Os ultra ricos sonham com unicórnios da Fintech


“A América Latina é conhecida por seus estilos de dança mambo e salsa, porém, há algo mais agitando a região”… (Salas, 2022)

Alguma coisa boa poderia vir depois dessa abertura?

FINTECH.

Fintech é a abreviação de Tecnologia Financeira, e os investidores afirmam que será a solução para a desigualdade econômica. Inclui serviços bancários online, criptomoedas, crowdfunding, aplicativos de compras de ações, pagamentos móveis e assim por diante, como ferramentas para “inclusão financeira” de pessoas economicamente marginalizadas. Os ultra ricos têm a capacidade de convencer a si mesmos, e aos que os cercam, de que o que as pessoas pobres precisam para sair da pobreza é algo que um empreendedor pode oferecer. E o que é mais agitado na área de empreendedorismo do que gigantes da tecnologia no Silicone Valley?

Novos aplicativos e invenções bancárias online estão sendo vendidos na América Latina como a solução para todos os nossos problemas financeiros — tornando as transações mais rápidas e baratas — como se o problema nas finanças de pessoas pobres fosse a falta de ferramentas para administrar o dinheiro, e não a falta de dinheiro.

Este mês, a Forbes.com publicou um artigo esperançoso sobre como a fintech pode ser uma solução para a desigualdade de renda chamado “Fintech avança na América Latina” (Fintech Leaps Forward In Latin America), escrito por Sean Salas, CEO de uma empresa de serviços financeiros online com sede em Los Angeles. A Camino Financial, sua empresa, tem um site que proíbe visitas da minha região do Brasil — meu endereço IP está bloqueado, mas uma VPN anula a proibição.

De acordo com o Departamento do Tesouro dos EUA, empresas de serviços financeiros na Internet, como a dele, “desenvolveram procedimentos de bloqueio de endereço de protocolo de Internet (IP)” para abordar sem sucesso os “riscos de conformidade da empresa.” A proibição de endereços IP de certas regiões geográficas pode ser feita se eles quiserem cumprir políticas de sanção dos EUA ou “satisfazer seus requisitos de diligência prévia” (Departamento do Tesouro dos EUA, 2004).

Ou seja, o homem que escreveu para o site da Forbes sobre o potencial revolucionário da fintech na América Latina também é CEO de uma empresa financeira que proíbe visitantes online de determinados locais da América Latina. De todas as pessoas, ele sabe de primeira mão como a internet, especificamente os serviços financeiros baseados na internet, tem um potencial severo de se tornar inacessível, restritivo e caro – assim como os bancos já são.

“Cinco bancos controlam mais de 80% de todos os produtos financeiros do Brasil. Juntos, esses bancos se tornaram os mais lucrativos do mundo. Se você ver as taxas de juros e taxas que os consumidores pagam por esses produtos, é extremamente caro.” (Salas, 2022)

O que podemos fazer para garantir que estamos realmente resolvendo o problema dos Bancos, e não apenas transferindo o problema para a internet? Exigindo dignidade a todas as pessoas em primeiro lugar. O seu empreendedor local está pagando um salário digno a todos os seus trabalhadores?

Essas novas gadgets brilhantes nos manterão entretidos e distraídos por algum tempo, mas certamente não resolverão o problema real com o qual lidamos: pessoas trabalhadoras pelo mundo inteiro não estão sendo pagas o suficiente. Os ultra ricos acumulam suas riquezas ao não pagarem seus trabalhadores um salário digno e, até que isso mude, essa crença na meritocracia continuará a decepcionar.

Estar “na vanguarda da inclusão financeira” é remunerar adequadamente os trabalhadores e fornecer a todos os cidadãos necessidades básicas de saúde e educação – não fornecer maneiras modernas para que os pobres se sintam ainda mais quebrados e inadequados. Nesse sentido, “Unicórnios” da Fintech é um termo adequado para esses empreendimentos, pois estão claramente fora de contato com a realidade.

Certamente, eles são úteis, pois podem ser usados (especialmente durante uma pandemia que exige distanciamento social), mas não devemos exagerar suas capacidades de mitigar a desigualdade. Inquestionavelmente, ainda temos um problema muito maior em mãos: há pessoas desabrigadas, famintas e morrendo enquanto oligarcas fazem guerra, destroem florestas e vão para o Espaço. Na verdade, alguns desses oligarcas provavelmente têm os pés na piscina das fintechs.

A América Latina é conhecida por muito mais do que apenas ritmos e danças. É conhecida pela sua biodiversidade magnífica, natureza deslumbrante, resiliência indígena diante da exploração colonialista e o poder espiritual da diáspora africana. Se os empreendedores de fintech não reconhecerem a necessidade de venerar e proteger esse legado, suas contribuições para o cenário latino-americano serão mesquinhas.


Fontes:

Salas, Sean. (2022) “Fintech Leaps Forward In Latin America” <https://www.forbes.com/sites/seansalas/2022/03/10/fintech-leaps-forward-in-latin-america/>

US Department of the Treasury. (2004) “Compliance For Internet, Web Based Activities, And Personal Communications” <https://home.treasury.gov/policy-issues/financial-sanctions/faqs/73>


Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da iniciativa Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação.
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