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Eco-barreiras e o resgate do equilíbrio entre as espécies no planeta

Atualizado: 17 de jun.

Acesse o 'Levantamento de resíduos sólidos na Eco-barreira João Mendes' aqui.

A poluição dos oceanos ameaça a sobrevivência de todos os animais marinhos, e a nossa também. É difícil compreender a magnitude do impacto que o lixo tem nas nossas vidas quando não vemos para onde ele está indo, e como o caminho que leva à extinção de tantas espécies aquáticas afeta a vida humana. Civilizações nativas que uma vez sobreviviam em simbiose com a fauna e a flora de suas regiões, agora não enxergam a mesma diversidade de vida e mutualismo entre as sobrevivências. O mundo não é o mesmo. A questão é como seguir em frente nesse paradigma.

Uma ferramenta para entender qual lixo percorre qual caminho em direção ao oceano viabiliza a identificação da fonte e do percurso do problema de poluição de lixo – a eco-barreira. Esse entendimento nos ajuda a atuar na fonte e no sintoma do problema causado por resíduos sólidos flutuantes descartados pela população urbana. Eco-barreiras são barreiras na foz, ou ponto de desaguamento, de rios em megacidades. Um estudo de 2011 por Marcos Freitas aponta que o crescimento acelerado de centros urbanos, aumento de consumo, sistemas de gerenciamento de água municipais e coleta de lixo inadequados contribuem para uma quantidade exorbitante de lixo descartado em rios. No contexto do Rio de Janeiro, apenas 3 eco-barreiras em 2008 coletaram mais de 100 toneladas de plástico, metal, madeira e papelão (M. Freitas 2011).

Dados como esses são esperados, mas o interessante dessa pesquisa foi que identificou a fonte do problema como não sendo tanto “o aumento da geração de resíduos sólidos domiciliares” e sim o aumento do Produto Interno Bruto municipal. Ou seja, aumento de consumo de indivíduos não causa poluição nos rios tanto quanto o aumento de importação e exportação, gastos governamentais e investimentos empresariais. Instituições governamentais e empresas são mais ambientalmente irresponsáveis do que consumidores individuais, e isso desde 2011 só se tornou mais evidente.


Hoje, há uma eco-barreira na foz do rio João Mendes, na região oceânica de Niterói, mantida por um grupo de indivíduos voluntários. Ela foi financiada pela ecoponte, uma companhia que gerencia a ponte Rio-Niterói, e tem interesse em ações de compensação de sua pegada de carbono. E a barreira é gerenciada por membros da organização AmaDarcy, cujo objetivo é proteger o meio ambiente natural e urbano através da preservação de áreas ecologicamente importantes na região da Serra da Tiririca.

De acordo com um relatório gerado pelo grupo em fevereiro de 2023,

“O João Mendes (JM) é um rio poluído, apesar de nascer cristalino dentro do Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET). Embora uma parte significativa dos esgotos da bacia hidrográfica do JM seja coletada e encaminhada à Estação de Tratamento de Esgotos de Itaipu (ETE Itaipu), que opera com uma vazão nominal de 164 litros por segundo, existe uma expressiva quantidade de esgotos que ainda não é direcionada para a ETE Itaipu e deságua de forma direta ou indireta no rio João Mendes e, consequentemente, na laguna de Itaipu (Reserva Extrativista Marinha de Itaipu-RESEX Itaipu), gerando a poluição do mesmo.”
“A quantidade de resíduos sólidos (lixo) que vem sendo lançada no rio João Mendes semanalmente (cerca de 250 Kg) também contribui de forma significativa para poluição do rio João Mendes, evidenciando condições ainda precárias de saneamento. Desde setembro de 2022, a ONG AmaDarcy vem coletando lixo semanalmente na eco-barreira implantada no rio João Mendes, localizada próximo à desembocadura deste rio na laguna de Itaipu. A quantidade total de lixo coletado e ensacado pela AmaDarcy entre setembro de 2022 e janeiro de 2023 foi superior a 6 toneladas (mais de uma e meia tonelada por mês), evitando assim seu despejo na laguna de Itaipu e no mar (RESEX Itaipu). O lixo é em seguida retirado e levado pela Companhia de Limpeza de Niterói (CLIN) para uma destinação final adequada.”

A relação entre poluição de esgoto e de lixo é evidente quando consideramos o crescimento urbano desenfreado, sem infraestrutura e instituições eficazes o suficiente para lidar com esse crescimento. Como voluntários, o foco do grupo em lixo flutuante faz sentido quando consideramos a distância que esse lixo viaja, e a dificuldade de controle desse fluxo sem essas barreiras – que não impedem o fluxo do rio, mas fixam resíduos da superfície até que uma equipe possa coletar. Essa coleta acontece semanalmente, e, quando possível, os resíduos são separados por material e pesados, apesar da poluição de esgoto na área apresentar uma ameaça aos voluntários e gerar a necessidade de cuidados vigorosos. Os dados registrados incluem não só tipo e peso do lixo, mas também as marcas dos produtos descartados, a altura do rio, e a quantidade de chuva no dia anterior e na semana da coleta.

Volume ou Índice Pluviométrico é medido por milimetro de chuva por metro quadrado num certo local e período. Fonte: (A627, do INMET)

Os materiais encontrados são plástico, vidro, metal, tecido, entre outros. Microlixo é registrado como uma categoria à parte, e significa um misto de pequenos resíduos como bituca de cigarro, microtubos de narcóticos, isopor fragmentado, outros plásticos e partes vegetais que ficam emaranhadas por esses resíduos. Tetra pak também é registrado à parte, pois são aquelas embalagens de composição mista entre metal, papel e plástico, muitas vezes usadas para produtos como leite, suco e molho de tomate. Há outros materiais identificados, porém não categorizados individualmente, como os ocasionais brinquedos, resíduos eletrônicos, lâmpadas, pneus, colchões, etc. Enquanto os resíduos não identificados são os sacos fechados encontrados na barreira que não são abertos por poderem conter materiais que causam riscos à saúde dos voluntários – como seringa, prestobarba, fralda, camisinha, papel higiênico usado, etc.

Esses dados nos ajudam a identificar a fonte da poluição das águas, e nos conscientiza sobre nosso próprio consumo e descarte de resíduos. De acordo com a pesquisa de 2011 de Marcos Freitas, há uma correlação entre o aumento da renda familiar e o amento do lixo público, enquanto o lixo doméstico permanece na mesma faixa. Isso pode significar que o aumento do Produto Interno Bruto (e talvez contextos climáticos) leva a "maior consumo em áreas públicas". O que isso significa para nós e nossas práticas de consumo em áreas públicas? O que sabemos sobre as práticas de descarte lixo de empreendimentos que frequentamos e de coleta de lixo por conta de nossos municípios?


O problema do descarte de lixo e da poluição dos oceanos tem muitas facetas. Há uma questão de administração institucional, que reflete nas decisões políticas de um município. A expansão urbana se torna nociva por conta do fracasso dessa administração política e interesses financeiros muito maiores do que o lar de cada família. Por isso, o Produto Interno Bruto municipal gera mais problemas ambientais do que o acúmulo de consumos individuais. Por outro lado, a conscientização da comunidade e o acesso à informação sobre a situação ambiental de suas vizinhanças pode não só melhorar práticas pessoais de consumo e descarte de resíduos, como pode também incentivar a população a demandar mais responsabilidade da administração pública e ações mais eficazes com a verba pública. No meio tempo, prevenir que toneladas de lixo acabem no oceano ajuda a começar um resgate da biodiversidade e do equilíbrio entre as espécies nesse planeta.

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Por Mirna Wabi-Sabi

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