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74 itens encontrados para ""

  • Um Guia para Publicação Online

    É evidente que fakenews, ou publicações online falsas, têm repercussões políticas seríssimas. Cenas de videogames foram compartilhadas nas redes sociais como cenas reais da guerra na Ucrânia. Situações como essas refletem as limitações da nossa atenção online. Será que tomamos o tempo de refletir e procurar fontes dos conteúdos midiáticos que consumimos? Produzir conteúdo midiático é esclarecedor para consumidores de mídia. Quem publica um artigo online tende a ter instituições e pessoas profissionais que se responsabilizam por esse conteúdo — Uma editora de um jornal, o criador de um blog, etc. Essas instituições têm sites, elas pagam pelo espaço que elas ocupam na internet (como um aluguel), e nesse contrato ha nomes de pessoas responsáveis pelo conteúdo que está sendo divulgado ali. Esses sites, nos melhores casos, dizem "quem somos", "de onde somos", "como somos financiados", "quais são os nossos princípios", etc. É importante não só saber como procurar essas informações, como também reconhecer o que significa quanto elas não estão disponíveis. Coisas postadas nas mídias sociais (facebook/instagram) são publicações e deixam de ser inéditas para outros sites de notícias que republicarem depois. Por isso, não se cobra ou paga por elas, pois a publicação original pertence à mídia social. Para coisas inéditas, a ideia é postar no site da instituição que se propõe a publicar o conteúdo, e depois postar nas mídias sociais com o link do site original. O ideal é que as mídias sociais sejam usadas para promover uma publicação, e não ser a fonte da publicação — Já que a mídia social é uma fonte com pouca credibilidade, é instável, e fora do campo de influência direta dos autores e autoras (O site do facebook não é seu, ou da organização que se propõe a publicar o seu conteúdo). Para Publicadores: Garanta que todas as pessoas que aparecem nos vídeos e fotos deram permissão para serem gravadas e publicadas. Crianças precisam da permissão dos pais. Essa permissão pode ser enviada em poucas palavras no corpo de um email, por exemplo. (Se o conteúdo for importante, borre ou cubra rostos de pessoas não identificadas, ou que não tiveram a oportunidade de dar permissão.) Imagens devem ter data, lugar, e crédito; uma descrição é bom, mas opcional. O conteúdo textual deve mostrar: Onde/Quando algo está acontecendo, O que está acontecendo, Por que isso está acontecendo, Por que isso importa para quem está consumindo esse conteúdo? OU Onde você está? O que você está fazendo? Qual a relevância/importância disso? Quando tomamos essas práticas de ética jornalística a sério na nossa produção de conteúdo, também esperamos o mesmo dos produtores de conteúdo que consumimos. E assim, nos tornamos consumidores de mídia mais responsáveis, e fazemos a nossa parte para combater as fakenews ao torna-las ineficazes. ___ Por Mirna Wabi-Sabi, professora de alfabetização midiática e editora.

  • Os ultra ricos sonham com unicórnios da Fintech

    “A América Latina é conhecida por seus estilos de dança mambo e salsa, porém, há algo mais agitando a região”… (Salas, 2022) Alguma coisa boa poderia vir depois dessa abertura? FINTECH. Fintech é a abreviação de Tecnologia Financeira, e os investidores afirmam que será a solução para a desigualdade econômica. Inclui serviços bancários online, criptomoedas, crowdfunding, aplicativos de compras de ações, pagamentos móveis e assim por diante, como ferramentas para “inclusão financeira” de pessoas economicamente marginalizadas. Os ultra ricos têm a capacidade de convencer a si mesmos, e aos que os cercam, de que o que as pessoas pobres precisam para sair da pobreza é algo que um empreendedor pode oferecer. E o que é mais agitado na área de empreendedorismo do que gigantes da tecnologia no Silicone Valley? Novos aplicativos e invenções bancárias online estão sendo vendidos na América Latina como a solução para todos os nossos problemas financeiros — tornando as transações mais rápidas e baratas — como se o problema nas finanças de pessoas pobres fosse a falta de ferramentas para administrar o dinheiro, e não a falta de dinheiro. Este mês, a Forbes.com publicou um artigo esperançoso sobre como a fintech pode ser uma solução para a desigualdade de renda chamado “Fintech avança na América Latina” (Fintech Leaps Forward In Latin America), escrito por Sean Salas, CEO de uma empresa de serviços financeiros online com sede em Los Angeles. A Camino Financial, sua empresa, tem um site que proíbe visitas da minha região do Brasil — meu endereço IP está bloqueado, mas uma VPN anula a proibição. De acordo com o Departamento do Tesouro dos EUA, empresas de serviços financeiros na Internet, como a dele, “desenvolveram procedimentos de bloqueio de endereço de protocolo de Internet (IP)” para abordar sem sucesso os “riscos de conformidade da empresa.” A proibição de endereços IP de certas regiões geográficas pode ser feita se eles quiserem cumprir políticas de sanção dos EUA ou “satisfazer seus requisitos de diligência prévia” (Departamento do Tesouro dos EUA, 2004). Ou seja, o homem que escreveu para o site da Forbes sobre o potencial revolucionário da fintech na América Latina também é CEO de uma empresa financeira que proíbe visitantes online de determinados locais da América Latina. De todas as pessoas, ele sabe de primeira mão como a internet, especificamente os serviços financeiros baseados na internet, tem um potencial severo de se tornar inacessível, restritivo e caro – assim como os bancos já são. “Cinco bancos controlam mais de 80% de todos os produtos financeiros do Brasil. Juntos, esses bancos se tornaram os mais lucrativos do mundo. Se você ver as taxas de juros e taxas que os consumidores pagam por esses produtos, é extremamente caro.” (Salas, 2022) O que podemos fazer para garantir que estamos realmente resolvendo o problema dos Bancos, e não apenas transferindo o problema para a internet? Exigindo dignidade a todas as pessoas em primeiro lugar. O seu empreendedor local está pagando um salário digno a todos os seus trabalhadores? Essas novas gadgets brilhantes nos manterão entretidos e distraídos por algum tempo, mas certamente não resolverão o problema real com o qual lidamos: pessoas trabalhadoras pelo mundo inteiro não estão sendo pagas o suficiente. Os ultra ricos acumulam suas riquezas ao não pagarem seus trabalhadores um salário digno e, até que isso mude, essa crença na meritocracia continuará a decepcionar. Estar “na vanguarda da inclusão financeira” é remunerar adequadamente os trabalhadores e fornecer a todos os cidadãos necessidades básicas de saúde e educação – não fornecer maneiras modernas para que os pobres se sintam ainda mais quebrados e inadequados. Nesse sentido, “Unicórnios” da Fintech é um termo adequado para esses empreendimentos, pois estão claramente fora de contato com a realidade. Certamente, eles são úteis, pois podem ser usados (especialmente durante uma pandemia que exige distanciamento social), mas não devemos exagerar suas capacidades de mitigar a desigualdade. Inquestionavelmente, ainda temos um problema muito maior em mãos: há pessoas desabrigadas, famintas e morrendo enquanto oligarcas fazem guerra, destroem florestas e vão para o Espaço. Na verdade, alguns desses oligarcas provavelmente têm os pés na piscina das fintechs. A América Latina é conhecida por muito mais do que apenas ritmos e danças. É conhecida pela sua biodiversidade magnífica, natureza deslumbrante, resiliência indígena diante da exploração colonialista e o poder espiritual da diáspora africana. Se os empreendedores de fintech não reconhecerem a necessidade de venerar e proteger esse legado, suas contribuições para o cenário latino-americano serão mesquinhas. Fontes: Salas, Sean. (2022) “Fintech Leaps Forward In Latin America” US Department of the Treasury. (2004) “Compliance For Internet, Web Based Activities, And Personal Communications” Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da iniciativa Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação.

  • Proteção ambiental da Mata Atlântica

    SOS Mata Atlântica Das estratégias políticas para combater o desmatamento localmente, devemos nos perguntar qual é a mais eficaz e adequada para nós como indivíduos: o voto, o lobby ou a conscientização da comunidade? Para aqueles que optam por evitar se envolver na política eleitoral, não é tarefa simples continuar essa prática diante das posturas e políticas grotescas do atual presidente. Por um lado, me parece que presidentes fazem menos em termos de política real e mais em termos de ‘vender’ ao público em geral e fabricar apoio para qualquer política que já esteja a caminho — o que é do interesse de um sistema econômico capitalista global em oposição aos interesses de eleitores. Por outro lado, os princípios sustentados por esses indivíduos em funções administrativas importantes têm o poder de direcionar o discurso e comportamentos em massa, normalizando valores retrógrados que têm repercussões concretas na sociedade. Engajar-se em iniciativas locais de lobby, no entanto, coloca em perspectiva quais são os resultados reais da votação em nosso ambiente imediato. Escrito por Mirna Wabi-Sabi "Eu moro em uma área única do Brasil com vegetação rochosa da Mata Atlântica — única o suficiente para conceder a demarcação de uma reserva de proteção natural chamada Serra da Tiririca. Essa demarcação veio depois de muitos danos terem sido causados ​​pela rápida e massiva indústria imobiliária dos últimos 40 anos. O terreno onde minha casa foi construída era um brejo, onde viviam jacarés e pássaros, além de plantas raras. Infelizmente, minha casa é uma das poucas, senão a única no bairro onde o crescimento espontâneo de plantas é permitido, e os animais são bem-vindos ao invés de espantados ou mortos." Leia na Le Monde Diplomatique

  • A narrativa desumanizante em torno dos assassinatos policiais no Rio de Janeiro

    Essa publicação foi vencedora do 39.º Prêmio de Direitos Humanos de Jornalismo na categoria fotografia — troféu paulo dias. E recebeu menção honrosa no 44.º Prêmio Vladimir Herzog. Aviso de gatilho: violência e morte. Fotos por Fabio Teixeira, tiradas no dia 11 de fevereiro de 2022 na Vila Cruzeiro. O conteúdo dessa série fotojornalística representa um enigma ético para mim como escritora e merece um aviso de gatilho severo. O termo “aviso de gatilho” é frequentemente associado à chamada cultura "Woke", de “guerreiros da justiça social”, mas, aqui, eu o uso literalmente. Gatilhos reais foram acionados e você como audiência está preparada para ver evidências fotográficas das consequências? Por um lado, reproduzir essas imagens é, também, reproduzir a violência bárbara nelas retratada. Por outro lado, talvez, estar exposta a ela, como pessoa leitora e cidadã, possa fornecer a dose de realidade necessária para despertar uma consciência combativa, que pode ser usada para provocar mudanças reais. Mudança não apenas em quais gatilhos estão sendo acionados, onde e quando. Mudança na forma como falamos uns sobre os outros e uns com os outros. As palavras usadas para descrever o que aconteceu no Rio de Janeiro dia 11 de fevereiro de 2022 foram baseadas principalmente no que a Polícia Militar teve a relatar. “Criminosos” foram mortos numa favela. São não-identificados, sem nome, mas eram 8, e eram “marginais”. Segundo o porta-voz da polícia, eles estavam atrás de Chico Bento, um líder de quadrilha que fugiu e usou jovens, pobres e negros como escudo. Em outras palavras, o homem procurado fugiu porque a polícia estava ciente da estratégia e não estava disposta a sacrificar vidas inocentes. Vidas foram sacrificadas mesmo assim, sem vergonha, inteligência ou escrúpulo. Os cadáveres foram tratados de forma desumana, talvez apenas como um reflexo final de como os corpos eram tratados quando estavam vivos — e a brutalidade continua na disseminação da retórica em torno de quem eram essas pessoas. Assassinatos policiais Neste descanso sem paz, não apenas os mortos são as vítimas. Toda uma comunidade é submetida à narrativa desumanizante usada pela polícia, e perpetuada pelos meios de comunicação de massa, para justificar ações injustificáveis. Então, ao invés de repetir o que já foi dito sobre esse caso — qual favela, qual líder de quadrilha, quantas armas, quantas drogas — devemos discutir quais são as consequências dessas operações, ou assassinatos policiais. Não há evidências de que as operações da Polícia Militar ou a presença da Unidade de Polícia Pacificadora nas favelas cariocas tenham alcançado algum sucesso no controle da indústria de drogas e armas ilegais. Comunidades marginalizadas são aterrorizadas tanto pela polícia quanto pelos traficantes locais. De fato, comunidades negras marginalizadas são aterrorizadas pelas autoridades desde antes da existência do crime organizado, antes mesmo da existência da polícia ou do Estado que ela protege. O que é 'crime organizado'? Em primeiro lugar, deve haver o conceito de crime, definido por lei e respaldado por instituições governamentais. E para que seja organizado, deve ser maior que uma única infração, grande o suficiente para se tornar uma indústria paralela e lucrativa. As favelas se organizaram o suficiente para suportar um legado de terror que persistiu por meio milênio. A força policial que realiza operações de “pacificação” nas favelas foi criada antes da formação do Estado brasileiro, para 'caçar' pessoas escravizadas em fuga. Em outras palavras, a instituição policial precede a constituição e o estabelecimento de direitos humanos básicos. O que distingue o crime organizado das operações fracassadas de inteligência policial é o apoio das autoridades, sejam elas quais forem. Ao longo da história, testemunhamos mudanças na autoridade institucional, da Monarquia, para a República, para uma moderna Constituição Liberal. Por toda parte, a Polícia persiste, comete crimes, às vezes auxilia organizações criminosas organizadas, mas, mesmo assim, segue controlando a narrativa. O direcionar o discurso público é a ferramenta mais valiosa de uma instituição. Sua capacidade de convocar apoio é o segredo de sua longevidade. Quando se trata da polícia e do exército, a narrativa de que “marginais”, “criminosos”, "terroristas" não são nada mais do que apenas isso não só sustentou como agravou a sede de sangue em grande parte da população. Os apoiadores de Bolsonaro, amantes de armas, anseiam pela punição brutal de criminosos, adoram vídeos online de roubos que deram errado. O slogan dos anos 80, criado por um Delegado de Polícia do Rio de Janeiro, ainda é alarmantemente popular: “Bandido bom é bandido morto." Não há dúvida de que o Brasil vive sob uma estratégia política de extermínio, a questão é qual narrativa um cidadão compra. Uma que propaga a ideia de que algumas pessoas merecem morrer porque não passam de criminosos marginais. E outra, que acredita que todas as pessoas merecem dignidade. Não existem criminosos, existem pessoas que cometem crimes. Não existem marginais, existem pessoas que foram marginalizadas. Não existiram escravos, existiram pessoas que foram escravizadas. Quando deixamos de ver a humanidade nos outros, falhamos ela em nós mesmos. Talvez, ao sermos confrontados com imagens de dignidade sendo maliciosamente negada aos outros, possamos lutar pela dignidade deles tanto quanto lutamos pela nossa. _______ Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação.

  • O que significa Justiça no caso do linchamento de Moïse Kabagambe

    Artigo publicado na Le Monde Diplomatique Brasil. FOTOS: Manifestação por Justiça no caso Moïse Kabagambe na Barra, Rio de Janeiro (Crédito Fabio Teixeira) Sábado, 5 de fevereiro, manifestantes foram às ruas de grandes cidades brasileiras pedindo Justiça. Um jovem africano foi linchado – torturado até a morte – em uma praia no Rio de Janeiro. Os perpetradores, também pessoas trabalhadoras, estão sob custódia e alegam que não houve intenção de matar; que eles estavam reagindo ao comportamento errático e irresponsável do imigrante. A família da vítima, por outro lado, alega que ele só estava pedindo para ser remunerado por dois dias de trabalho. Nenhuma narrativa, no entanto, justifica o que aconteceu, uma barbárie que foi filmada em vídeo. A prisão dos homens que amarraram outro homem e o espancaram é o que consideramos Justiça? Moïse Kabagambe foi um refugiado congolês que morou no Brasil uma década. Na praia onde foi brutalmente assassinado, era conhecido como “angolano”. Isso é como apelidar um estadunidense de “mexicano” ou um brasileiro de “venezuelano”, porque são países vizinhos no mesmo continente. A falta de entendimento de sua comunidade sobre as circunstâncias que o trouxeram ao Brasil em primeiro lugar já é uma injustiça – que não será revertida com a prisão de ninguém. Em 2008, a Segunda Guerra do Congo, que começou em 1998, matou mais de 5 milhões de pessoas e é considerada a mais mortal desde a Segunda Guerra Mundial. A primeira aconteceu logo antes, também na década de 1990, e foi resultado direto de forças coloniais e imperialistas se intrometendo com líderes africanos e explorando as diferenças étnicas na região. O Zaire, que hoje é conhecido como República Democrática do Congo, foi feito de corda em cabo de guerra entre forças comunistas e anticomunistas, até a dissolução da URSS e do interesse dos EUA em endossar seu líder. Moïse nasceu no ano em que uma guerra terminou e outra começou, um período em que mais de 5 milhões de crianças não receberam educação devido à turbulência política – os níveis de alfabetização estavam em seu nível mais baixo e o trabalho infantil e a exploração em seus níveis mais altos. Ao longo de sua juventude, seu país esteve sob uma operação das Nações Unidas de “manutenção da paz” (Monusco), que fez mais para criar uma indústria clandestina de armas do que evitar conflitos. Entre os países envolvidos nessa operação estava o Brasil, com seus militares e policiais. Hoje, um general brasileiro é Comandante da Força da Monusco, e é o quarto comandante do Brasil a ocupar o cargo, tornando-o o país mais representado no projeto em termos de liderança. Muito antes de tudo isso, a região do Congo já havia passado por atrocidades sob o regime belga e sua indústria da borracha. Na virada do século passado, entre a última década de 1800 e a primeira de 1900, africanos sob o regime colonial do rei belga foram escravizados, mutilados e mortos a taxas bárbaras. Fome, doenças e exploração perpetuada pelo colonialismo e suas indústrias com fins lucrativos foram responsáveis ​​pela morte de mais da metade da população local; incontáveis ​​vidas. Mas a intromissão estrangeira não é tudo o que há a se dizer sobre este país da África Central. (Crédito Fabio Teixeira) Cultura e resistência Apesar do incessante oportunismo geopolítico, o Congo sobreviveu geograficamente e prosperou culturalmente. De acordo com o WWF, “a Bacia do Congo é habitada por humanos há mais de 50.000 anos e fornece comida, água fresca e abrigo para mais de 75 milhões de pessoas”. O rio Congo é o maior em volume depois do rio Amazonas. Sua floresta tropical também é a maior depois da Amazônia. Como pessoas brasileiras, nossa paixão pela preservação do nosso bem mais magnífico e precioso deve ser estendida ao nosso vizinho ecológico, já que, juntos, nossos países são os detentores das mais “importantes áreas selvagens que restam na Terra”. Música e literatura congolesa também encontram na expressão artística uma ferramenta de autoestima e poder. Kolinga, um grupo congolês, hoje faz hinos feministas decoloniais. No século passado, hits de soukous e rumba congolesa tornaram-se clássicos internacionais, bem representados na compilação Congo Revolution “Revolutionary and Evolutionary Sounds From The Two Congos 1955-62”. A literatura, que merece tradução e distribuição ampla, é ainda mais comovente e representativa da maré artística da nação. O poema “Segunda Dimensão” do escritor congolês Rais Neza Boneza, em seu livro “Nômade, sons do exílio”, é particularmente perspicaz, talvez até especificamente para a situação de Moïse e sua comunidade imigrante no Brasil. Que ele fale por si: Perto de sua mesa está um copo de água; Pela janela ele olha para o transeunte: Ele observa e sempre espera, espera, espera. A amargura nutre seu ser; Sujeito a mal-entendidos E falsos ares de ‘gente’ Ele é um prisioneiro. Ele se senta, as mãos em volta do queixo Pensando solenemente Em seus sonhos, seus espíritos escapam O mundo das dificuldades E viajar nas extensões do Céu azul selvagem Ele se inclina sobre a mesa, meio preocupado, meio satisfeito. Neste lugar dele não há compaixão; O mal ronda sua presa; Rancor canta sua melodia da manhã, Um estranho à sua terra, Ele bebe melancolicamente de seu copo… Um gole de liberdade. Marginalizado e carente, Muito longe está soprando para ele o vento da liberdade Ele é um clandestino, sempre sem endereço, Não um nômade, mas um recluso no meio da humanidade. Em sua clausura de cristal imbatido* Ele segue os ecos de seus gritos silenciosos. Uma rocha de loucura, só a solidão lhe responde. Ele se assusta! Seu coração bate rápido! Ele se levanta da cama! Ah! É apenas um pesadelo! Este é um pesadelo do qual Moïse Kabagambe e sua família não vão acordar, nem a diáspora africana será protegida da desumanidade de tais atos. Mas podemos, como sociedade, começar a interpretar a Justiça como um conceito abrangente – não apenas como algo que o sistema judicial pode fornecer. Justiça significa ver, respeitar e apreciar o valor de acolher pessoas diferentes de nós em nossas comunidades. Justiça significa fazer o que pudermos para aprender, entender e lutar contra um paradigma geopolítico alimentado pelo abuso e pela exploração (por exemplo, exigindo reparações). Justiça significa pensar, perguntar e sentir a Humanidade em todos nós. Manifestação por Justiça no caso Moïse em São Paulo, MASP, 5 de fevereiro — Foto e vídeo, (Crédito Mirna Wabi-Sabi) _____ *Nota de tradução: ‘Imbatido’ como o particípio passado de ‘imbatível’, do original ‘unbroken’. _____ Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação.

  • Vírus E Colonização: Nossa Relação Com Os Mosquitos

    Parece que vivemos em tempos sem precedentes e, de fato, ninguém vivo já testemunhou uma pandemia viral dessa magnitude. Esta não é, no entanto, a 1ª pandemia viral da história, razão pela qual os comentaristas políticos internacionais traçaram paralelos com outras como SARS, Ebola, Influenza etc. Porém, com base em onde moro — Niterói — o paralelo que se destaca é com infecções transmitidas por mosquitos; Dengue, Chikungunya, Febre Amarela e assim por diante. As campanhas de saúde pública sobre a prevenção da Dengue no Brasil foram constantes ao longo da minha vida, e nunca me ocorreu ou a ninguém ao meu redor questionar sua mensagem — mosquitos transmitem a doença, e água limpa estagnada é o que eles precisam para proliferar. Portanto, todos devem fazer o possível para minimizar esses vetores de doenças, já que o mosquito nascido em sua casa não respeita limites de propriedade e se alimenta de qualquer pessoa. Isso nunca se tornou uma questão partidária, a ciência por trás disso não foi questionada e a negligência com os requisitos de saúde pública é desaprovada. Apesar de não ter aprendido a distinguir entre larvas de mosquito e de outros animais, e de suspeitar da autoridade governamental, nunca me ocorreu questionar a ciência por trás do ciclo de vida de um mosquito transmissor de doenças. Sou uma mulher que mora sozinha, e o fiscal da Dengue é o único homem desconhecido que bate na minha porta e permito que entre na minha casa. Cada pequeno corpo de água artificial que vejo vem com um sinal de perigo, e desenvolvi memória muscular ao virar recipientes que coletam água. Em 2008, a National Public Radio dos EUA publicou um artigo descrevendo os mosquitos como “Viet Congs da natureza”; defensores “das samambaias, borboletas, besouros e formigas da humanidade”. Na época, achei que fazia sentido. As cidades crescem, substituem a floresta, e os mosquitos são o incômodo que resta. Mas após uma reflexão mais aprofundada, especialmente no contexto do COVID, a analogia parece inepta. Desde quando os vietcongues não fazem parte da humanidade e a humanidade não faz parte da natureza? Mais importante ainda, não já havia humanos vivendo na floresta antes dos mosquitos começarem a tentar repelir a humanidade da “natureza”? Como os povos indígenas lidavam com os mosquitos infestados de vírus? A resposta é: não lidavam. Não havia Dengue antes da colonização. É amplamente reconhecido que infecções virais foram usadas como armas contra civilizações nativas por colonos, o cobertor de catapora como o exemplo mais notório. O Aedes aegypti, o mosquito que transmite a Dengue, Chikungunya, Zika, Febre Amarela e outros vírus, veio como ovos na água trazida em navios da África no século 16. No século 18, houve surtos de infecções em 3 ou mais continentes ao mesmo tempo. Bem, estamos aqui, agora, ainda lutando para manter esse vírus sob controle. A abordagem tem sido tornar nosso ambiente urbano pouco acolhedor para essas criaturas. Significando: sem excesso de plantas que lhes dão sombra e bloqueiam a brisa que os arrastam; sem matéria orgânica porque contêm açúcares vegetais dos quais os mosquitos se alimentam; sem superfícies irregulares e sujas que possam reter o líquido onde eles depositam ovos. Infelizmente, isso também leva à expulsão de qualquer outro ser vivo além dos humanos. Sem plantas também significa sem borboletas; nenhuma matéria orgânica também significa ausência de minhocas e fertilidade para as plantas; sem água também significa sem sapos e libélulas. O paradoxo é a necessidade de mais água, plantas e matéria orgânica para atrair mais animais que são predadores naturais de mosquitos e suas larvas. A biodiversidade tem um efeito cascata positivo, onde a água atrai mosquitos, que atraem sapos que comem mosquitos. Se adicionarmos à mistura besouros, pássaros, aranhas, lagartos, caracóis, formigas, borboletas, libélulas, minhocas, aranhas d'água, etc., podemos ver que os mosquitos vêm sozinhos quando há um pneu aleatório tomando chuva na beira da estrada. De certa forma, é como o princípio de uma vacina — não evite o problema, exponha-se com segurança a ele e encontre um equilíbrio orgânico saudável para combatê-lo. O equilíbrio não é algo simples de se alcançar, muito menos na escala de um planeta inteiro. Talvez a mudança em direção ao equilíbrio que podemos alcançar esteja no âmbito de nossas vidas pessoais e numa mudança de perspectiva. Isso já é muito trabalho, mas é onde toda grande ideia começa. Questionar a autoridade e suas instituições pouco confiáveis ​​não vem à custa do aprendizado de biologia. Na verdade, depende desse conhecimento — de que outra forma conheceremos as falácias do sistema e reuniremos as ferramentas para falar a verdade? _________ MIRNA WABI-SABI é editora-chefe da Plataforma9P9, autora do livro Anarco-Transcriação, e comentarista política através da escrita, edição, ensino e tradução.

  • 'Mata das Bruxas': livro reúne entrevistas e textos de Silvia Federici

    De acordo com Silvia Federici, a primeira edição de 'Mata das Bruxas', publicado pelo coletivo Plataforma9, traz diálogos e artigos que discutem o papel da mulher na sociedade capitalista. O coletivo jornalístico Plataforma9 publicou em 2021 a primeira edição do projeto "MATA das Bruxas", com a apresentação e introdução do trabalho da pesquisadora marxista Silvia Federici, pensadora italiana especialista no tema da exploração do capital sobre o corpo e o trabalho de mulheres, especialmente mulheres pobres. Para Mirna Wabi-Sabi, editora do coletivo, "a leitura, diferentemente de afiliação ou título, revela um compromisso ao conhecimento que não se permite abrir mão da liberdade e da criatividade pessoal". Por Camila Araújo Continue lendo na Opera Mundi

  • Livros de bell hooks: o futuro ficará marcado por seu legado

    LIVROS: É com grande tristeza que tomamos conhecimento do falecimento de uma das vozes mais influentes do feminismo — a bell hooks. bell hooks foi uma inspiração para mim como pensadora e escritora. As questões discutidas em sua conversa com Laverne Cox sobre a reprodução dos padrões de beleza patriarcais brancos, seus comentários sobre o fracasso da Beyoncé em representar as mulheres negras e sua crítica ao feminismo branco em livros como Da Margem Ao Centro sempre estiveram presentes na minha produção intelectual. Meu trabalho não teria sido o mesmo sem ela, e o futuro, se dependesse de mim, ficaria marcado para sempre por seu legado — seus livros. Recursos: FEMINIST THEORY from margin to center FEMINISM IS FOR EVERYBODY Por Mirna Wabi-Sabi

  • A luta para proteger um patrimônio arqueológico e ecológico mundial

    O Sambaqui Camboinhas, um dos mais antigos do país, está prestes a ser destruído pela especulação imobiliária, já existe uma placa no local como se a área — patrimônio arqueológico mundial — pertencesse à iniciativa privada. O Projeto de Lei de Uso e Ocupação do Solo pretende adensar e verticalizar a cidade de Niterói, além de permitir o avanço de construções sobre áreas frágeis, como o Morro do Gragoatá, a Lagoa de Itaipu, Sambaqui Camboinhas e o Parque Municipal de Niterói-Parnit (onde foi o canteiro de obras do Túnel Charitas-Cafubá). Uma das propostas é alterar o gabarito dos prédios para +6, isso na faixa compreendida entre as Av. Florestan Fernandes, Rua Jayme Bittencourt e Av. Beira-Mar até o limite da Faixa Marginal de Proteção (FMP) da Lagoa de Itaipu. O isso que significa? + mais gente + carros + aquecimento por fumaça + impermeabilização do solo + esgoto e isso para uma cidade que NÃO TEM ÁGUA, sem contar que o saneamento é precário, tendo o sistema Lagunar Itaipu-Piratininga como verdadeiros locais de destinação de esgoto. Uma cidade que se gaba por ter uma secretaria do clima e um prefeito ambientalista é inacreditável que a prioridade seja aprovar uma lei dessa forma (que NÃO teve debate de forma CLARA e justa com a sociedade!) Do que se resolver os problemas crônicos que são negligenciados há DÉCADAS! — Hannah, do Movimento Lagoa para Sempre Na ação do dia 5 de dezembro, também denunciamos a grave ameaça que o Patrimônio Científico, Histórico e Cultural brasileira está sofrendo. O Sambaqui Camboinhas, um dos mais antigos do país, está prestes a ser destruído pela especulação imobiliária, já existe uma placa no local como se a área — patrimônio arqueológico mundial — pertencesse à iniciativa privada. Boa parte deste riquíssimo patrimônio já foi destruída pela construção de um prédio no local, não podemos perder o que resta do Sambaqui Camboinhas, são pouquíssimos tão antigos que ainda restam no litoral brasileiro. Sambaqui Preservado, Lagoa Limpa e Para Sempre. "O Projeto de Lei de Uso e Ocupação do Solo pretende adensar e verticalizar a cidade de Niterói, além de avanço sobre áreas frágeis, como o Morro do Gragoatá, a Lagoa de Itaipu e o Parnit ali onde foi o canteiro de obras das obras do Túnel Charitas-Cafubá, com gabarito de 6 pavimentos que + cobertura e +adesão do pavimento de embasamento, virão 7 a 8 pavimentos... o que significa mais gente, mais carros, mais aquecimento por fumaça, motores, mais impermeabilização do solo, com atração e aumento de população em uma cidade que não tem água, o sanemeaneto é precário assim como as inundações são frequentes, só para citar alguns aspectos genéricos." (Cynthia do Movimento Lagoa para Sempre) Sobre a Lei A Lei estabelece normas para cada área da cidade. O Projeto chama atenção pela proposta de aumento do número de pavimentos em diferentes áreas da cidade. Só para ilustrar, ao longo da Av. Marquês do Paraná será possível construir prédios com 21+3 pavimentos; no Largo da Batalha, 9 +2; junto à lagoa de Piratininga, 10+2 e em Charitas, 15 + 2 na área em frente ao Clube Naval e 10 + 2, na área no trecho do acesso ao túnel Charitas-Cafubá. Esta proposta de verticalização é justificada com o pretenso objetivo de tornar Niterói uma cidade compacta, o que levaria a melhor aproveitar a infraestrutura disponível e ajudaria a preservar o meio ambiente. Em nenhum momento é mencionada a crise hídrica enfrentada (a cidade não tem mananciais próprios e depende do sistema Imunana–Laranjal, já sobrecarregado). Para o grave problema de mobilidade da cidade, utiliza o argumento de que adensamento irá melhorar as condições do trânsito, sem considerar que o aumento da população irá sobrecarregar ainda mais a rede viária da cidade, que tem no acesso à ponte Rio-Niterói um grande gargalo, dado que parte significativa dos moradores da cidade tem no Rio de Janeiro o seu local de trabalho. Essas questões apenas exemplificam a intenção de estimular o mercado imobiliário enquanto prejudica as condições gerais da cidade. Na quarta-feira, dia 15, às 17 horas, haverá uma Audiência Pública na Câmara de Vereadores, em modo híbrido. Muito importante participarmos e exigirmos a realização de Audiências por Região Administrativa, de modo a permitir a participação dos moradores que serão diretamente afetados. Muito importante a presença na Câmara, mas quem não puder, deve acompanhar pela internet e se manifestar. Vamos exigir nosso direito de definir o que queremos para nossa cidade! Facebook Instagram YouTube Assine a petição Pela PROTEÇÃO do Patrimônio Ambiental, Cultural e Cênico de Itaipu! AQUI Leia em mais detalhe sobre o projeto de lei aqui: Relatório da qualidade da água nas Lagoas da região oceânica:

  • O Que Laguinhos Podem Nos Ensinar

    Pessoas em geral sabem muito pouco sobre a natureza e seus ecossistemas locais. Laguinhos têm muito a nos ensinar sobre tudo isso. Hoje em dia, ficou mais fácil imaginar um mosquito geneticamente modificado para ser estéril do que aprender quais animais em nossa área são seus predadores naturais. Isso provavelmente ocorre porque é mais fácil votar num político que possa endossar pesquisas e implementar políticas contra a dengue do que observar e estudar o comportamento da vida selvagem local. A maioria de nós não tem tempo e recursos para este tipo de pesquisa, mas, o mais importante, falta-nos interesse ou motivação (quem sabe o que veio primeiro). Não precisamos olhar de perto, no entanto, para ver que as políticas governamentais e políticos são falhos e equivocados, especialmente no que diz respeito a práticas ambientalmente sustentáveis. Uma alternativa a continuar contando com eles poderia ser tomar certas medidas nós mesmos, mesmo que no microcosmo de nossas próprias vidas. Felizmente, passei a pandemia socialmente isolada numa casa com um jardim, numa área do Brasil conhecida pela vegetação rochosa de Mata Atlântica, e pude trabalhar remotamente. Tempo e recursos estavam disponíveis para mim, e eu aproveitei isso para começar a fazer todas aquelas coisas que pensamos em fazer, mas nunca temos tempo. Uma horta, compostagem, pão, tomar sol, exercícios, e assim por diante. Mas a saga do laguinho começou mais tarde e me consumiu de uma forma inesperada. Rapidamente, ficou claro para mim que construir um mini lago é uma lição de biologia difícil e valiosa. Quanto mais você aprende, mais percebe o quão pouco sabe. Tudo começou com as visitas noturnas de um sapo à tigela de água dos cachorros. Depois da primeira vez em que o vi, todas as noites na mesma hora, sua presença era certa. E toda vez que o via, agora batizado de Danny DeFrog (em homenagem a Danny DeVito), pensava em como minha vizinhança é hostil à vida selvagem — riachos são poluídos, árvores são cortadas para dar espaço para estruturas de concreto e o crescimento espontâneo de plantas é considerado “sujeira”. Depois de algumas semanas, decidi fazer um mini lago para o Danny, o que me levou ladeira abaixo. Como posso fazer um lago sem criar um ponto de proliferação de mosquitos? Como posso fazer isso sem arrastar uma extensão pelo quintal para ligar um filtro elétrico? As perguntas nunca pararam desde então. Deixe-me contar um pouco do que aprendi — o que está longe de ser tudo o que há para se saber. As lojas de aquários são meio deprimentes. Os peixes são muito baratos, tratados como descartáveis, e os sistemas são entregues como ambientes higiênicos controlados, onde o ser humano pode ter o maior controle possível sobre as variáveis. Na natureza, porém, existem infinitas variáveis ​​a serem consideradas, todas imprevisíveis e diversas. Basicamente, vários tipos de peixes comem larvas de mosquitos, nem todos esses peixes existem na natureza. Muitos são raças domesticadas, como cães e gatos. Portanto, criar um biótopo de peixinho dourado é um oximoro. No entanto, eles precisam de um sistema de filtragem e a maioria precisa de aeração de água. Na natureza, não há bombas e filtros fazendo isso para os peixes, mas recriar este ambiente natural é incrivelmente difícil e uma lição poderosa sobre a natureza. Resumindo — o peixe faz cocô na água, as bactérias decompõem esses resíduos, transformando-os em nutrientes. Esses nutrientes, por sua vez, são consumidos por plantas aquáticas e algas. Quanto mais as plantas consomem esses nutrientes, menos nutrientes sobram para as algas se alimentarem, mantendo-as sob controle e a água clara. Algumas plantas aquáticas, principalmente as que estão totalmente submersas, também oxigenam a água. Este é o princípio básico. O truque é encontrar um equilíbrio entre esses elementos. Tomar consciência desses elementos, intensamente presentes em nosso dia a dia, é esclarecedor. Percebemos a qualidade da água e do ar, com que frequência chove, com que frequência e onde o sol brilha e com quais seres vivos compartilhamos este espaço. Por exemplo, seixos, rochas e superfícies ásperas debaixo d'água são boas para hospedar muitas bactérias, mas seixos muito pequenos podem ser comidos por peixes maiores, e algumas rochas podem liberar nutrientes na água que alteram seu pH. Níveis e mudanças drásticas de pH estressam os peixes (às vezes causando a morte), e é possível identificar mudanças em seu comportamento. A água da torneira mata os peixes; há muitos produtos químicos. Há todo um processo de espera pela evaporação dos produtos químicos ou de tratamento da água de diferentes maneiras. Até a água da chuva pode ser contaminada pela poluição do ar. À medida que a água evapora com o calor e o sol, a água do lago fica mais dura, mais densa de nutrientes e o pH é alterado com o tempo. Por outro lado, as plantas aquáticas precisam do sol, e você pode ver quando elas tiveram muito sol; as folhas ficam amarelas. Trocas parciais de água a cada poucas semanas são ótimas para manter o lago claro e limpo, assim que você garanta de que não está descartando ovos, ninfas e outros pequenos animais que criaram um lar neste lago. E por parcial quero dizer: nunca substituir mais de 40% do conteúdo total de água de uma vez, para não perturbar o ecossistema muito rápido. Água de peixes rica em nutrientes pode ser usada para regar plantas em vasos, e água tratada limpa pode ser usada para encher o lago de novo. Tornar-se consciente do equilíbrio entre o brilho do sol e a chuva no que se refere a outros seres além de você é muito enriquecedor. E, acredite em mim, muitos outros seres aparecerão num lago natural. No primeiro mês, eu estava vendo ovos e minhocas, tirei fotos e tentei identificar o que eram. Os peixes comeram as minhocas e os ovos viraram caracóis. Os caracóis comem todos os tipos de restos de matéria orgânica e ajudam a limpar o lago (assim como os camarões), e alguns até oxigenam a água. Mas se eles morrem, fica um cheiro ruim, e eles podem se reproduzir fora de controle. As carpas gostam de comer esses pequenos caramujos, com a concha mais macia. Mas os peixes menores não. As sanguessugas, no entanto, vão manter a população de caramujos sob controle, sugando-os até secar e deixando apenas a concha. Você pode distinguir uma sanguessuga de uma minhoca pela maneira como ela se move e sua forma — elas têm cabeças pequenas e extremidades traseiras mais largas, movendo-se como acordeões. Se um grudar na sua pele, não se preocupe, a maioria não é prejudicial para humanos e peixes. Essas sanguessugas aparecem do nada e podem se tornar ainda mais populosas do que os caracóis. Nesse caso, você pode usar folhas secas de amendoeira para manter sua população sob controle. Debaixo d'água, essas folhas liberam nutrientes que controlam a qualidade da água. O ser mais empolgante que testemunhei fazer um lar no lago foi uma libélula. Um dia, notei uma voando, mergulhando a cauda na superfície da água repetidamente. Aparentemente, ela estava botando seus ovos ali. Havia tanta coisa que eu não sabia sobre o ciclo de vida de uma libélula e pude testemunhar de perto. Acontece que as libélulas passam a maior parte de suas vidas debaixo d'água, como ninfas. As ninfas da libélula comem sanguessugas, larvas, girinos e até peixes pequenos. Começam como ninfas minúsculas, transparentes ou verdes, com patas, cabeça e cauda. Ela eventualmente se transforma em uma coisa de seis pernas, com aparência de uma barata debaixo d'água. Eventualmente (no meu caso, quase um ano depois) ela sai de sua pele como uma cobra, e voa para acasalar e colocar ovos em outro lago (se elas não forem comidas por pássaros primeiro, claro). Além disso, é um animal tão antigo que coexistiu com dinossauros. Seus ancestrais são de mais de 200 milhões de anos atrás! Às vezes, você tenta resolver um problema e cria outro. Um dos meus peixes morreu por causa do que parecia ser uma infecção fúngica. Havia manchas brancas como algodão no lago e no peixe. Embora uma pequena quantidade de sal marinho puro na água possa ajudar a combater a erupção de bactérias e fungos (mesmo em lagos de água doce), esse tratamento com sal matou minhas plantas aquáticas. Várias coisas podem matar as plantas. Peixes mordiscam as raízes, lagartas e vermes se alimentam das folhas, falta de sol, etc. Claro, eu quero que as borboletas sobrevivam; o truque é ter plantas suficientes, então você pode sacrificar uma ou duas para elas. Na verdade, as plantas aquáticas não são fáceis de encontrar e costumam ser mais caras do que os peixes. Transportá-las por longas distâncias é complicado e, quando você encontra algo, geralmente é o mesmo tipo de espécie (útil, embora invasiva). Existem vários tipos. Algumas flutuam; algumas enraízam-se apenas em água com folhas secas; algumas enraízam em substrato no fundo do laguinho ou em vasos submersos; algumas precisam ser completamente submersas e são impedidas de flutuar por rochas, seixos ou substrato. O substrato é complicado porque pode facilmente afetar a água, seu pH, sua clareza, etc. Então, você tem que encontrar uma maneira de cobrir o solo rico em nutrientes com areia e pedras, para que não faça bagunça na água. A variedade é valiosa porque cada planta tem suas características e comportamento, e pode desempenhar papéis diferentes e importantes. A batata-doce, por exemplo, é ótima para remover nitratos da água. Um terço dela fica submersa e o resto acima da água. Rapidamente, as raízes crescem, e os caules e folhas sobem. Mas depois de 2 meses é melhor remover, pois, se apodrecerem, os peixes podem morrer. Nesse momento, pode-se destacar os caules e colocá-los de volta na água, descartando o restante na compostagem. Novas raízes vão crescer e o processo pode ser repetido a cada 2 meses. Existem também várias plantas domésticas que crescem em vasos que podem crescer facilmente apenas em água, como a planta Aranha, Filodendros, Lírio Flamingo, Caladium bicolor, Syngonium podophyllum, Bambu da sorte, a família de plantas Cyperus e assim por diante. Sem falar em musgo. Existem tantos tipos e são difíceis de cultivar, mas são fantásticos para a qualidade do ar em torno do seu lago, o que é importante para os peixes, uma vez que precisam de oxigenação também. Um japonês chamado Shinya, que cria biótopos e mossários com Medakas, foi meu primeiro ídolo de minilagos. Os tipos de plantas e peixes, sem falar na localização, são literalmente do lado oposto do mundo do meu. Mas, embora fosse impossível imitar seu processo, foi incrivelmente útil e inspirador ver o trabalho dele. As informações que compartilho aqui são baseadas na minha experiência pessoal, num contexto geográfico e social específico, portanto, não podem ser reproduzidas de forma idêntica em nenhum outro lugar. Mas esse é o problema de sair do paradigma da industrialização — a natureza não é uma linha de montagem. Não pode ser entregue, só pode ser descoberta, e a jornada é nossa. Podemos ser incapazes de controlar diretamente os níveis de poluição do ar de nossas cidades, mas conhecer e aplicar os fundamentos disso ao nosso reino pessoal e comunitário é um primeiro passo valioso. No mínimo, pode mudar a forma como nos sentimos e nos apresentar a novos conhecimentos que são imediatamente usados ​​e colocados em prática. Mais importante ainda, essas microiniciativas podem nos ajudar a nos conectar com nosso ambiente natural de uma forma mais saudável e sustentável, e podem expandir e melhorar nossa perspectiva do lugar onde vivemos. ÍNDICE AGUAPÉ Esta planta aquática flutuante é considerada invasora. Na natureza, ela pode se espalhar e cobrir toda a superfície de um corpo d'água. Seu excesso costuma ser usado como adubo verde. Por outro lado, sua incrível capacidade de filtrar a água a torna útil no tratamento de esgoto. Ela também tem belas flores, embora de curta duração. ALFACE D'ÁGUA Esta planta aquática flutuante reproduz-se incrivelmente rápido e tem a capacidade de oxigenar a água e também de filtrar. Precisa de sol, e depois de dias chuvosos, elas podem precisar que se apare as mudinhas. BATATAS DOCES 1/3 na água, 2/3 acima da superfície. As raízes vão crescer, removendo nitratos da água, enquanto as folhas se espalham como vinhas. Remova após 2 meses para evitar o apodrecimento. Retire os caules e coloque-os de volta na água, descartando o restante no composto. Novas raízes vão crescer e o processo pode ser repetido a cada 2 meses. FOLHAS DE AMENDOEIRA SECAS Lave as folhas secas suavemente com uma esponja e água corrente, para minimizar a contaminação de coisas desconhecidas na sujeira. Deixe secar, guarde em potes, e uma vez por mês coloque uma folha inteira para cada 40 litros de água no lago. À medida que se dissolve e se degrada, ela ajuda o sistema imunológico dos peixes, reduz o estresse, previne doenças, tem propriedades antifúngicas e antibacterianas e reduz naturalmente o pH. CARAMUJOS Os caramujos são bons em comer o excesso de matéria orgânica e sobras de ração para peixes e ajudam a manter o tanque limpo. Eles também oxigenam um pouco a água, a menos que morram e apodreçam no fundo do lago, deixando o local fedido também. Alguns tipos se reproduzem muito rápido. A carpa gosta de comer os pequeninos com a casca ainda mole, o que mantém a população sob controle. No entanto, peixes menores como guppy's e platy's não os comem. SANGUESSUGAS Sanguessugas comem caramujos. Elas se parecem com minhocas, mas com cabeças pequenas e costas mais largas, movendo-se como acordeões em vez de chacoalharem que nem minhocas. Carpas e Koi também adoram comer isso, comem quase tudo. Mas, novamente, com os peixes pequenos, temos que ficar de olho no quão equilibrada está a população de caramujos / sanguessugas. Se houver muitos caramujos e apenas algumas sanguessugas, deixe para lá e as sanguessugas vão fazer seu trabalho aos poucos. Se os caracóis começarem a desaparecer e muitas sanguessugas, maiores, começarem a dominar a área — experimente colocar novas folhas amendoeira secas. LIBÉLULAS As ninfas da libélula comem sanguessugas, larvas, girinos e até peixes pequenos. Se você ver uma libélula voando e mergulhando sua bunda na superfície da água, ela está deixando cair ovos. Eventualmente, você verá uma ninfa pequena, transparente ou verde, com pernas, cabeça e cauda. Ela eventualmente se transforma em uma coisa de seis pernas, com aparência de uma barata debaixo d'água. Eventualmente, ela dai de sua pele como uma cobra e voa, para acasalar e colocar ovos em outro lago. Ela passa a maior parte de sua vida debaixo d'água e é um animal tão antigo que coexistiu com dinossauros. SAPOS Eles vêm, bagunçam as plantas, fazem cocô na água, mas são ótimos — comem mosquitos. Eles podem botar ovos e os girinos saem, mas nem sempre sobrevivem, pois, pode haver predadores, como os besouros subaquáticos e as ninfas libélulas. Por Mirna Wabi-Sabi Read the original in English at Abeautifulresistance.org

  • Pare de tentar salvar povos indígenas

    Como 'defensores' dos povos indígenas, podemos inconscientemente reproduzir a falácia de que somos nós que precisamos conceder a eles espaço numa chamada estrutura desenvolvida Em vez de 'salvá-los' [povos indígenas] devemos parar de destruir. E esse é um trabalho que temos que fazer para nós mesmos, não para o outro. É comum que pessoas ou instituições brasileiras façam gestos gentis a comunidades indígenas e, em seguida, enquadram isso como um grande esforço em defesa de seus direitos. Por exemplo, pagar indígenas para construir uma estrutura tradicional dentro de um museu. Às vezes, até coisas simples como comparecer a uma aldeia e dizer "oi", levar alunos para uma visita ou comprar objetos deles se tornam uma grande declaração política. Não é. É decência básica, como pagar por bens e serviços ou tratar outra pessoa como ser humano. Escrito por Mirna Wabi-Sabi Leia na Opendemocracy.net

  • Mirna Wabi-Sabi, Movimento Atreva-se Podcast

    A nossa conversa da semana vai ser com a Mirna Wabi-Sabi @mirnawabisabi Mirna escolheu o livro "Interseccionalidade", de Carla Akotirenee, e foi ele o fio condutor da nossa conversa.

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