetos específicos. Eu chamo isso de Autoria. Nas estruturas sociais aspirantes ao Anarquismo, há uma aversão ideológica à Autoridade, mas isso não significa que a dinâmica hierárquica não se forme insidiosamente. Pessoas que desejam o poder e pessoas que o temem talvez se unam facilmente, mas o conflito também pode surgir aqui. Isso acontece porque as pessoas que temem a autogestão não têm necessariamente medo de criticar aqueles que governam ativamente. Existem lutas pelo poder entre pessoas que querem governar todos, e ciclos intermináveis ​​onde nada acontece entre aqueles que temem assumir responsabilidades. Todas as configurações estão sujeitas a confusão. A autoria é uma prática anarquista, porque exige e é um exercício de autogestão. Quando escrevi: “se você precisar de ajuda com seu projeto, ele não é mais só seu” estava pensando na autoria literal de um livro, ao mesmo tempo que colaboramos com designers, gráficas e todas as outras facetas de uma publicação. No capitalismo, precisar de ajuda para um projeto não significa compartilhar a autoria pelo simples fato de que o dinheiro pode comprar os frutos do trabalho; como tal, tudo o que eu compro, torna-se meu. O homem acumulando riqueza é o homem se tornando semelhante a um Deus e querendo pouco. Ainda não se sabe onde o sistema capitalista funciona. No contexto das publicações anarquistas impressas, a negociação da autoria é uma prática contínua inevitavelmente atravessada pela questão do dinheiro. Normalmente, quem tem o dinheiro é quem tem a Autoridade. Mas existem inúmeras oportunidades para encorajar o exercício da autogestão em grandes projetos com orçamentos limitados. Como eu disse antes no livro, não há garantias. Não existe um caminho estabelecido por um ancião anarquista a quem delegamos a responsabilidade de decidir o que precisa ser feito, a quem delegamos a responsabilidade de definir o que é a coisa “correta” a fazer. O exercício da autogestão exige coragem individual, talvez hercúlea. A coragem necessária para se 'autogovernar' não tem a ver com a adoção da revolução armada ou de qualquer outro método de força. Acredito que se os grupos revolucionários tivessem o apoio total da população, as instituições autoritárias que devem ser minadas poderiam simplesmente ser feitas obsoletas. E que se não tiverem o apoio total da população e optarem por assumir o poder à força, é apenas uma questão de tempo até que esses grupos também sejam sujeitos a resistência de movimentos revolucionários. Uma revolução da narrativa, para mim, é uma forma de alcançar um consentimento mútuo duradouro entre uma população, e isso exige que a população seja politicamente alfabetizada em autogestão. Alguns dizem que isso é inalcançável, mas considerando a quantidade escandalosa de riqueza, recursos e tecnologias que as potências ocidentais acumularam ao longo do último século, me parece que essa impossibilidade reside mais na falta de disposição do que na falta de opções. Se, neste ponto do texto, você continua esperando que eu te diga quais são essas opções e como as praticar, o conceito de autogestão ainda não está claro para você. Uma das críticas mais comuns ao Anarquismo como ideologia é que ele não define claramente como será uma sociedade anarquista – quais instituições farão o que, e serão dirigidas por quem, como... Alguns anarquistas se envolveram nisso, o que apenas frustra ainda mais as pessoas que desejam orientações claras. Isso se deve a uma razão simples: a autogestão não pode depender da intervenção de uma autoridade externa. Em outras palavras, se você precisa ser dito o que escrever, você não tem a autoria. Aqui, não estamos discutindo a criatividade. Muitas pessoas criativas têm dificuldade em criar projetos ou em abster-se de delegar responsabilidades a figuras de autoridade. Estamos falando de um estado de espírito em que escolhemos buscar possibilidades. Normalmente, isso acontece quando se testemunham eventos revoltantes liderados por forças autoritárias; assim, somos motivados a pensar em alternativas, estratégias de resistência. Idealmente, o horror e o desastre não deveriam ser uma necessidade nesse processo, mas a situação é ainda mais terrível. A tragédia constante não tem sido um motivador suficiente. Então, o que será suficiente? ______ Mirna Wabi Sabi é escritora brasileira, editora do site Gods and Radicals e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos da editora P9.

  • ‘Guerra Civil’ expõe os EUA como vencíveis

    Por Mirna Wabi-Sabi Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique Estrelando Wagner Moura, o filme sinaliza que, mesmo repleta de armas militares pesadas, a narrativa revela-se o elemento mais mortal da história Este mês, o filme Guerra Civil estreou nos cinemas com uma mensagem de nuança, mas clara: a “América” como nós a conhecemos pode, muito bem, chegar ao fim em breve. A escalação da estrela brasileira Wagner Moura é calculada, destacando a ambiguidade e a complexidade das relações raciais nos EUA. O personagem brilhantemente aterrorizante de Jesse Plemons coloca uma questão real ao personagem de Moura quando confrontado com a informação de que eles são “jornalistas americanos”, questionando “que tipo de americano você é, centro, sul?” Não é fácil colocar os brasileiros na narrativa norte-americana sobre o que são os “latinos”. Sendo a população não-hispânica mais substancial da América do Sul, tudo o que um supremacista “americano” precisa saber é que não somos brancos. A narrativa, porém, é uma arma de guerra poderosa, se não a mais poderosa de todas. Há tremenda violência física no filme, como é esperado na guerra. Isso sinaliza duas coisas. Uma delas é: qual é a sensação de testemunhar o horror da guerra, que está atualmente em curso no mundo, mas em vez disso em solo estadunidense? E a segunda é que, mesmo repleta de armas militares pesadas, a narrativa revela-se o elemento mais mortal. A população dos Estados Unidos está dessensibilizada à brutalidade daquilo que o seu governo endossa e perpetra em outros países. Não é horrível testemunhar a destruição de tudo o que você ama? Ver entes queridos morrerem, as suas instituições mais poderosas tornarem-se obsoletas e o seu futuro ser interrompido; é isso que este filme explora. O mais interessante é que o filme explora a dificuldade de abraçar uma narrativa coerente que explique toda essa aniquilação, ou que de alguma forma justifique o derramamento de sangue. Enquanto o presidente continua a espalhar falsidades ao público, soldados supremacistas desprezam (e matam) qualquer um que não tenha nascido e sido criado nos Estados Unidos da América, e os revolucionários simplesmente matam qualquer um que esteja ativamente tentando matá-los. De certa forma, é tão simples quanto isso. Mas, ao mesmo tempo, há pouca ou nenhuma explicação para a violência. Os filmes anteriores de Wagner Moura no Brasil foram notoriamente politicamente ambíguos, e esse segue o exemplo. Ele nunca demonstrou interesse em fazer propaganda esquerdista simplista, mas considera absolutamente necessário desencadear um debate sobre o absurdo das situações políticas em que nos encontramos. Mesmo que isso signifique deixar espaço para interpretações políticas opostas dessas histórias. Não há melhor maneira de transmitir essa nuança de posição do que através do trabalho de jornalistas impossivelmente imparciais. A forma como os jornalistas constroem a narrativa baseia-se na crença de que ela deriva de um ponto de vista neutro. Em teoria, o jornalismo conta a história, não influencia nem endossa os acontecimentos que relata. Esse filme pode não afirmar explicitamente que a Casa Branca deveria ser destruída, mas procura mostrar como ela pode sim ser obliterada. A justificativa para isso poderia ser simplesmente que toda a guerra decretada e executada no estrangeiro acaba chegando nas portas de nossas casas. A personagem de Kirsten Dunst descreve isso como o propósito fracassado de seu trabalho como fotógrafa de guerra internacional – foi um aviso ignorado em casa. Portanto, o jornalismo tem um propósito político, porque sem propósito ninguém arriscaria a vida para fazê-lo. Dominar a arte de criar uma narrativa convincente é demorado, útil, poderoso e consideravelmente mais desafiador quando se busca a verdade. Nunca será uma verdade imutável, porque é uma construção. Mas é verdadeira para alguma coisa; valores, objetivos honestos ou um propósito transparente. O filme Guerra Civil mostra o que pode acontecer quando negligenciamos esses objetivos, perdemos a clareza desses valores e desistimos do propósito pelo qual fazemos o que fazemos. A forma como interpretamos acontecimentos ou justificativas para ações está diretamente ligada à narrativa construída em torno deles. Essa narrativa não é a única e não é suprema. Ela foi criada por alguém com um propósito. Escolhemos, conscientemente ou não, adotar uma narrativa um em detrimento de qualquer outra. A primeira cena de Guerra Civil é uma representação de como a narrativa que a Casa Branca profere, do excepcionalismo norte-americano, já não é mais convincente – nem mesmo para o presidente, cuja função é vender a história. No centro da disputa política, que descamba para a guerra em solo estadunidense, está o fato de que os estadunidenses deixaram de acreditar na imagem da “América” como invencível. Essa mudança na narrativa é o que leva as forças revolucionárias armadas a assumir o controle. No filme, não precisamos saber quem são esses revolucionários, ou qual presidência está supostamente sendo representada. O que importa é o quão frágeis realmente são os Estados Unidos da América, a terra da liberdade. No final, há uma explicação simples para tudo o que acontece: se você é implacavelmente atacado, o que mais há a fazer senão revidar? _________ Mirna Wabi Sabi é escritora, editora, e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos da editora P9.

  • Arquivos da Plataforma9

    [Artigos arquivados da Plataforma9] Justiça e jornalismo nas Américas Buala (Portugal) Aprendendo a se mobilizar em tempos de repressão, crises climáticas e guerras A Inimiga da Rainha Uma história de deslocamento das mulheres não-brancas da Vila Mimosa LavraPalavra Comida e abrigo A Terra é Redonda Mirna Wabi-Sabi, fundadora da Plataforma9, nas plataformas: A Inimiga da Rainha Agência de notícias das favelas Agência de notícias anarquistas

  • A tragédia do Museu Nacional começou muito antes do incêndio

    O país inteiro ficou perplexo ao ver o Museu Nacional literalmente em chamas, como se fosse nossa vez de sermos destruídos pelos alienígenas do “Independence Day”. Quando acabou, oscilamos entre emoções de raiva e tristeza, lamentando a perda de objetos insubstituíveis e 200 anos de trabalho de muitas pessoas no incêndio. Fomos descuidados com nossa história material e irresponsáveis com a preservação de nossa memória desde sempre que este museu existe, por que estamos chateados agora? Nossa indignação com o incêndio no Museu Nacional parece vir da vergonha de ter falhado em alcançar um padrão europeu de possuir História. Escrito por Mirna Wabi-Sabi Leia no Jornalistas Livres

  • Cracolândia na Maré: a vida e o uso de crack no Rio de Janeiro

    Se levarmos a perspectiva sobre autonomia e dependência em consideração ao olhar para usuários de crack na cracolândia, desenvolveremos uma compreensão mais refinada das causas por trás do chamado “vício incapacitante”. Na cracolândia, a substância em si não é o que causa crime, miséria, pobreza e assim por diante. Se fosse, a “guerra às drogas” teria sido mais eficaz, pois se propõe erradicar as substâncias por meio de intimidação de usuários e traficantes. Impossibilitar ou dificultar o acesso às drogas não resolve o problema de falta de moradia, baixa autoestima, escassez de opções profissionais, falta de acesso à educação enriquecedora e até a uma dieta saudável. A causa por trás da dependência ao crack é, no entanto, o fracasso da sociedade em fornecer um leque mais amplo de oportunidades. Em outras palavras, o problema é a nossa incapacidade de oferecer opções para essas pessoas, e a chance de poder escolher e poder contar com o que é oferecido. Texto: Hannah Vasconcellos e Mirna Wabi-Sabi Fotos: Fábio Teixeira Leia aqui: Agência Pública Midia Ninja LavraPalavra

  • Por que ler Tudo Que É Sagrado É Profanado

    Por Thiago Sá Talvez a melhor maneira de escrever algo sobre Tudo que é sagrado é profanado – uma introdução pagã ao marxismo e sobre a experiência de lê-lo e de traduzi-lo seja citando um trecho em que minha própria relação com o livro foi profundamente definida: o momento, diferente para cada pessoa, do “ah, então é isso”! Para mim, esse momento-chave é a perseguição entre Ceridwen e Taliesin, pois é aí, nas transformações e contradições constantes entre os dois personagens, que o autor demonstra toda a força do materialismo histórico-dialético na (re)construção de uma relação de mundo novamente encantada, porém jamais alienada. As contradições do próprio Capital parecem aproximar-se cada vez mais do seu limite. Entre uma pandemia de proporções históricas inéditas e o acirramento de uma crise econômica que vem se arrastando desde 2008, parece difícil acreditar que uma “normalidade”, mesmo a normalidade assassina do próprio Capitalismo, possa ser recuperada. No entanto, e isso é algo em que precisamos pensar, e pensar de maneira coletiva, esse limite das contradições do Capital lhe são agora impostas sobretudo por todas as cadeias vivas de seres não-humanos, de tudo aquilo que o nosso mundo moderno se acostumou a chamar de “Natureza” e que o capitalismo expropriou e segue tentando expropriar. Na realidade, se existe algo que uma perspectiva animista, “pagã”, pode nos oferecer, e esse é o objetivo também desse livro, é a possibilidade de compreender o Capitalismo nas suas relações de exploração e expropriação como mais amplas do que apenas o mundo humano. O trabalho do geógrafo Jason W. Moore, por exemplo, aponta para a relação direta entre expropriação de povos indígenas e populações tradicionais e a própria destruição ambiental que a acompanha: a destruição da amazônia afeta a própria teia da vida local, da qual participam populações indígenas, plantas, pássaros, onças e espíritos – mesmo que estes últimos venham ao nosso conhecimento apenas através dos próprios indígenas. O que se expropria e se explora, portanto, não se resume ao humano, e o humano não tem, necessariamente a centralidade desse sofrimento. O ponto, claro, não é abrir um debate ou uma disputa para decidir “quem sofre mais”, se humanos ou não-humanos, se trabalhadores explorados ou se camponeses expropriados. O ponto, um ponto que o animismo nos ajuda a reconhecer, é tentar encontrar zonas fracas, contradições, nas violências do capitalismo não apenas contra nós, humanos urbanos, para que possamos tecer alianças contra um inimigo comum. Além disso, este é um livro que busca fazer uma ligação extremamente necessária entre duas esferas da nossa existência que estão, há muitos séculos, artificialmente separadas: a da espiritualidade e a da nossa atuação política e social. Como se não bastasse uma certa influência perniciosa do protestantismo europeu, de enclausurar a experiência espiritual e religiosa no exclusivamente privado, doméstico e individual, ainda por cima parece que a modernidade está condenada há séculos a ser ou ateia ou cristã. Tudo aquilo que escapa a esses dois polos (que muitas vezes são indissociáveis, se percebermos que o humanismo ateu é a promessa da nova humanidade cristã realizada através da razão iluminista) é empurrado para as margens da razão e, por consequência, da nossa atuação política: é a religião dos “outros”, das “minorias”, dos “supersticiosos”, dos “ainda não esclarecidos”. No entanto, acredito que o esforço em se falar de política, e especificamente de marxismo, através de termos pagãos nos relembra que, em primeiro lugar, espiritualidade ou religião não precisam ser restringidos estritamente ao “ser”: ser ateu, ser cristão, ser candomblecista, ser espírita etc – a questão não é colocar uma nova opção no cardápio da nossa espiritualidade moderna esburacada, mas sim se permitir considerar nossa atuação política e social também através da espiritualidade, mesmo que não seja a espiritualidade a qual estamos acostumados. Em segundo lugar, nos convida a considerar essas espiritualidades “estranhas” à racionalidade moderna como perspectivas de atuação, como armas para nosso fazer social, como lições valiosas à nossa existência concreta. Daí a importância de um mito irlandês antigo, no caso desse exemplo do livro que escolhi. Daí também, trazendo para nosso contexto brasileiro, ler e levar a sério a maneira como Davi Kopenawa, em A Queda do Céu, descreve a civilização capitalista: o povo da mercadoria, cujo pensamento foi esfumaçado pela fumaça da epidemia e do metal. O convite que gostaria de fazer com esse livro, com essa tradução para o português de Tudo que é sagrado é profanado, é o de permitir que nossa crítica ao capitalismo e nossa atuação política aprendam também o que o animismo, o paganismo, a feitiçaria, a “superstição”, a macumba, enfim, tudo aquilo que foi marginalizado pela razão europeia tem a nos ensinar. No mínimo, porque nós, como trabalhadoras e trabalhadores, também fomos, por essa mesma razão, por essa mesma práxis, marginalizados. No entanto, se os limites do Capital são alcançados antes por uma crise ambiental, uma pandemia ou um cataclisma climático, e não pela culminância da luta de classes, como se imaginava no início da civilização industrial do século XIX. E se nós, da classe trabalhadora, não soubermos aproveitar esse momento para nos organizarmos, nada garante que um futuro sem capitalismo seja um futuro sem classes, sem exploração. O capitalismo é também, ele mesmo, a forma historicamente atual da opressão, da exploração e da expropriação de uma maioria por uma minoria. Assim como já houve (e em muitos lugares, ainda há) escravidão, novas formas de exploração, que não dependam do trabalho assalariado, podem surgir se permitirmos que os atuais donos do poder sigam ilesos. Tudo Que É Sagrado É Profanado Disponível Aqui

  • Entrevista com Noam Chomsky: o maior desafio ao poder estatal

    De acordo com Noam Chomsky: Os governos do Reino Unido e dos EUA estão usando o tratamento horrendo de whistleblowers como Chelsea Manning e editores como Julian Assange, como exemplo. O tratamento de Julian Assange é um dos casos mais extremos disso. Independentemente de suas opiniões pessoais sobre as decisões dele como editor, é preciso entender que esse caso é simbólico de até que ponto o Estado irá para esmagar a dissidência. A saúde e o bem-estar do fundador do WikiLeaks estão sendo destruídos, descaradamente e à vista do público, por ousar revelar a verdade sobre o governo dos EUA e seus inúmeros crimes de guerra no Iraque, Afeganistão e em todo o mundo. É responsabilidade de jornalistas, e das pessoas que se preocupam com a verdade e que expõem os abusos do poder estatal e corporativo, defender Assange e qualquer pessoa que coloque suas vidas e liberdade em risco. Se já houve um tempo para falar a verdade ao poder, é agora. Entrevista com Noam Chomsky por Patrick Farnsworth Edição e tradução: Mirna Wabi-Sabi Ilustração: Casandra Mae Leia na Le Monde Diplomatique

  • Mirna Wabi-Sabi: Precisamos reavaliar o que significa passar fome hoje em dia

    "Toda a campanha que visa 'alimentar o mundo' precisa reavaliar o que significa passar fome hoje em dia, agora que comida se tornou acessível, mas mata." (Artigo por Mirna Wabi-Sabi.) A decisão de demitir Mandetta por conta de medidas de distanciamento social é preocupante, mas não surpreendente. De acordo com o presidente, deixar a população trabalhar significa cuidar de seu bem-estar, algo que um Ministro da Saúde centrista não é bem equipado para supervisionar. O ex-bancário Rodrigo Maia, uma pessoa em teoria mais preparada para lidar com questões econômicas, fala de redistribuição de riqueza, enquanto Bolsonaro o ataca por não ter um coração verde e amarelo. Uma resposta mais “patriota” a essa pandemia seria acabar com o distanciamento e reduzir impostos para empresas que contratarem jovens (de 18 a 29 anos) e pessoas com mais de 55 anos. Em outras palavras, botar as pessoas para trabalhar. Escrito por Mirna Wabi-Sabi Leia no Jornalistas Livres

  • Justiça e jornalismo nas Américas

    "Por um lado, o jornalismo das mídias sociais pode visibilizar atrocidades e causar um alvoroço pela justiça social, mas, por outro, é ainda mais eficaz para nos distrair deles e garantir que o alvoroço seja estéril." Por que o jornalismo da rede social não foi mais eficaz em assegurar a justiça social? Alguns argumentam que foi. Ela conecta as pessoas, viraliza a resistência contra o racismo e é útil juridicamente – porque mostra como os relatos policiais nem sempre correspondem às evidências amplamente divulgadas pela população. De fato, as evidências que levam ao clamor público online têm resultados concretos em certos casos e podem impedir a impunidade, como vimos recentemente no caso Ahmaud Arbery nos Estados Unidos. “Demorou dois meses, um vídeo vazado e um clamor público” (Washington Post) para que uma prisão acontecesse. Mas, mesmo com a evidência explícita do que aconteceu circulando nas redes sociais, muitos ainda argumentam que esse caso não evidência a violência racializada presente em todo o país. Desde o fim da Guerra Civil nos EUA, há uma tendência de lidar com a violência racial como casos isolados, até quando ela começou a se manifestar de forma organizada através do Ku Klux Klan. Então, até que ponto essas novas tecnologias conseguem abalar as estruturas racistas da nossa sociedade? Escrito por Mirna Wabi-Sabi Leia aqui: Le Monde Diplomatique Buala (Portugal)

  • Além da periferia da pele: Uma entrevista com Silvia Federici

    Esta entrevista foi originalmente lançada no podcast Last Born In The Wilderness. Silvia Federici revisou a transcrição antes da publicação, e com suas contribuições, o texto foi editado para maior clareza e extensão. Esta tradução inédita é de Mirna Wabi-Sabi e foi produzida pelo coletivo Plataforma 9 para a Le Monde Diplomatique Brasil. O que é o “corpo” no capitalismo? De acordo com Silvia Federici, quando falamos de corporeidade, como nosso entendimento do “eu” em relação ao nosso corpo é redefinido, reduzido e mutilado sob a lógica do capital e as imposições do estado? Embora as respostas para essas perguntas sejam relevantes para quem trabalha no capitalismo, elas têm peso e ressonância específicos para aqueles que mais sofreram com esse sistema global — as mulheres. Entrevistador: Patrick Farnsworth Tradução: Mirna Wabi-Sabi Leia na Le Monde Diplomatique Brasil

  • O apagamento da história preta em favor da branca não se limita aos EUA

    História preta: Ao longo dos últimos quatro meses, o fotógrafo Fabio Teixeira acompanhou o trabalho de um menino de 14 anos, Josué Vicente Pereira (apelidado de "Fumaça"), no Cemitério do Caju. O ensaio fotográfico resultante, denominado Entre a Cruz e a Infância, mostra a criança a limpar os túmulos, a pintar cruzes e a trocar flores. Ele faz esse trabalho desde os 7 anos em troca de gorjetas das famílias que visitam. Durante a pandemia de coronavírus, sua renda (da qual seus irmãos mais novos também dependem) caiu significativamente, mas ele continua a trabalhar mesmo com um risco enorme de infecção por Covid-19. [...] Os monumentos de “grandes estadistas” podem apagar a história preta não só dos EUA, mas de toda a diáspora africana no mundo. Escrito por Mirna Wabi-Sabi Fotografado por Fabio Teixeira Leia na Le Monde Diplomatique

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