Ucrânia: “Se render não é uma opção”

Atualizado: 12 de abr.

Este artigo vem acompanhado de entrevistas legendadas no YouTube, que também podem ser ouvidas no nosso podcast ou lidas como transcrição aqui.
Kseniia Tomchyk na Rodoviária do Rio de Janeiro, dia 7 de março de 2022, por Fabio Teixeira.

Enquanto milhões de pessoas escapam da guerra na Ucrânia, este mês, Kseniia Tomchyk voltou para a cidade onde nasceu, Berehove, perto da fronteira com a Hungria. Depois de ter passado 7 anos no Brasil, o conflito a motivou a retornar ao seu país natal para ajudar sua família. Além do amor e preocupação pelos pais, ela também é motivada por valores humanos. De acordo com Tomchyk, Putin é um “ditador psicopata” que não aceita a independência de seu país, e muito menos a tendência de seu povo de ir em direção aos valores europeus.

O debate que circula esse acontecimento geopolítico trágico tende a focar na relação entre a OTAN e a Rússia, e políticas internacionais dos Estados Unidos. Mas, para Kseniia, “usar a ‘OTAN’ como explicação é uma desculpa esfarrapada”. Na intimidade da família, onde há sonhos de um futuro melhor, Kseniia mostra como os princípios éticos e morais de seu povo podem chegar mais perto da verdadeira razão deste conflito.

Na entrevista acima, Kseniia se apresenta, e nos conta por que está voltando para a Ucrânia.

O que são valores europeus, e como eles diferem dos valores russos? Kseniia descreve a Rússia como um país autoritário, onde não há democracia, a imprensa não é livre, e não ha liberdade em geral. Por outro lado, a Europa prega valores “democráticos: vida, liberdade e respeito”. Eles são formalizados num artigo do Tratado da União Europeia, e visam garantir que a população tenha a liberdade de “expressar opiniões”, inclusive através do voto.

A Rússia, em teoria, também tinha eleições. Putin sempre ganhou, e quando ele chegou no limite de termos consecutivos, Medvedev entrou no poder, mas nunca se candidatou novamente. A Rússia Unida, o partido hegemônico do país, tem valores que existem em simbiose com os de seu líder. Esses princípios são denominados “conservadores”, “pragmáticos”, e “anti-radicais”.

“Conservadorismo” pode ser visto como associado aos valores da igreja russa ortodoxa. Entre outras coisas, ela formaliza a categoria de Patriarcado, já que um indivíduo no papel denominado Patriarca exerce poder político e trabalha em proximidade com o partido. “Pragmatismo” pode ser visto como a priorização de assegurar a ordem, acima de qualquer outra motivação moral e ética (como liberdade de expressão). E “anti-radicalismo” representa a rejeição do paradigma político binário de esquerda e direita, favorizando a centralização ideológica e governamental.

O ‘anti-radicalismo’, em particular, tem relação direta com o estado precário do jornalismo independente na Rússia — O que, recentemente, se tornou um problema global. A Rússia é notória por ser um lugar perigoso para jornalistas, com centenas de mortes e desaparições registradas. Desde os anos 90, após a queda da União Soviética, a constituição do país inclui a liberdade de imprensa, mas, na prática, jornalistas são coagidos a praticar a autocensura.

Hoje, a Rússia se torna uma ameaça a jornalistas internacionais. Desde que a guerra na Ucrânia começou, pelo menos 12 jornalistas foram mortos. Uma ameaça à mídia, é uma ameaça à democracia, pois o povo precisa estar informado, ou ter acesso a perspectivas plurais para tomar uma decisão informada sobre suas posições políticas.

Por esse motivo, dentre outros, Putin não é um líder que conceitualmente representa os valores da Democracia, mas ele tem o apoio de muitas pessoas na Rússia, assim como ha muitas pessoas que aderem aos princípios de seu partido. Se houvesse eleições, ele teria altas chances de ganhar. Kseniia acredita que "não podemos culpar isso apenas na falta de informação ou manipulação midiática. A população russa tinha acesso à internet antes deste conflito começar" e, em teoria, um mundo de informação estava ao seu alcance. O governo pode formalizar valores grandiosos e belos, e colocar eles no papel, mas cada pessoa também tem a responsabilidade de colocar esses valores em prática, no dia-a-dia. Agora, há uma oportunidade para essas pessoas repensarem essa posição complacente com valores duvidosos, já que a Rússia está com sua reputação abalada, e sanções estão causando desconforto em toda a população.

Na entrevista acima, Kseniia nos conta o que tem feito na Ucrânia e sua perspectiva sobre situação política de seu país. [Transcrição disponível abaixo]
Transcrição: Ucrânia
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A Europa tem suas contradições, ela acumulou riqueza através da ocupação e exploração de países colonizados, ainda tem Monarquias, e em muitos casos, pelo menos até recentemente, leis que proíbem “injúria à majestade” na mídia (Lèse-majesté). Portanto, quanto falamos de liberdade de imprensa, a coerção de jornalistas independentes não é uma prática exclusiva da Rússia. Nos EUA, alguns 'whistleblowers' famosos (e.g. Assange) também se exilaram, alguns até na Rússia, como é o caso de Snowden. No Brasil, temos políticos, pesquisadoras e escritoras que receberam ameaças ao ponto de se exilarem na Europa (Jean Wyllys, Larissa Bombardi, Marcia Tiburi, por exemplo). E também assassinatos políticos, como no caso de Marielle.

Ir em direção a um valor europeu como a liberdade jornalística não necessariamente significa acreditar que a civilização europeia ou democrática seja superior, pois ela está longe de ser perfeita e de colocar seus valores propriamente em prática.

No caso da Ucrânia, como descrito pela Kseniia, preferir um conjunto de valores, mesmo que ainda não sejam perfeitamente praticados, significa acreditar numa jornada em direção a um horizonte, um potencial desejável para o futuro. Isso existe em oposição a uma sociedade cujas autoridades oferecem um horizonte, um objetivo final para o povo, que apesar de visar a igualdade social e minimizar a desigualdade econômica — valores registrados no manifesto do partido Rússia Unida — também visa uma existência confinada no paradigma do Patriarcado cristão. E mais, onde autoridades têm o propósito de centralizar o poder através da erradicação de ideologias divergentes, em prol da ‘ordem’ através do controle social.

Isso não quer dizer que alguns ucranianos não adotam valores russos e preferem escolher esse caminho. Considerando o histórico de coerção, corrupção e reportagens pouco verdadeiras, julgar a autenticidade dessas posições pode ser tentador. Mas no final, todos nós lidamos com desinformação que alimenta a polarização política. O que garante a existência de um Estado é o consentimento da população, e criar e manter esse consentimento é um grande desafio, tanto quanto é essencial para a eficácia de suas políticas. Em outras palavras, a população de um país democrata, em teoria, ativamente permite a existência do Estado e viabiliza suas ações. Porém, é comum que esse consentimento seja adquirido através da coerção e da manipulação midiática.

Isso não é apenas verdade na Rússia. É comum, numa democracia, que indivíduos votem para um candidato “menos pior” — cujos valores não os representam robustamente — porque sabem que o político (geralmente um homem) tem mais chances de ganhar. Especialmente numa nação como os EUA, que, apesar de se considerar politicamente descentralizada e livre, as eleições são centralizadas em 2 partidos (Republican e Democrat). No Brasil, muitas pessoas que tinham críticas ao regime político do Lula e da Dilma, também se posicionaram contra o impeachment de 2016, e estão mais que dispostas a colocar o PT de volta no poder, se isso significar a remoção do Bolsonaro de seu cargo. Nenhuma opção é perfeita, mas é uma alternativa preferível, quando não enxergamos outra.

Certas opções são preferíveis o suficiente ao ponto de arriscarmos nossas vidas para garantir que iremos em direção a elas. Na Ucrânia, “nenhuma pessoa ferida na guerra, que está no hospital agora em Berehove, pretende voltar para casa depois de se recuperar. Todos vão voltar à guerra. Queremos ser livres, e não existir para satisfazer os desejos e ambições de um indivíduo [Putin]” (Kseniia Tomchyk). O terror e a urgência desse paradigma global da democracia e da luta pela liberdade é que ele ameaça a sobrevivência de pessoas vulneráveis.

Kseniia se arriscou ao voltar a sua cidade natal para defender seus valores, e apoiar sua família. “Grandes organizações ajudam, mas cada um fazendo a sua parte nos leva muito mais longe, e alcançamos muito mais.” Todos em seu vilarejo com espaço em casa estão abrigando alguma família refugiada. Doações de roupas, remédios e comida não param de chegar. “Me perguntam como eu posso voltar para a Ucrânia nessa situação, e eu respondo ‘como posso não voltar!’ Se render é dizer que concordamos. Preferimos morrer do que nos render a isso. Não é uma opção viver sob o controle do Putin. Ucranianos não querem ser escravos de um psicopata com ambições, e viver para satisfazer essas ambições. É até difícil responder à pergunta ‘por que não se render?’, essa possibilidade nem passou pela nossa cabeça. Se render não é uma opção.”



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Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e tradutora. É fundadora e editora chefe da iniciativa Plataforma9 e autora do livro de bolso bilíngue Anarco-Transcriação.